Matérias

Edição 142
AGRÁRIA

Os mestres de Entre Rios

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Museu Histórico da Fundação Cultural Suábio-Brasileira

Publicado em 26/08/2020



Colonizada por 500 famílias de suábios refugiados da Segunda Guerra Mundial, a Colônia de Entre Rios é conhecida por sua excelência na agricultura. Mas nem todos eram agricultores. E esta é a parte desconhecida da história 

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Há um silêncio audível quando se chega na colônia de Entre Rios, distante 30 quilômetros de Guarapuava. Por trás da aparente calmaria, uma história fascinante com alguns capítulos desconhecidos. Fundada em 1951 por 500 famílias de suábios refugiados da Segunda Guerra, a comunidade nasceu a partir de uma organização muito bem pensada. 

Primeiro, pela divisão espacial. Com o auxílio da Ajuda Suíça para a Europa (Schweizer Europahilfe) e dos governos do Brasil e do Paraná, foram adquiridos 22 mil hectares de terra para abrigar as famílias. As cinco vilas, distantes aproximadamente cinco quilômetros uma da outra, mantiveram o nome das antigas fazendas: Vitória, Cachoeira, Jordãozinho, Samambaia e Socorro.

A fundação da Cooperativa Agrária um pouco antes da chegada dos primeiros europeus também fez parte desta estratégia. A cooperativa deu o suporte necessário para que os agricultores começassem a cultivar a terra, especialmente o plantio do trigo e cevada. Mas não é só isso.

A comissão colonizadora liderada pelo engenheiro Michael Moor e pelo seu futuro sucessor, o suíço-francês René Bertholet, pensou em tudo. Tudo mesmo. Antes de optar pelos Campos Gerais, cogitaram instalar as famílias em Goiás. Recuaram. A escolha da área em Guarapuava levou em conta a altitude superior a mil metros, o clima ameno com estações bem definidas, a condição hidrográfica (a colônia fica entre os rios Jordão e Pinhão), a grande oferta de madeira para construir as casas e as terras adequadas à mecanização.

Definidas as áreas, a divisão. Havia critérios também na distribuição das terras. Além de um terreno de 5 mil m² e outra área de 10 mil m² para cultivo próximo à moradia, os agricultores tinham direito a alguns hectares a mais, conforme o número de filhos homens. Algo entre 12 e 20 hectares. Ao contrário do que se pensa, nem todos que vieram eram agricultores. E esta é a parte desconhecida da história. 

O sucesso de Entre Rios deve-se muito à genialidade de Michel Moor, que escolheu a dedo cem “mestres” para compor a colônia. À época, Moor vislumbrou o seguinte cenário: a comunidade, distante de grandes centros e com estradas precárias, só ia prosperar se fosse autossuficiente. Por isso, os mestres, a exemplo do sapateiro, do mecânico, do metalúrgico, do eletricista, do ferreiro, do carpinteiro e do marceneiro. Foram eles que deram todo o suporte aos agricultores. “Os mestres sempre foram esquecidos, mas sem eles Entre Rios não teria prosperado da forma como prosperou”, explica Gerhard Temari, filho do mestre sapateiro Jakob Temari. “Quando uma máquina quebrava, por exemplo, não era preciso ir à cidade. Tudo se resolvia aqui”, conta.

Da fabricação das casas à perfuração de poços e construção de fornos coletivos, lá estavam os mestres. Pelas mãos deles, nasceram também as escolas, as igrejas, os espaços de lazer para a juventude, a biblioteca e até um hospital. Enquanto os agricultores lavravam a terra, os mestres trabalhavam em suas pequenas obras. Todos sob a égide da Agrária. 
 
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REFUGIADOS NOVAMENTE
Nem tudo, porém, seguiu o roteiro pré-estabelecido. Para muitos o sonho acabou em meados da década de 1960, após uma profunda crise na cooperativa. Metade dos imigrantes tiveram de voltar à Europa. Entre eles, vários mestres. A agricultura em crise e a substituição da mão de obra artesanal por equipamentos industrializados desencadearam uma nova espécie de “fuga”. Permanecer no Brasil já não fazia mais sentido. A guerra agora era outra, mas igualmente dolorosa. Já não fugiam da miséria, da opressão e das guerras, mas de uma desilusão. Sem meios para sobreviver e sem perspectivas de futuro, o regresso aconteceu em profundo silêncio. 

OLHAR DE MESTRE
Mas, depois da estruturação inicial, o que aconteceu para que Entre Rios deixasse de ser uma pequena vila para se tornar um polo agrícola e cooperativista de sucesso? Além do trabalho árduo, novamente a visão de uma liderança. No caso, o iugoslavo e também refugiado Mathias Leh, que assumiu a presidência da Agrária no auge da crise, em 1966.
 
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Mesmo com dificuldade de visão, foi um “mestre” em enxergar possibilidades onde ninguém as via. Para enxergar perto, precisou ir longe. Após cinco anos morando em Entre Rios, deixou o emprego como auxiliar de contabilidade na Agrária para conhecer outros mundos. O destino? São Paulo. O trabalho? Atendente no   Restaurante Careca. Ele tinha seus motivos. Um deles era aprender a língua portuguesa. E aprendeu. Do restaurante, foi para uma empresa de importação e exportação. Sabiamente, soube a hora certa de voltar e, em 1957, tornou-se sócio do irmão Philipp numa pequena cerealista. Progrediu, adquiriu terras e já despontava como liderança. Em 1965 foi eleito para o Conselho Fiscal da Cooperativa Agrária e, um ano após, para presidente. Foram três décadas à frente da cooperativa até a sua morte prematura em 1994, aos 57 anos, vítima de um tumor cerebral. 

O olhar calibrado, a inteligência e a ousadia de Mathias Leh ainda ressoam nos corredores da Agrária. A criação da Fundação Agrária de Pesquisas Agropecuária (Fapa) e a construção de dois entrepostos são da sua época. A ampliação do moinho de trigo, da fábrica de rações, do Centro Administrativo, do Hospital Semmelweiss, do Colégio Imperatriz Dona Leopoldina também. Mas um de seus maiores feitos foi a compra da Agromalte da cota-parte da Antarctica Paulista. Uma verdadeira jogada de mestre. 

Com capital 100% da Agrária, a maltaria viabilizou os produtores locais, se tornou a maior da América Latina e ainda trouxe investimentos em áreas pontuais, como saúde, educação e cultura, mantendo vivas as tradições dos suábios. 

FILHO DE MESTRE
Etimologicamente, a palavra “mestre” deriva do latim magister, que significa professor, ou seja, aquele que professa algo, que se dedica à arte de ensinar. Jakob Temari representa bem a saga dos mestres suábios. No auge da guerra, em 1943, deixou a família em Perjamosch para atender à convocação do governo alemão. Já era um mestre sapateiro e graças a isso nunca precisou ir para o front. 
Enquanto cuidava dos coturnos dos comandantes, mantendo-os engraxados e brilhosos, sonhava em reencontrar a esposa Elisabeth e os três filhos, Josef, Georg e Gerhard, já abrigados numa pequena propriedade em St. Martin im Innkreis. “Após o fim da guerra, ainda demorou um ano para ele nos localizar”, conta o contador Gerhard Temari.

Gerhard tinha nove meses quando a mãe, os três filhos pequenos e as tias tiveram que fugir escondidos numa carroça. Havia soldados russos em toda parte e, para despistá-los, esvaziaram a casa, apagaram as luzes e passaram a viver no porão. Após semanas de muita privação, também migraram para a Áustria num plano de fuga muito audaz. “Minha mãe só ficou sabendo da partida poucas horas antes, ao anoitecer, e só acreditou quando viu quatro carroças e os cavalos encilhados próximo à nossa casa”, conta.

Na travessia, medo e fome. Os pães e as batatas eram escassos. Sem leite materno, Gerhard chorava de fome. Diante da cena, uma tia improvisou uma espécie de chupeta, mastigando as cascas de pão até deixá-las líquidas. Colocou este “leite de pão” em um lenço e fez uma espécie de bico. Por alguns dias, este foi seu único alimento. O filho do mestre Jakob sobreviveu. Um ano após o fim da guerra, a família estava unida novamente e pronta para recomeçar. 

Até a chegada no Brasil, em 1951, o mestre Jakob fez fama na Áustria. Fabricava calçados com design moderno para a época e conseguiu um emprego para ensinar o ofício a 40 ex-combatentes, a maioria mutilados de guerra. Porém, ansiava por um futuro melhor para os quatro filhos. Franz, o caçula, nasceu na Áustria. Quando soube do programa da Ajuda Suíça, não perdeu tempo. Inscreveu-se e foi facilmente aceito para integrar o grupo dos cem mestres de Entre Rios.

Em terras brasileiras, Jakob pisou firme. Nos pés de quem usou os seus calçados, esperança e coragem. Agricultores, operários, professores, mulheres, crianças - suábios ou brasileiros - quantos caminhos percorreram? Quanta labuta? Quanta terra arada? Quantas encruzilhadas? Mas também, quantos sonhos, festas e momentos de alegria? Martelando, colando e batendo sola o dia inteiro, a vida inteira, o mestre Jakob deixou o seu legado. E, como mestre que foi, ensinou que é “caminhando que se faz o caminho”. Para o filho Gerhard, o pai não só deixou um legado de esperança, mas de amor também. “Sinto orgulho de ser filho de um sapateiro, um mestre sapateiro”.
 
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Gerhard Temari, filho do mestre sapateiro Jakob, mostrando os instrumentos utilizados pelo pai: ofício aprimorado no pós-guerra
 

MULHERES MESTRAS
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Mulheres fazendo a semeadura. Nos pés, botinhas certamente fabricadas por um mestre sapateiro

Assim como dona Elisabeth, mãe de Gerhard Temari, muitas mulheres vieram para o Brasil contrariadas vítimas dos caminhos do êxodo. Quando se deixa a terra natal para nunca mais voltar (pelo menos este era o sentimento), há um sofrimento nítido. Uma dor que ultrapassa fronteiras. Porém, forjadas pela guerra, as mulheres de Entre Rios não sucumbiram. Verdadeiras fortalezas humanas, enfrentaram o que lhes foi imposto: sobrecarga de trabalho, em casa e na lavoura. Invisíveis para a história, estas mulheres de discretos sorrisos foram as grandes “mestras” da sobrevivência na nova terra. Geradoras e guardiãs da vida, deram uma formidável lição de abnegação e coragem percebida e respeitada até hoje entre os suábios de Entre Rios.
 
 
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QUEM SÃO OS SUÁBIOS
Os suábios são um povo de etnia e cultura germânicas que, a partir de 1720, emigrou do sudoeste da Alemanha (hoje estado alemão de Baden-Württemberg) para o sudeste da Europa (ex-Iugoslávia, Romênia e Hungria). Ali, eles permaneceram por mais de 200 anos. No período das duas grandes guerras, os suábios do Danúbio fugiram para outros países, principalmente para a Áustria, onde passaram vários anos abrigados. De lá, espalharam-se para o mundo. Uma parte veio para o Brasil.
 
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Acima, Entre Rios no início da colonização e hoje



LEGENDAS
01.    Os suábios a bordo do Provence
02.    Desembarque no Porto de Santos
03.    Chegada na Estação Góis Artigas, em Guarapuava
04.    Deutsches Wort, suplemento do Jornal de Entre Rios
05.    Recepção de uma comitiva de suábios em Guarapuava
06.    Primeiras construções na comunidade
07.    A chegada nas casas: ansiedade pela nova moradia
08.    Refeições comunitárias nos alojamentos
09.    Mulheres carregando baldes de água tirada do poço
10.    Trabalho pesado na construção dos barracões 
11.    Pães caseiros: vida em comunhão 

 

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