Matérias

Edição 143
DIREITO

A geração esperança!

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Bruna Scheidt

Publicado em 30/09/2020



Energia, maturidade, humildade, foco e talento são algumas das características marcantes da nova geração de advogadas em Cascavel. Conheça a trajetória de Julia Paixão e Thayná Torquato

A geração Y chegou com tudo nos escritórios de advocacia. Mais atentos ao protagonismo que o mundo está pedindo e com uma visão estratégica, pluralista e humanista, os millennials estão, aos poucos, provocando uma revolução. O que antes era “lei” agora passa a ser detalhe. Menos rigidez, mais flexibilidade. Menos formalidade, mais leveza. Esta é a nova ordem.
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Com 20 e poucos anos, energia de sobra e, na mesma proporção, inteligência cognitiva e emocional, além de uma força poderosa de mudança, sabem exatamente o que é prioridade, o que querem e o que não querem na vida pessoal e profissional. As advogadas Julia Paixão e Thayná Torquato são um exemplo de jovens que estão levando o universo da advocacia a um novo estágio.

Nascidas na era digital, democrática e da ruptura da família tradicional, as duas advogadas comungam de alguns princípios muito fortes, como valores éticos inegociáveis, aprendizado constante, ânimo e paixão pelo que fazem, coragem e resiliência, e claro, humanidade e humildade.
Ambas formadas em 2017 e já especializadas em suas áreas, Julia e Thayná têm outro ponto em comum: o uso das redes sociais para descomplicar o universo das leis e se posicionar sobre temas polêmicos. Com linguagem simples e acessível, as “advogadas instagrammers”, não só compartilham conhecimento, como esclarecem dúvidas de seus seguidores. Mas afinal, o que elas pensam? O que elas querem? Qual é o seu papel numa sociedade tão desigual? 

Julia Paixão
•    Graduada em Direito pela Univel em 2017
•    Pós-graduada em Direito e Processo do Trabalho pelo Instituto Damásio em 2019 
•    Pós-graduanda em Direitos Humanos e Direito Constitucional pela Universidade de Coimbra / Portugal
•    Atua nas áreas de direito do trabalho e direito do consumidor
•    Instagram @juuliapaixao
 
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Desde que entrou na faculdade, Julia se manteve firme na ideia de advogar e reforçou isso logo no primeiro estágio. A paixão pelo Direito nasceu do sentimento de odiar injustiça. “Ver direitos dos consumidores, de trabalhadores, de segurados do INSS e de cidadãos sendo violados sempre me incomodou muito”, diz. “Sentia que tinha que lutar por aquelas pessoas, muitas vezes hipossuficientes juridicamente, que não sabiam brigar pelos seus direitos sozinhas”, acrescenta.

Atenta aos ensinamentos dos colegas mais experientes e também focada em suas crenças individuais, Julia não abre mão de alguns princípios. “Não gosto de garantir nenhum resultado positivo, também não garanto celeridade no processo e aviso dos riscos e da morosidade do judiciário. Resumindo, sou verdadeira”. 

Embora a presença feminina na carreira jurídica não seja uma novidade, ainda há, sim, preconceito. “Nem tanto por ser mulher, mas por ser jovem”, afirma. Curiosamente, explica, o preconceito não vem dos clientes, mas dos outros advogados. “Nas audiências, quando viam minha OAB muito recente achavam que podiam se aproveitar de uma possível falta de experiência, querendo me convencer que eu sabia pouco. Sempre driblei estas situações fazendo o meu trabalho o mais bem feito possível”.

A padronização da figura do advogado ainda a incomoda um pouco. “Às vezes quando me veem vestida mais despojada perguntam: ‘Mas você é advogada com OAB?’. Sim, sou advogada. E também sou jovem, bebo, danço, canto, viajo, tudo normal... e isso não me torna menos advogada”. 

Direito no Instagram
Até passar por uma experiência de atraso num voo, Julia só usava o Instagram para posts pessoais. Diante da situação, de mais de quatro horas de atraso, e vendo os passageiros pagando sua própria alimentação - uma obrigação da empresa aérea - resolveu agir. 

Foi até o guichê, exigiu seu voucher e ficou na porta da lanchonete avisando um por um. “Eu vi que muitas pessoas desconheciam seus direitos e resolvi compartilhar a informação no meu Instagram. A postagem fez sucesso entre meus amigos e comecei a dar dicas sobre outros assuntos”.

A ideia, segundo ela, é auxiliar as pessoas no dia a dia a “brigarem” por seus direitos. Ao se comunicar de maneira mais descontraída, conseguiu atrair seguidores de diferentes idades. “Achava que estava me comunicando mais com o público jovem, mas me surpreendi quando amigas da minha mãe, pai e mães de amigas começaram cada vez mais a assistir e elogiar”.

Thayná Torquato
•    Formada em Direito pela Univel em 2017
•    Pós Graduada em Direito de Família e Sucessões pela Faculdade IBMEC São Paulo e Instituto Damásio
•    Atua nas áreas de família, direito do consumidor e direito previdenciário 
•    Instagram @thayts
 
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Mesmo depois de formada e aprovada no Exame da Ordem, Thayná não tinha clareza sobre o seu futuro profissional. Tanto é que demorou oito meses para fazer o juramento. “Descobri essa paixão só depois de formada, quando passei a trabalhar efetivamente”, afirma. 

Lógico, nas primeiras audiências e atendimentos, muito pânico. Nada exteriorizado. A aparente tranquilidade escondia vários medos. Medo de acontecer algo fora do normal e não saber como agir, o que falar, o que fazer ou o que responder. “Mas hoje, olhando pra trás, não acho que deveria ter sido de outra forma. Foi bom eu ter passado por isso, principalmente para ter humildade no meu trabalho”, diz.

O caminho para amadurecer na profissão teve várias fases. Thayná começou a advogar no escritório de Marise Luvison, onde hoje é sócia, e na época não protocolava nenhuma ação sem o crivo da chefe. A pouca idade a fez enfrentar situações em que claramente os clientes demonstravam insegurança. “Alguns clientes até diziam que preferiam ser atendidos e acompanhados pela minha colega, devido à sua experiência. Com o tempo fui me impondo e conquistando a confiança dos clientes”, assegura.

Confiança esta alinhada à busca de conhecimento. A jovem advogada está sempre se atualizando e fazendo cursos específicos, mais direcionados a casos práticos, principalmente porque nas áreas em que atua o direito material é um “mero detalhe”. “Preciso estar sempre de olho em jurisprudências novas, doutrinas e cursos que se amoldam às pretensões de meus clientes”.

Vitrine virtual
Diferentemente de Julia, Thayná já seguia vários perfis de advogados quando teve a coragem de fazer o primeiro vídeo. Demorou, pois mesmo gostando de falar, via muitas limitações em sua principal área de atuação, direito previdenciário. Num primeiro momento pensou que os seguidores jovens não se interessariam pelo assunto “aposentadoria”. Refletindo melhor, chegou à conclusão que os mesmos jovens tinham pai, mãe, tios, avós, ou seja, havia um público. 
Fez os primeiros vídeos e, para sua surpresa, teve um ótimo feedback. “Descobri que muitas pessoas não tinham conhecimento. E, como imaginei, causei interesse nessas pessoas para saberem mais sobre a previdência social”. Em seu canal, tem desmistificado o assunto, mostrando que direito previdenciário não serve apenas para pessoas idosas. “Um dia ou outro, qualquer um de nós, jovens ou não, pode necessitar da previdência social”, afirma.
A linguagem clara e objetiva, sem utilizar o juridiquês, é outra estratégia para cativar seus seguidores. A postagem de seu dia a dia fora do horário de trabalho, como exercícios, dietas, leituras e cuidados pessoais, é outra forma de mostrar que é possível ser bem sucedida e feliz no trabalho e na sua vida pessoal. Toda a tecnologia, porém, não substitui o presencial. “Eu gosto sempre de conhecer o meu cliente e conversar sobre os detalhes minuciosos de cada caso para que eu possa entendê-lo melhor”.
Para quem está iniciando na profissão, ela dá a dica de ouro: persistência, humildade e comprometimento com os clientes. “Abrace todas as causas que lhe interesse e que julgue capaz de defender. Não tenha medo de, no começo, ser generalista, mas quando possível, busque se especializar na área que você mais se identifica”. 

O que a tecnologia nunca vai substituir num advogado?
Julia Paixão:
A tecnologia nunca vai substituir a sensibilidade humana para interpretar cenários. A audiência, por exemplo, é uma caixinha de surpresas. Por mais preparados que estejamos, sempre há situações surpreendentes, que exigem competências humanas. A inteligência artificial veio para ajudar, mas substituir totalmente acho improvável, pelo menos num curto espaço de tempo.

Thayná Torquato:
A atuação do advogado se dá diretamente com pessoas, sendo assim a interpretação das normas da forma mais benéfica possível ao cliente, o conhecimento de jurisprudências que se amoldam a determinado caso, e o próprio “feeling” do advogado é fundamental. Acredito que a tecnologia não terá capacidade para superar a intuição, a criatividade e a interação humana.
 
 

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