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PÁGINAS AMARELAS

Um banco para elas!

Publicado em 26/03/2020


As mulheres lideram o mercado de criação de empresas no Brasil. Dados da pesquisa da Global Entrepreneurship Monitor, conduzida pelo Sebrae, mostram que o país tem aproximadamente 24 milhões de mulheres empreendedoras. Ainda de acordo com o Sebrae, elas responderam por 34% dos empreendimentos criados no Brasil em 2018.  

 
Os dados apontam que a proporção de “Empreendedores Novos” – os que têm um negócio com menos de 3,5 anos – é maior entre elas: 15,4% contra 12,6% de homens. Mas, apesar de os números mostrarem uma grande proporção de mulheres na liderança dos novos negócios, a pesquisa mostra que em cada dez empreendedoras, apenas 3,9 viram donas do negócio. Entre os homens, a proporção é de 6,5 para dez.

As mulheres empresárias, aponta o estudo, pagam taxas de juros maiores, apesar da taxa de inadimplência ser mais baixa. Também ganham 22% a menos que os homens e mais de 2/3 trabalha sem CNPJ. Em Cascavel, o número de microempreendedoras individuais (MEIs), segundo dados do Portal do Empreendedor, é de 6.206 mulheres e 7.843 homens. Diminuir a diferença de gênero nos negócios e oferecer uma rede de apoio às mulheres é o objetivo do Banco da Mulher. Heraldo Alves das Neves, diretor–presidente da Fomento Paraná, responsável pelo banco, fala sobre o assunto.

Sob quais perspectivas foi criado o Banco da Mulher?
O objetivo é estimular o empreendedorismo feminino no estado, como forma de ampliar a geração de emprego e renda. A intenção de criar o programa levou em conta dados estatísticos que apontam a dificuldade das mulheres obterem crédito para iniciar um empreendimento. Também foi considerado o fato de que a mulher é mais suscetível a perder o emprego em tempos de crise, mas sua necessidade de renda e sua responsabilidade com a família não diminui com a perda do emprego. Então a intenção é contribuir para que pequenos negócios mantidos por mulheres, ou nos quais a mulher é sócia, possam ter acesso a crédito barato, com prazos longos para pagamento, de modo a não comprometer a capacidade de pagamento dos empreendimentos. 

O que o programa inclui?
O programa inclui linhas de microcrédito — que atendem financiamentos de até R$ 10 mil para pessoa física e até R$ 20 mil para pessoa jurídica, com faturamento anual de até R$ 360 mil — e linhas em valores entre R$ 20 mil e R$ 500 mil para empresas que faturem até R$ 4,8 milhões. Sempre considerando que a mulher tem que figurar como sócia ou proprietária do negócio. Futuramente pretendemos acrescentar ao programa um fundo que permitirá a participação em pequenos negócios que envolvam inovação em empresa do tipo startup.

O sistema financeiro tradicional é excludente em relação às mulheres. De que forma o Banco da Mulher pretende atuar para chegar a este público? 
O sistema financeiro é excludente não somente em relação à mulher, mas certamente elas são muito afetadas. É o que mostram os dados. No nosso histórico de atuação verificamos que o acesso ao sistema financeiro é muito difícil para quem está começando. E a Fomento Paraná, como instituição financeira de desenvolvimento pública, tem exatamente essa função de facilitar o acesso ao crédito, especialmente para aquelas pessoas que não têm acesso ao sistema bancário convencional. Além disso, praticamos taxas de juros mais baixas que os bancos, e os prazos para pagamento também são bem maiores, para não comprometer os empreendimentos. 

Entram aí os agentes de crédito?
Isso mesmo. Nossa atuação, especialmente no microcrédito, que é onde está o público mais necessitado, é por meio de agentes de crédito. Os agentes atuam nas prefeituras, agências do trabalhador e algumas associações comerciais, por meio de parcerias firmadas com a Fomento Paraná. O agente, por ser um profissional morador da região, conhece o perfil econômico da cidade, conhece as pessoas. Então isso facilita a análise, concessão e acompanhamento da aplicação do crédito.

Qualquer empreendedora pode solicitar crédito? 
Como tudo, temos algumas regras do negócio que precisam ser atendidas, mas o crédito está disponível para qualquer empreendedora residente no Paraná. A maior limitação é que não pode ter restrição no CPF, ou no CNPJ do empreendimento, nem do sócio ou do avalista. Também é preciso ter um avalista com renda compatível com o valor das parcelas. Satisfeitos esses requisitos, e mediante a apresentação de documentação pessoal, comprovante de endereço, certidão de casamento e um plano de negócios, o crédito pode ser aprovado e liberado em poucos dias. O recurso pode ser usado para compra de máquinas, equipamentos, pequenas construções, reformas ou ampliações, ou ainda compra de matéria-prima, como capital de giro associado ao investimento.

Quais as linhas de crédito? Juros?
No microcrédito, dentro dos limites que citamos acima, a taxa de juros é a partir de 0,98% ao mês para empreendimentos que têm mulheres como proprietárias ou sócias. Os prazos no microcrédito são de até 36 meses, com direito a três meses de carência. Para valores acima de R$ 20 mil existem diversas linhas, algumas com recursos próprios da Fomento Paraná, outras com repasses de instituições como o BNDES. Nesse caso, temos taxas a partir de 0,46% ao mês e prazos de até 60 meses para pagar, com possibilidade de carência de até 12 meses.

É muito burocrático?
É um pouco burocrático, porque a Fomento Paraná não é um banco convencional onde o cliente tem conta e o gerente tem acesso a todas as informações sobre a renda, o endereço, etc. Então, nós precisamos solicitar toda a documentação, analisar o cadastro, analisar o projeto de investimento. Como o nosso modelo é o microcrédito produtivo orientado, pode ser feita uma visita para verificar a existência do empreendimento. Então, pode demorar uns dias, mas se está tudo certo, inclusive com a documentação, em menos de uma semana o crédito é feito na conta corrente indicada pelo cliente. Temos mais de 33 mil empreendimentos beneficiados em menos de uma década. Em dinheiro, significa quase R$ 350 milhões que colocamos em circulação na economia paranaense ajudando a fortalecer milhares de pequenos negócios.

Além de um grande número de empresárias, Cascavel tem mais de 6 mil mulheres à frente de MEIs. Como tem sido a adesão?
Cascavel, com mais de 320 mil habitantes e com sua economia pujante puxada pelo agronegócio, possui um enorme potencial para empreender, mas ainda não temos números muito significativos. Recentemente participamos de uma grande ação em parceria com a prefeitura, a convite do prefeito Leonaldo Paranhos, que tem feito um grande esforço para estimular o empreendedorismo no município. Foi excelente. Tivemos uma grande procura e nossos analistas não pararam um minuto durante o evento “Cascavel Avança: Fomento & Emprego”. Esperamos que a partir dessa movimentação e desta entrevista para a Revista Aldeia a demanda aumente. 

É um esforço que envolve vários setores, correto?
Sim, também formalizamos parcerias com a Amic, além da própria prefeitura, por meio da Sala do Empreendedor e da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, da SGC Garantioeste, do Secovi e da Casa da Indústria (Fiep). Tudo isso como parte de um grande esforço da Fomento Paraná e do Governo do Estado de fomentar a economia e ampliar o acesso ao crédito para os empreendedores de Cascavel, em todos os níveis e atividades econômicas, de forma a criar empregos e renda que indiretamente melhoram a qualidade de vida das pessoas. E quando os negócios vão bem a tributação melhora e, com mais dinheiro no caixa, o poder público pode fazer mais pelas pessoas em outras áreas, como saúde, educação, segurança, melhoria da infraestrutura, etc.

As mulheres se sentem mais seguras quando se trata de um banco específico para elas? Como têm sido estes primeiros meses?
Aparentemente elas estão sendo bastante atraídas a buscar informação e muitas estão contratando os financiamentos. Desde setembro, quando o programa foi lançado, até a segunda semana de dezembro, tínhamos registro de mais de R$ 8 milhões contratados em microcrédito apenas para mulheres empreendedoras, o que significa algo em torno de 800 contratos. Para 2020, vamos reforçar o trabalho com mídia e também em melhoria dos nossos processos para atender e beneficiar mais mulheres.

Tradicionalmente, as mulheres tomam menos empréstimo e pagam mais juros. Como o Banco da Mulher chegou a uma equação justa?
A Fomento Paraná já possui taxas de juros mais baixas do que as taxas disponíveis em geral nos bancos comerciais convencionais. E, para que houvesse um diferencial, a Fomento Paraná buscou amparo na legislação que nos regula para aumentar o valor da equalização (desconto) da taxa de juros, para proporcionar taxas mais baixas e, por consequência, mais facilidade para pagar o financiamento. Dessa forma o banco da Mulher Paranaense concede uma redução de 7 pontos percentuais na taxa anual de juros. No microcrédito isso significa uma parcela 30% menor do que o microcrédito normal, pois a taxa cai de 1,49% para 0,98% ao mês. Isso pode representar três parcelas a menos para pagar em um financiamento de 36 meses.

No Brasil, a conversão de empreendedoras em “donas de negócios” é 40% mais baixa. A Fomento pode mudar estes índices?
Nosso histórico mostra que a concessão de crédito é praticamente meio a meio, mas, com a taxa diferenciada que criamos com o Banco da Mulher Paranaense, esses números tendem a aumentar em relação aos empreendimentos que pertencem a mulheres. Esperamos que funcione bem.

 

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