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Edição 135
FEITO À MÃO

Made in Campo Bonito


Foto(s) Kássia Beltrame

Publicado em 09/03/2020


Ela tem 41 anos, é filha de agricultores, mora em Campo Bonito e comanda uma indústria de acessórios e moda verão em expansão no mercado internacional

Rosangela Iaschombeck sempre se sentiu confortável na cozinha. Nos intervalos do trabalho, numa multinacional em Curitiba, elaborava pratos para presentear seus amigos, em geral pessoas idosas. Os dotes culinários lhe renderam até o apelido “Moça Prendada”. Em seus projetos futuros, iria montar uma cafeteria. 

Porém, um tear apareceu em sua vida. Numa visita a uma feira, Rosangela se encantou com as habilidades da artesã. No outro dia, estava inscrita num curso. Para seu desespero, não aprendeu nada. “Comecei a chorar em cima do tear, pois tinha feito um investimento alto”, conta. Após algumas pesquisas descobriu que podia fazer do seu jeito e embrenhou-se na máquina.

As primeiras peças autorais foram vendidas de porta em porta, em casas e lojas de acessórios. Numa destas lojas, a empresária se compadeceu e aceitou ficar com dez lenços em consignação. “Meia hora depois ela me ligou entusiasmada. Tinha vendido seis somente para uma cliente. A partir dali, a produção não parou”.

Com a demanda crescente, a artesã conseguiu uma vaga na feirinha do Largo da Ordem em Curitiba. Novamente, pelas mãos de um cliente, os lenços com design brasileiríssimo foram parar no Japão. E dali para o mercado europeu todo. A participação em feiras internacionais na França e na China alavancou a exportação de lenços e bolsas da Moça Prendada para o Egito, Espanha, Alemanha, Índia e algumas ilhas da Inglaterra. 

A pequena indústria foi transferida para Campo Bonito, distante 450 km da capital. “Meu pai adoeceu e resolvi ficar mais perto da família”, afirma. Focada apenas na produção e distante da parte administrativa e financeira, demorou para perceber o rombo. Quando viu, acumulava uma dívida monstruosa. Recuou um tempo até se equilibrar emocional e financeiramente, e partiu para voo solo.
É claro, o faturamento despencou. A realidade era outra. Sem sócio ou representante, encarou o desafio de abrir novos mercados. Com peças diferenciadas e de altíssima qualidade, a Moça Prendada não só deu a volta por cima como está se reinventando: acaba de lançar a moda praia. São maiôs e biquínis feitos à mão, com detalhes de tecido trançado no tear. “Eu gosto de fazer o que não existe”, diz.

MENTE CRIATIVA
Entra aí a sua capacidade inventiva e de observação. Em cada viagem, uma nova inspiração. Da observação das pessoas e costumes nascem as criações. “Às vezes, acordo à noite com uma ideia e desenho”.  Mas não basta só instinto. Pesquisa de mercado é outro ponto chave. “Após a crise, os hábitos mudaram muito. Por exemplo, antes a tendência era mescla colorida. Hoje são as cores escuras”. Para garantir qualidade, as fitas usadas na fábrica são importadas. 

FEITO À MÃO
Na contramão da supremacia digital caminha a Moça Prendada. “O trabalho artesanal, muito valorizado lá fora, ainda engatinha por aqui”, afirma Rosangela. “Nossa esperança é que esta onda chegue ao Brasil. Valorizar e investir no feito à mão significa contribuir com a perpetuação de saberes. Sempre há um propósito social”. Atualmente, a empresa tem cinco funcionárias e produz 700 peças ao mês. Os teares são manuais e exigem concentração e vibração positiva das tecelãs. “O tear é uma arte e não aceita pressão”, complementa.
 
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GOOGLE TRADUTOR
Inicialmente, Rosangela dependia de representantes para vender e de tradutores para fazer as negociações internacionais. A operação tornou-se inviável. Agora, com a ajuda do Google Tradutor, faz sozinha todas as transações em diferentes línguas, do francês ao japonês. 

Estar numa cidade pequena, segundo ela, tem mais vantagens que desvantagens. A tranquilidade, a segurança e o envolvimento da equipe é maior. A questão logística seria um complicador, mas tudo se resolve com planejamento. Matéria-prima em estoque e boa conexão telefônica são imprescindíveis. “Daqui falamos com o mundo e o mundo pensa que somos gigantes”, brinca a empresária. Não é para menos. Se as peças são primorosas, todo o material de divulgação, incluindo portfólios e site (www.mocaprendada.com), seguem a mesma linha, altamente profissional. 

E OS DOTES CULINÁRIOS
Bem, a culinária continua sendo a segunda paixão de Rosangela. Quando não está no comando da indústria, está ajudando a mãe na produção de bolachas caseiras. As bolachas “Mãe Alzira”, nome dado em homenagem à mãe, são personalizadas para datas comemorativas e tem clientes cativos em Cascavel e Foz do Iguaçu. As receitas assim como os acessórios da Moça Prendada têm uma identidade própria. “Pesquiso receitas de outros países e desenvolvo aqui”. 


Peças artesanais fabricadas em Campo Bonito conquistam mercado internacional 

 

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1 COMENTÁRIO(S)

Produtos maravilhoso, gostei muito quero saber mais sobre a matca.
comentado por Roziane Lopes em 11/03/2020
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