Matérias

Edição 142
PERFIL

@bariátrica_camila

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Bruna Scheidt

Publicado em 24/08/2020



Camila Martinez, 27 anos, chegou a pesar mais de 123 kg e IMC acima de 40. Dois anos após uma cirurgia bariátrica, perdeu 56 quilos. Desde então compartilha mensagens de estímulo em seu perfil no Instagram

Você é capaz de imaginar a moça da foto ao lado pesando 123,7 kg? Uma obesa mórbida? Uma pessoa depressiva? Uma pessoa com ideias suicidas? Pois é. Esta é a administradora de empresas e instagramer Camila Martinez, de 27 anos.

Ex-obesa mórbida, chegou a planejar o suicídio após uma decepção amorosa e a morte do pai. Só recuou da decisão quando sua mãe, dona Rosires, a abraçou três dias antes – sem saber de nada – e pediu: “Já perdi seu pai, não posso perder você. Não me abandone”. A súplica da mãe a despertou para a vida. “Aí pensei, quanto egoísmo meu! Não tinha este direito”. 

Já pesando 110 kg, numa viagem para Minas Gerais, quebrou o pé. Uma queda banal, mas que devido ao sobrepeso, trouxe sérias complicações. Sem poder caminhar, engordou ainda mais. “Eu estava com 26 anos e se continuasse naquele ritmo, aos 30 estaria com 150 kg.

Ali, naquele momento, começou sua peregrinação pela cirurgia bariátrica. Foram cinco meses até o plano liberar. Neste período, pesquisou sobre o assunto, conversou com médicos de diferentes especialidades, começou a terapia, trocou ideias com pacientes e seguiu todo o protocolo de documentação e exames. “É uma cirurgia que mexe com todo o seu corpo. Você tem de estar ciente de todas as complicações. Não é tão simples assim, mas eu queria viver”, diz.

Paralelamente aos trâmites burocráticos, Camila abriu um perfil no Instagram para compartilhar o seu dia a dia. E, finalmente, em 30 de setembro de 2017, fez o procedimento. Em um mês emagreceu dez quilos. Respeitando o ritmo do corpo e seguindo todas as orientações, em dois anos eliminou 56. “Atualmente estou com 67,2 kg e tenho 1,69 metro de altura. Eu renasci”.

Ajuda pelo Instagram
Com o seu renascimento, surgiu uma outra Camila, agora fonte de inspiração. Selfies pós-cirurgia, receitas, pequenos avanços e mensagens de incentivo para os seguidores servem também de estímulo para ela mesma. O perfil é uma espécie de âncora. “Às vezes estou triste e quando vejo que estou ajudando alguém, me reanimo. Isso é muito gratificante”. 

Ao tratar do seu corpo naturalmente, sem tabus, ela tem conquistado a confiança de pessoas que, igualmente, estão passando pelos mesmos medos e incertezas. “É uma luta diária e precisa ser tratada assim, sem fantasia”, diz, ao lembrar que tem estria, celulite, sobra de pele na perna, nos seios, nos braços. “Agora vou batalhar pelas próximas cirurgias reparadoras. Só fiz a abdominoplastia em que tirei 1,5 kg de pele”.
 
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Consciência e equilíbrio
A compulsão alimentar é outro grande desafio, mas não é impossível vencê-la. O primeiro passo, explica, e ter consciência. “Não posso descuidar agora, pois há o processo de reganho de peso”, afirma. Entra aí o equilíbrio. “Aprendi que não se pode ter medo de comer. Não dá para ser extremista. Você pode comer pizza, por exemplo, mas nada em excesso. Sempre digo que 50% da cirurgia é no corpo e 50% na cabeça. Se você não se conscientizar disso, não tem jeito, não haverá mudança”.

E, no caso dela, uma mudança e tanto. Para quem comia um x-salada no café da manhã, pastel e rissoles no lanche, uma panelada de arroz no almoço e estrogonofe no jantar, a reeducação alimentar é mais que uma conquista. “Eu tinha uma relação compulsiva com a comida. Eu era aquela pessoa que ia no McDonalds e comia um combo, mais um lanche e o que sobrava da minha mãe. Chegou a um ponto em que ela precisava esconder comida de mim”.
 
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Amor próprio
Além das mudanças externas, houve outro renascer. “Aprendi a me amar. Mudei minhas atitudes, minha cabeça. Quando olho no espelho vejo uma mulher que amadureceu”. Esta nova perspectiva impactou diretamente nos seus relacionamentos. “Antes eu me envolvia com pessoas que não valiam a pena porque achava que era a única coisa que eu poderia ter. Hoje não me submeto mais a situações como humilhação e tiração de sarro. Faço as minhas escolhas”. 
 
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Gordofobia existe, sim!
Desde criança, Camila sofreu preconceito. Sem saber como se defender, reagia de forma grosseira. “Eu sempre fui a gorda da turma. Em toda a minha vida não me lembro de pesar menos de 70 quilos. E, quando provocada, me tornava uma pessoa durona, mas quem me conhece sabe que sou doce. A vida me fazia ser daquele jeito”. 
Em outras situações demonstrava ser o que não era. “Sabe a gorda divertida, alegre, sorridente? Pois é, é a mesma que chora sozinha”, conta. Chora porque sofreu bullying no ônibus, na balada, nas festas, na entrevista de emprego, nas lojas de roupa. “Eu ia comprar calça jeans e saía da loja chorando. Quando falava o tamanho, 56, as vendedoras desdenhavam. O obeso não usa a roupa que quer, é o que acha”, diz. 
 
“A cirurgia bariátrica foi a melhor decisão da minha vida, sou uma nova Camila e vou ser melhor ainda. A cada dia é uma evolução. Eu não quero mais ser quem eu era. Eu amo viver, eu quero viver. Olho para trás e pergunto: como cheguei naquele estado? Quase não acredito. Portanto, só mudei quando eu decidi mudar. E só consegui graças a ajuda de outras pessoas. Uma delas é minha mãe. Ela esteve o tempo todo a meu lado”.

 

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