Matérias

Edição 140
POLÍTICA

A verdade do samurai

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Diego Krüger

Publicado em 29/06/2020



Neto de japoneses, filho de um coronel da PM, educação duplamente rígida: este é Washington Lee Abe ou Coronel Lee, o homem que gosta de andar descalço e quase declinou da política para montar um martelinho de ouro!

Como era o menino Lee e como via o mundo de sua janela? E, hoje, o que o Coronel Lee tem a dizer ao menino? A partir destas duas perguntas centrais, é possível entender as razões do deputado estadual Washington Lee Abe, nascido em 1965, época em que o mundo vivia a polarização da Guerra Fria. De um lado, os Estados Unidos e o capitalismo. Do outro, a União Soviética e o comunismo.

Criança ainda, vivia num mundo à parte, brincando com viaturas, armas de plástico e fardas de soldado, inspirado principalmente no pai, o coronel da Polícia Militar, Keiji Abe, e na mãe, Tomoko Abe, escrivã "ad hoc" de uma época em que tudo era escasso. Observar o pai decifrando códigos de rádio amador também faz parte destas memórias afetivas. 

As brincadeiras com os amigos, no Rio Belém, no centro de Curitiba, eram das poucas desvinculadas do universo militar. Com um detalhe: só podia ir depois da “lição” feita. “Muitas vezes, uns 12 amigos ficavam embaixo do prédio gritando para eu descer. Minha mãe nunca cedeu”, conta.

A educação era duplamente rígida. Tanto pela cultura japonesa quanto pelas regras militares. Neto de japoneses, Lee viveu seus dias de angústias juvenis. “É difícil ter uma cara diferente num país estranho”, diz. “Eu era o único diferente, ao ponto de falar para a minha mãe que não queria aquele rosto”, continua. Sabiamente, ela reforçava seus valores, traduzidos em força de caráter, honra, honestidade e lealdade. “E num país como o Brasil isso é muito difícil. Sofrido até”, diz. 

Quando confidenciava para o pai que era injusto ir com a sua verdade enquanto todos iam com a mentira, era duramente repreendido: “Um dia sua verdade vai sobrepor tudo isso”. E ponto final. “Eu vim de um lugar em que um olhar e um aperto de mão selam um contrato”, acrescenta.

E a política, era o que imaginava?
Avesso à política até às vésperas da eleição de 2018, Lee responde à pergunta acima com um “mais ou menos”. “É mais pra menos”. Trocando em miúdos: “É um mundo terrível”. “É claro, na polícia a gente mexe com bandido. Na polícia, nem todo mundo é honesto. Não sou hipócrita, mas neste mundo que entrei agora... tem que ter muito sangue frio”.

As reticências deixam transparecer um desconforto. E é. O primeiro semestre do ano passado, revela, foi terrível. Para ele, para a família e para quem o acompanha. “Eu já fui office boy, já trabalhei em escritório de contabilidade, já vendi cachorro quente na Rua XV, já dei aula de judô e tive um bar. Depois entrei na Academia de Polícia e fiquei 35 anos. Mas aqui, na política, é diferente de tudo, de tudo o que você imagina. Suas convicções colidem muito”, diz. “Depois que você entra no mundo político, você vira bandido. Todo mundo acha que você é bandido, corrupto, falso. Você vira tudo. Por isso ainda não me acostumei nesta vida”, reconhece.
 

“Veja só. Fiquei 35 anos na Polícia Militar. Todo mundo conhece a minha postura. A tropa conhece, sabe com quem está lidando. Se eu fosse bandido, teria desviado lá. Atuei no alto comando. São apenas 18 coronéis da ativa. A gente mexe com milhões, com licitações, tudo isso. Nunca fiz nada errado. Mas, na política, você vira bandido do dia para noite”.
 
 
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Sabedoria dos samurais
Para tais enfrentamentos, a sabedoria dos samurais, especialmente de seu guia, Miyamoto Musashi, o maior dos samurais. Seguindo um de seus preceitos, “se a vida de alguém é limitada, a honra e o respeito duram para sempre”, Coronel Lee cumpre sua missão. Aliás, com várias características típicas de um samurai, disciplinado, agressivo e obstinado pela perfeição, sabe cada passo que um homem deve enfrentar para um caminho de paz, mesmo que diante de uma guerra. Lealdade e o respeito ao adversário fazem parte da luta. Servidão também. 

É assim, levando ao pé da letra o significa de “samurai”, que ele segue, inclusive fazendo planos futuros, como a pré-candidatura a prefeito de Cascavel. “Samurai significa servir. É o que Lee faz e sempre fez muito, em casa, na comunidade, com os pais; sempre serviu. Está sempre se doando”, reforça a esposa Vânia, com quem está casado há 31 anos. 

Nas operações, lembra, é o último a tomar água, o último a comer. “Sempre agiu assim, com uma pergunta pronta: ´todos foram servidos?`. Esta servidão é algo natural nele”, afirma Vânia, cujos conselhos na política ou fora da política são pontuais.

“Esperava mais de você!”
Foi assim quando um grupo o procurou ainda na época em que estava no Comando Regional, com 94 municípios sob sua responsabilidade. Assumiu o cargo em 05 de janeiro de 2015. Até então, vida normal de qualquer comandante. Operações, confusões, representações, ações. 

Tudo inerente à profissão. “Aí chegou 2018. O ano da minha reserva. Eu tinha que ir embora e estava triste por isso. Vida militar é engraçada, você sonha eternamente em galgar postos. Você também pisa em ovos eternamente. É uma dor de barriga constante para a família, mas dói sair”, afirma.

Fora da PM, os planos eram outros. Já estava tudo certo em sua cabeça. Iria montar uma oficina de martelinho de ouro, com atendente vestido de branco e ambiente impecável.  Aí começaram os rumores da política. Certo dia, um colega sentenciou: “Esperava mais de você. Entra pra política”!

Aquilo, de fato, ficou martelando. Porém, sem nenhum eco. Até que um dia a telefonista do Comando Regional anunciou um grupo de pessoas. Chegaram sem assunto e sem hora marcada. Não foram atendidos. Passados alguns dias, voltaram. Novamente, não foram recebidos. Insistentes, voltaram. Neste dia, com aval do coronel, subiram à sala. “Abriram um notebook e falaram que estavam acompanhando a minha vida. Logo pensei: é uma multinacional querendo me contratar. Engano, era um convite para a política”.

De súbito, respondeu: “Falaram com a pessoa errada. Não gosto de política”. Para emendar um diálogo, perguntou qual partido. “Não temos partido”. A resposta lhe agradou e a conversa seguiu por duas horas. Na despedida, alguém disse. “Coronel, para que o mal triunfe basta que os bons nada façam”. 

Em casa, remoendo tais palavras, compartilhou o encontro com Vânia, que apenas lhe disse: “Se não gosta, não entre”. Porém, nem tudo na vida tem a exatidão das horas. Em seus momentos de oração, questionava. “Mas como ser candidato? Não tenho dinheiro, não tenho estrutura...”. Aos poucos, as dúvidas foram se dissipando e, num certo amanhecer, ouvindo os passarinhos, decidiu pelo sim. “Isso foi numa terça-feira, e na sexta já tinha toda a documentação necessária para a candidatura”. Elegeu-se com 58.343 votos.

Um eterno aprendizado
Como deputado, mantém-se estrategista. “É um eterno aprendizado. Aqui, na política, tem que saber muito”. Na polícia, explica, se há algum problema em determinada região, você precisa conhecer a fundo. É preciso pensar como os bandidos, como a sua tropa e como a sociedade. Fazer um apanhado geral e desencadear uma operação. “Na política, tem que observar tudo isso. Amigos, inimigos, o campo. Aprendi muito, mas já me decepcionei muito também. Tudo é bagagem e tenho nítida esta ideia de que é uma missão”.

Para não “embirutar”, como dizia o pai, prefere olhar para frente e fazer o que acha certo. “Na polícia, você tem a hora certa de falar, de ouvir e de agir, e na política também. Se você se precipitar, deixando-se levar pela vaidade e pelo ego, está perdido”. Outro estranhamento é a falta de empatia. “Na PM, você não se importa em morrer. Vai na linha de frente como todo mundo. Na política não é assim. Ninguém se importa com você”. 
 

QUEM É ELE? 
Washington Lee Abe nasceu no dia 15 de março de 1965 em Curitiba (PR). Ingressou na Polícia Militar do Paraná em 1985, onde atuou até 2018. É casado com Vânia e pai de Whashington Felipe, Bárbara e Natália.
 

Em que momento as artes marciais e a política se convergem?
Sou graduado em Artes Marciais (aikido, judô e taekwondo). Meu pai me colocou no judô porque eu era briguento mesmo. Com 13 anos já era faixa marrom. Nas artes marciais, aprendi o que é humildade, disciplina e hierarquia, coisa que trouxe para a vida. Na política, há uma diversidade de pensamento e eu tenho que saber conviver, senão vira um inferno. Então, as artes marciais ajudam nisso. 

Do que você tem medo?
Tenho muito medo de cometer injustiça e envergonhar a minha família. Se eu fosse para fazer falcatrua teria feito nos 35 anos de polícia e não agora. E não é só a minha família, meus amigos, meus subordinados e meus eleitores que estão me olhando. O Japão inteiro está me olhando. Por que digo isso? Acabamos de promover a cidade de Sanda, na província de Hyogo, a co-irmã de Cascavel. Isso tem um peso muito forte. Intercâmbios nas áreas tecnológicas e do agronegócio vão surgir desta relação. 

Por fim, o que o Coronel Lee tem a dizer ao menino Lee?
Eu olharia pra ele e falaria assim: venha exatamente como você está vindo. Você vai sofrer muito Lee, mas mantenha a sua posição, seus ideais, sua formação. Este é o caminho. Toque reto. Fazendo isso, não vai se arrepender. Será sofrido, mas quando olhar para trás, não vai ver aquele rastro de destruição. E mais, se estiver no leito de morte, vou dizer: fiz tudo o que podia para deixar um mundo melhor, mas não consegui. Morro tranquilo!
 

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