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Edição 140
PÁGINAS AMARELAS

O quebra-cabeça de Foz

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Bruna Scheidt

Publicado em 30/06/2020



Foz do Iguaçu, o destino mais amado dos brasileiros, a exemplo do mundo todo também foi pego de surpresa pela pandemia da Covid-19. O trabalho agora está sendo remontar o “quebra-cabeça” para voltar aos patamares anteriores à crise. A tarefa não é simples. Nem fácil. Mas possível. E há uma expectativa bem otimista em Foz. Por várias razões. Uma delas vem da união de vários setores em torno do Programa Acelera Foz, o plano de retomada econômica da cidade coordenado pelo Codefoz, Itaipu Binacional, Parque Tecnológico Itaipu, Prefeitura Municipal, Sebrae, Programa Oeste em Desenvolvimento, Acifi e Comtur. Nesta entrevista, Gilmar Piolla, secretário municipal de Turismo, Indústria, Comércio e Projetos Estratégicos, fala sobre as estratégias e esforços locais.

Como você traduz o Programa Acelera Foz?
O Programa Acelera Foz é um exemplo de união e força. Enquanto o presidente da República e os governadores estão brigando, aqui em Foz nós fizemos o contrário, nos unimos para enfrentar a pandemia e sair o mais rápido possível da crise. Na ciência econômica isso tem nome: surto de crescimento econômico (economic growth spurt). Traduzindo, é criar condições para a retomada das atividades com base no tripé: recursos naturais, recursos humanos e investimentos em infraestrutura. Aqui temos a riqueza das águas, a riqueza da nossa gente (diversidade étnica e cultural) e o investimento em obras estruturantes como a Ponte da Integração, acesso ao aeroporto e ampliação da pista, obras no Hospital Costa Cavalcanti, Perimetral Leste, duplicação da BR 469, revitalização do espaço das Américas, entre outras.

É tempo de apostar na inovação também?
Sim, não há competitividade sem inovação. Estamos trabalhando juntamente com o Parque Tecnológico de Itaipu (PTI) para consolidar aqui um polo de tecnologia e inovação da região. Este prédio (Codefoz), inclusive, será transformado num condomínio de startups. As obras devem começar esta semana. Além disso, há todo um trabalho para consolidar Foz como um polo de serviços de saúde (com uma relação direta com o turismo de saúde) e um polo de energias renováveis. A cidade deu uma bela demonstração de que está unida. Isso é muito positivo, pois impacta quem vive aqui e serve de exemplo para outras cidades brasileiras.

De que forma a imagem construída ao longo de anos em Foz vai ajudar na retomada?
Vai ajudar muito. Os destinos de natureza serão tendência no pós-pandemia, nesta nova normalidade que vamos viver. E Foz já estava bem posicionada, batendo recordes sucessivos de visitação. Este ambiente criado com o Programa Acelera Foz é muito positivo porque ele permite esta sinergia de forças. Não tem ninguém remando contra. Além de trabalhar na imagem turística da cidade, vamos fortalecer outras vocações para diversificar a economia. Os investimentos em infraestrutura, portanto, serão fundamentais para darmos um salto quantitativo em número de visitantes. 

Você é um otimista. Como está vendo este novo ciclo de desenvolvimento?
Eu tenho uma tese de que você precisa ter uma agenda positiva. Não pode se deixar contaminar por um agenda negativa. Foz conseguiu isso. Transformou sua imagem de maneira assertiva. Isso vai possibilitar uma recuperação rápida e segura. O turismo foi uma das atividades mais afetadas no mundo todo, mas é um setor que tem uma capacidade de se autorregenerar rapidamente. É uma atividade muito dinâmica que consegue dar respostas rápidas. Assim que houver mais segurança, o turismo vai voltar e voltar com mais força. As pessoas vão continuar viajando. 

Como analisa a virtualização do turismo?
A pandemia proporcionou algumas experiências de relacionamento diferentes, como as videoconferências e reuniões virtuais. Num primeiro momento, os eventos tendem a diminuir de tamanho até porque as empresas vão estar com caixa meio apertado para continuar organizando eventos grandes. Mas os eventos corporativos de lançamento de produtos e as viagens de incentivo vão retornar.

A pandemia vai influenciar no comportamento do brasileiro. Ele vai passar a “olhar” mais para o Brasil?
Acredito que sim, até por conta do fator cambial. Com o dólar na faixa de R$ 6, as viagens internacionais vão ficar muito mais caras. Aí a gente vai ter diferenciais aqui que outras cidades não terão. Um deles serão as lojas francas. Além da cota de 300 dólares das lojas francas de Foz, serão mais 500 dólares na fronteira. Ou seja, não será preciso viajar para o exterior para fazer compras. Outro diferencial será o conforto e o bem estar. Foz do Iguaçu vem se transformando num dos principais destinos termais do Brasil, com resorts bem estruturados. Some-se a isso a tendência de viajar menos para grandes centros e mais para roteiros onde a natureza é protagonista. Outra diferencial é o turismo de eventos, a partir de setembro. Serão eventos de pequeno porte (de 400 a no máximo mil pessoas) e, nisso, Foz é imbatível. 

O que do passado não fará sentido no futuro?
Acredito que a gente vai incorporar uma cultura de cuidados e de distanciamento social. O costume do brasileiro de chegar e abraçar vai mudar. Vamos conviver com a máscara e álcool em gel durante um bom tempo. Serão cuidados permanentes dentro desta nova normalidade até que surja uma vacina ou medicamento eficaz contra o vírus. Haverá mudança de rotinas. Algumas empresas vão valorizar o home office e as viagens de negócio vão diminuir. As companhias aéreas já estão percebendo isso.

Qual o seu maior desafio enquanto secretário?
O maior desafio é ter de começar tudo do zero praticamente, desde captação de voos e novos negócios. É como reconstruir um quebra-cabeça de milhares de peças. Depois de montado, alguém passa, tropeça em cima e desmonta tudo. É o que aconteceu. O mundo foi pego desprevenido. Outro desafio é administrar as pressões e o tensionamento, pois começa a bater um desespero e você se sente impotente porque não consegue resolver o problema de todo mundo. O poder local tem capacidade limitada. Esta pandemia representa um desafio para todos nós. Imagina um empresário que tem mil ou 2 mil empregados? Aqui em Foz tem hoteleiro com mais de 2,5 mil empregados que não consegue dormir. É uma situação inusitada e complexa que exige esforços conjuntos.

Aliás, são estes esforços que colocam Foz como exemplo, certo?
Sim, estamos promovendo a retomada baseados em protocolos de segurança sanitária. Criamos protocolos para cada uma das atividades. Fomos o primeiro destino do Brasil a instituir isso de forma oficial. Também fomos um dos primeiros a instituir o uso obrigatório de máscara. Vamos fazer a testagem maciça. São 34 mil testes para identificar e isolar as pessoas com vírus. Aí vem a questão conjuntural, com voos interrompidos e fronteiras fechadas. Tudo isso permite esta relativa tranquilidade em relação ao que está acontecendo em nível de Brasil. O Paraná de um modo geral está bem, com indicadores muito próximos da Argentina, país que adotou uma medida mais radical, o lockdown
 

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