Matérias

Edição 138
A UNIÃO FAZ A VIDA

Uma escola asa!

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Fotos Bruna Scheidt

Publicado em 21/04/2020


“A União Faz a Vida”, programa de educação cooperativa do Sicredi, completa 12 anos de atuação na Escola Leôncio Correia, em Céu Azul. É o cooperativismo de crédito, através de sua força econômica e social, transformando realidades"

 
Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas. Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são os pássaros em voo”. Para o teólogo Rubem Alves, as escolas existem para dar aos pássaros coragem para voar. “Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado”. 

Impossível, portanto, encorajar voos em gaiolas. Mas, quando as portas de ferro se abrem, abre-se um universo. Há 12 anos, a Escola Municipal Leôncio Correia, de Céu Azul, criou asas e ousou voar. E, voando, tem encorajado outros voos. Nada, porém, aconteceu solitariamente. A batida de asas começou com o “Programa A União Faz a Vida”, o PUFV, programa de educação cooperativa do Sicredi, implantado na escola. Desde então, são mais de 150 projetos, mais de 1.300 crianças e 145 professores envolvidos.

Usando a sabedoria dos pássaros, que em suas longas viagens se alternam na dianteira do voo, alunos, pais, professores, gestores, parceiros e toda a comunidade se uniram para o que se pode chamar de aprendizado mútuo. Principal iniciativa de responsabilidade social do Sicredi, o PUFV promove valores de cooperação, solidariedade e cidadania para toda a comunidade. “O foco principal é o desenvolvimento humano”, explica o presidente da Sicredi Vanguarda, Aldo Dagostim.

A longevidade do programa, para a assessora de Desenvolvimento do Cooperativismo, Camila Vidotti, deve-se ao engajamento de todos e também ao método assertivo e à formação continuada, com atualização de conteúdos e práticas. “São pequenos trabalhos que ao longo da trajetória escolar fazem a diferença na vida da criança. Tornam-se cidadãos melhores. Pessoas melhores”, reforça a secretária de Educação, Cleonides Wolf da Silva. Ao trazer a família para a escola, explica, o programa impacta toda a comunidade. 
 
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DOIS OTÁVIOS, 
VÁRIOS SONHOS
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Otávio Chiuza: “A escola e os projetos do PUFV me encorajaram para a vida”

Quando Otávio Chiuza nasceu e, em decorrência de uma parada cardiorrespiratória teve sua visão comprometida em mais   de 95%, estava decretado   o seu destino. Pelo resto da vida, seria uma pessoa dependente. Durante algum tempo, em   função da deficiência, estudou na Apae. Não era o seu   lugar. Matriculado na escola regular, surpreendeu. Não só aprendeu   a ler e a escrever. Aprendeu a enxergar. “Além das professoras, que sempre me   apoiaram e incentivaram, os projetos do   PUFV despertaram em mim o gosto pelo aprendizado e pelo saber científico. Também me encorajaram para   a vida”, conta. 
 
Hoje, aos 24 anos, Otávio orgulha-se de sua trajetória. Cursando o terceiro ano de Pedagogia, na Unioeste, tem vários   sonhos. Um deles é multiplicar as boas sementes. “Enfrentei muitas barreiras e ouvi muita gente dizendo que `eu   não conseguiria´, que `não iria dar conta´, mas eu tinha  uma fortaleza dentro de mim”. 
 
Fortaleza essa construída na escola. A mesma escola em que estuda um outro Otávio, o pequeno Otávio Vaz de Souza, de   8 anos. Não só ele, mas todos os colegas estavam em polvorosa. Indisciplina, agressividade, agitação e desrespeito eram   comportamentos no início do ano letivo. Em casa, pais aflitos. Em sala de aula, uma professora desapontada. “Sabe aquele   dia que você explode e para tudo? Aconteceu. Sentamos e começamos a conversar sobre o que poderia ser feito”, lembra a   professora Luzia Bachin.
 
A resposta veio deles. Precisavam de atividades extras para relaxar. E a mágica aconteceu: nasceu o “Projeto Convivendo em Harmonia”. A aposta para acalmar a turminha foi massagem, bolinha de sabão, massinha e até meditação. Tudo muito bem pensado e organizado através do programa. “O Otávio é outra criança. Está mais regrado, gostando dos estudos e vendo a importância da educação”, explicam os pais Luciana e Valdecir.
 
Até mesmo a harmonia dentro de casa, com os dois irmãos caçulas, Heitor e Gabriel, foi restabelecida. “O que realmente mexeu comigo foi esta interação, esta proximidade. Eles mudaram. Mas nós também nos tornamos outros pais, porque a partir deste trabalho agimos diferente, entendemos melhor”, diz Luciana. 

O autoconhecimento foi outro ganho. “Quando ele percebe um ambiente agitado em casa, ele mesmo chama todo mundo para meditar. Depois de um ano, é lindo vê-lo assim tão amoroso e consciente”. Consciência ambiental e consciência financeira são outros reflexos do PUFV. Na casa de Otávio, a separação do lixo virou rotina e no seu cofrinho ninguém põe a mão. “Estou guardando para muitas coisas!”.
 
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Otávio Vaz de Souza abre o seu cofrinho: “Estou economizando para fazer muitas coisas”

QUANDO TUDO 
SE CONECTA
 
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Sophia, com os pais, Márcia e Edilson: aprendizado mútuo
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O projeto que ajudou a apaziguar a turma da professora Luzia foi coordenado pela fisioterapeuta e mãe da aluna Sophia, Marcia Simoni Póli. Além da meditação e atividades manuais, houve um trabalho de orientação postural e autopercepção. “Eles tinham dificuldade de se tocar, de se abraçar. Era chute e empurrão. Conhecendo o próprio corpo, passaram a respeitar o outro e, naturalmente, foram se acalmando”.
Novamente, a cooperação entrou em ação. “Os pais tiveram que estar presentes e sabiam o que estava acontecendo na escola”, explica a professora Luzia. “O mais importante: eles confiaram em mim. Isso é muito forte. Organizei, conduzi e fiz eles acreditarem. Esta crença positiva foi determinante”.

Ao respeitar as diferenças e a movimentação própria de cada um, a responsabilidade, a autonomia e a busca pelo conhecimento e pelo querer aprender vieram junto. Paralelamente, foi realizado o projeto de empreendedorismo “Aromas e sabores”, em que os alunos cultivaram plantas medicinais e temperos para expor numa pequena feira. “Essa abordagem multidisciplinar permite ao aluno obter uma noção do todo e, com isso, refletir criticamente sobre cada questão, utilizar os conceitos e as competências adquiridas”.

Edilson, pai de Sophia, aproveitou todas as atividades da escola para se envolver ainda mais na rotina da filha. “Percebi que a educação da competição e da vigilância deu lugar à educação colaborativa. Tenho aprendido muito com ela. Eles têm uma consciência ambiental, por exemplo, muito melhor que a nossa”, afirma.

GENTE QUE PERGUNTA CRESCE!
 
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Professora Luzia: papel da escola é ensinar a aprender 
 
Já dizia Albert Einstein, “não são as respostas que movem o mundo, são as perguntas”. E perguntar, dentro do “Programa A União Faz a Vida”, é um convite à participação e à investigação. “A educação tradicional sempre cobrou respostas prontas, mas estamos vivendo uma nova era”, explica o presidente nacional do Sicredi, Manfred Dasenbrock.
 
Uma era, segundo ele, em que as perguntas geram ideias, insights. E são naturalmente colaborativas. Produzem trabalho em equipe. “Este é o lado virtuoso do PUFV. Com esta imersão investigativa, a escola passou a não ter muros, engajou os pais e a comunidade. E o mais importante, crianças com brilho nos olhos”.
 
Crianças que crescem em ambiente colaborativo, com base nos pilares de cidadania,   cooperação e solidariedade, explica Manfred, serão cidadãos melhores. “Isso já está se   refletindo. Algumas crianças e jovens que passaram pelo programa já estão no mercado de   trabalho. São pessoas mais solidárias e compreensivas. Só assim teremos uma sociedade mais   justa”, afirma. “Ainda, quando falamos em cidadania é algo que temos que estudar todos os   dias, para avançarmos todos os dias”.

A força do voluntariado no PUFV, afirma, também determina a sua longevidade. As   comunidades têm assumido o programa, escolas públicas e privadas têm colocado em seus   currículos, pais têm procurado matricular filhos onde há o programa. “O Sicredi tem a vontade, a   escola tem a necessidade e a comunidade apoia, mas quem traduz a realidade do método para   aplicação é a assessoria pedagógica, é claro, com o apoio dos nossos líderes operacionais,   nossos gerentes. O projeto não morreu porque tiveram gerentes de agência que foram vitais”,   ressalta. 
 


  PROFESSORA LUZIA BACHIN, é possível construir uma sociedade melhor a partir de pessoas   egoístas?
  Sim, é possível. Se trabalharmos com as crianças desde cedo, se mostrarmos o valor da   solidariedade e se respeitarmos as diferenças de cada um, conseguimos melhorar o mundo.   Quanto mais as pessoas se ajudam, mais a sociedade prospera.



 

Curiosidade
 
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A SABEDORIA DAS ABELHAS
Uma abelha sozinha não faz nada. Vai e vem carregando uma gotícula de néctar, quando muito. Mas, em grupo, tudo muda. Cumprindo tarefas diferentes e bem determinadas, se agigantam. Foi em função desta peculiaridade, o cooperativismo dentro da colmeia, que o PUFV a elegeu como animal símbolo. 
Não são pássaros, mas têm asas. E voam coletivamente!
 
 
 

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