Matérias

Edição 139
PROJETO

Colcha da vida!

Texto Rejane Martins Pires

Publicado em 29/05/2020



Mulheres atendidas pelo CRAS XIV de Novembro constroem uma “colcha narrativa” a partir de suas memórias e lembranças. A colcha revela várias facetas da vida

Quando dona Zilda Paiva nasceu, em 1930, mais de 80% da população brasileira vivia no campo. Ela, assim como tantas outras mulheres, nasceu predestinada ao trabalho duro (e muitas vezes invisível) na roça. Empunhando a enxada, viu a vida passar sem “gosto”. Hoje, aos 90 anos, mãe de 15 filhos, tem muito a ensinar. Sem nenhuma mágoa do passado, tampouco saudade, ela ensina desenhando. É de dona Zilda um dos retalhos que compõem a colcha narrativa produzida dentro do projeto “Nossos retalhos, nossas histórias”, pelo Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV) e Grupo de Mulheres atendidas no CRAS XIV de Novembro.
 
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Em seu desenho, uma espécie de milharal minimalista, nenhum vestígio da vida sofrida na roça. Ao contrário, gratidão pelo alimento. “Fazíamos muita coisa com o milho. Curau, pamonha, polenta, mingau. Meu desenho ficou lindo!”. Na simplicidade de sua fala e de seus traços, a sabedoria do poder feminino de curar mágoas, submissões, incertezas e perdas. Ponto de luz para todas do grupo, ela se reencontrou com seu passado de maneira leve e, fazendo isso, expressou toda a sua verdade. Sem nenhum medo, sem nenhuma dor.

Não era esta a proposta inicial da “colcha narrativa”, segundo a orientadora social Eliane Aparecida Dias. A ideia era apenas destacar o espírito de cooperação em que cada uma contribuiria com seu “retalho”. “Mas à medida que elas foram desenhando, as emoções foram aflorando e o projeto tomou outra proporção”. Por meio de retalhos e relatos verídicos, as mulheres contaram suas histórias e partilharam suas vivências. “Além de desenvolver a parte cognitiva, elas exercitaram outras habilidades, como a coordenação motora, por exemplo”, explica a estagiária de Psicologia, Fernanda Besla. 

Ao mesmo tempo, ao recontar suas histórias através da colcha, as mulheres passam a encarar suas vidas de forma diferente. “E, cada uma contando a sua história, contaram também a história do CRAS”, finaliza.

O que é o CRAS?
É um equipamento público em que são oferecidos serviços, programas e benefícios com o objetivo de prevenir situações de risco e fortalecer os vínculos familiares e comunitários. Pertencem ao território do CRAS XIV de Novembro os bairros Guarujá, Pioneiros Catarinenses, XIV de Novembro e Santa Felicidade. São atendidas 1.519 famílias.

Zilda de Paiva, 90 anos
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“Sou mineira até o rastro e moro há 46 anos em Cascavel. Desenhei um milharal porque era uma das roças preferidas do meu pai. Fazíamos muita coisa com o milho. Cural, pamonha, polenta e mingau. Éramos em oito irmãos e uma vida de muito trabalho. Eu casei com 15 anos e tive 15 filhos. Uma das mulheres, a segunda, participa comigo aqui do grupo, a Geni, de 70 anos. Não tenho saudade da infância. Hoje, sim, posso dizer que vivo. Tenho gosto pela vida. Agora estou vivendo a minha vida. No meu tempo de menina, vivia cansada. Só tive seis meses de escola. Assim que assinei meu nome, meu pai me tirou da escola para trabalhar. Roça, roça e roça. Me senti uma artista pintando. Ficou muito bonito o meu desenho”.
 

Maria Aparecida Correia, 68 anos
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“Nasci em Cruzália, no estado de São Paulo, tenho quatro filhos e há mais de dez anos participo deste grupo. No meu desenho quis retratar a minha infância. Morávamos numa casinha de chão batido com paredes de tabuinha. O fogão à lenha ficava aceso o dia todo e sempre tinha galinhas no terreiro. Era muita gente. Dez irmãos. Não desenhei a família inteira porque não cabia. Era uma vida sofrida, mas feliz. Tenho saudade da convivência com meus pais e meus irmãos. Quando comecei o desenho, me emocionei muito, mas quando terminei e vi a colcha, foi uma alegria”.

Maria José de Matos Marinho, 67 anos
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“Nasci em Bandeirantes, no norte do Paraná, e moro em Cascavel desde 1978. Eu quis retratar momentos da minha infância com meu pai, Benedito. Homem rígido, mas muito carinhoso. Morávamos no sítio e todas as vezes que ele ia pra cidade, em Paranavaí, trazia tecidos para a minha mãe costurar meus vestidinhos, sempre cheios de babados. Saía às 4 da madrugada e voltava altas horas da noite. Trazia suspiros também. Rosa pra mim. Branco e amarelo para os meus irmãos. Ele me agradava muito, pois eu era, na época, a única filha mulher e a mais velha dos seis irmãos. Uma vez ele construiu um pequeno lago de cimento e me deu dois patos de presente. Agradeço a Deus pelo pai que tive e toda a saudade que sinto está neste desenho. Eu queria viver tudo aquilo de novo”.

Maria Julia Thomaz, 53 anos
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“Perdi um filho de forma trágica há seis anos, mas não queria desenhar tristeza. Então, escolhi uma recordação linda da minha mãe, dona Francisca, de 72 anos. Ela casou aos 12 anos e ficou viúva aos 19, com quatro filhos. Criou os quatro trabalhando na roça, mas seu sonho sempre foi estudar. Eu devia ter uns 7 anos quando ela me ensinou a cozinhar. Eu preparava o almoço para levar na roça e, quando ia chegando, ela parava de capinar, se apoiava na enxada e ficava me olhando. Sempre dizia que seu sonho era estudar. E não é que ela estudou! No final do ano, no aniversário da minha irmã que se formou freira, ela surpreendeu todos os filhos lendo um texto que escreveu. Foi lindo. Nos abraçamos e choramos muito. Esta história me alegra, por isso desenhei. No desenho, estou de salto alto e vestido vermelho porque era o meu sonho andar assim (risos)”. 
 
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