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Edição 143
ENTREVISTA - Dario Neto

Capitalismo consciente. É possível?

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Divulgação

Publicado em 28/09/2020



Capitalismo Consciente é um movimento global que existe para promover uma abordagem para negócios pautada em propósito e cuidado com todos os stakeholders - e não mais apenas o acionista. Quem defende o capitalismo consciente acredita que é possível fazer negócios sem deixar ninguém para trás, ressignificando o lucro como consequência da verdadeira geração de valor para fornecedores, clientes, colaboradores, comunidade, meio ambiente e acionistas. Quem fala sobre o assunto é Dario Neto, CEO do Grupo Anga e diretor geral do Instituto Capitalismo Consciente Brasil.

Como ter igualdade no capitalismo se ele precisa de desigualdade para funcionar?
Negócios conscientes não são promotores de igualdade, mas sim agentes redutores de desigualdade, distribuindo poder e capital através de suas boas práticas conscientes. Quando uma organização atua concretamente em diversidade e inclusão, quando ela privilegia fornecedores locais, quando ela encurta ciclos de pagamentos de fornecedores ou persegue a diminuição dos múltiplos de remuneração entre quem menos ganha e quem mais ganha, ela está, por exemplo, sendo um agente de redução de desigualdades. A concentração da riqueza e as externalidades negativas sociais e ambientais ilustram como um capitalismo de acionistas sem amor e cuidado com as pessoas produz riqueza e a concentra cada vez mais. O desafio macroeconômico é produzir riqueza não além da capacidade do planeta de prover recursos e sem deixar ninguém para trás com condições indignas de vida.

Como chegar ao equilíbrio: gerar lucro e gerar valor?
Lucro é consequência da geração de valor consistente e de longo prazo para todos os stakeholders. Com a elevação da consciência das pessoas e organizações em decorrência de todos os desafios socioambientais vigentes, o olhar curto prazista e apenas orientado para o lucro tende a conduzir organizações ao fracasso na próxima década. Cuidar de todos os stakeholders dá mais trabalho e demanda mais recursos, mas cientificamente gera mais prosperidade coletiva financeira, social e ambiental, desde que com olhar longo prazista.

Os empresários brasileiros estão preparados para pensar e olhar o negócio de forma mais ampla?
Ninguém está verdadeiramente preparado no mundo. As pessoas não estão. Nós não estamos. Fomos formados e crescemos com a máxima do ótimo individual como o ótimo coletivo. A forma como consumimos, sonhamos, traçamos objetivos, educamos nossos filhos, ainda carrega muito pouco dos novos paradigmas necessários para o novo capitalismo: interdependência, amor e cuidado pelas pessoas, inclusão, distribuição do poder e do capital. É um processo sistêmico de quebra de crenças e construção de novas crenças que precisa acontecer dentro de nós, de nossas casas, famílias, negócios, cidades e nações. É um grande e bom exercício para o ego. 

Muitas empresas já fizeram ou estão fazendo a sucessão. É um cenário positivo para aplicar o conceito do capitalismo consciente?
De fato a chegada de novas gerações mais sensíveis a propósito e sustentabilidade em posições de liderança e influência é capaz de acelerar a adoção de práticas conscientes, mas na próxima década conviveremos com organizações multigeracionais - e essa mudança de cosmovisão e modelo mental precisará chegar para todos, independente da sua geração ou do contexto de mundo no qual foram forjados. A camada da população que mais cresce é a dos seniores, ao mesmo tempo em que temos a maior geração de jovens que já vimos, apesar de ela já estar em decrescimento gradual ano a ano.

Qual é o papel do líder?
Ser fractal dos valores e princípios deste novo capitalismo de stakeholders, por meio de novos comportamentos de liderança consciente compatíveis com a nova economia. Inspirar, influenciar e formar mais líderes que multiplicam comportamentos de amor e cuidado para si e para os outros é o grande desafio.

É aplicável a qualquer empresa?
Qualquer empresa de qualquer tamanho pode escolher tomar decisões baseadas em amor e cuidado desde o começo. Empreendimentos pequenos ou startups podem operar desde o começo com drivers culturais de transparência e confiança nas pessoas, com especial cuidado nas relações com as partes e na busca de um modelo de negócio de geração de impacto socioambiental positivo. Fazer o bem cabe para qualquer negócio em qualquer estágio. Isso, no longo prazo, oferecerá prosperidade coletiva.

O futuro é de quem coopera?
Sem dúvida. O futuro é de quem age com interdependência, de quem coopera, de quem serve, de quem integra e de quem inclui. O futuro é do “E” e não do “OU”.

Fale um pouco sobre o Instituto. Motivação para criação, como sobrevive, qual seu propósito...
O Instituto Capitalismo Consciente Brasil (ICCB) é parte do movimento global do Capitalismo Consciente (CC) e tem o propósito de ajudar a transformar a forma como investimos e fazemos negócios no Brasil para a redução das desigualdades. Abrigamos uma grande comunidade de empresas e embaixadores associados que compartilham deste propósito e evoluem juntos o seu nível de consciência no tempo. Acolhemos toda e qualquer empresa e liderança que compartilhe dos pilares e da visão do CC e que tenha real abertura para se transformar e adotar novas práticas mais conscientes. A maior parte da nossa receita advém dos próprios associados e isso é o combustível que viabiliza nossa franca expansão e crescimento pelo Brasil.
 

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