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Edição 144

Prefeito que devolve dinheiro? Isso existe?

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Bruna Scheidt

Publicado em 16/10/2020



CÉU AZUL

Germano, um prefeito raro!
 
Ele é contra reeleição e em 54 anos de emancipação política foi o único prefeito da história que devolveu dinheiro aos cofres públicos
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Ele é contra reeleição, já devolveu dinheiro para a prefeitura e já pagou do próprio bolso alguns serviços emergenciais como coleta de lixo e tapa-buraco. É prático. Tem olho biônico para enxergar problemas e pulso firme para cobrar soluções. Faz isso todos os dias. 

Não importa a hora, se vê uma lâmpada queimada ou um buraco na rua, não hesita em mandar mensagem para o responsável. Administra cada centavo com ponderação. Enxugou a máquina pública. Trouxe investimentos. Mudou a cara da cidade. Milagre? Lenda? Não. Simplesmente, uma exceção. Trata-se de Germano Bonamigo, prefeito de Céu Azul. 

Não deveria ser assim. Ser honesto e político, hoje, no Brasil é quase um paradoxo e, embora a tarefa seja obrigação de quem ocupa cargos públicos, existem poucos Germanos por aí. Eleito em 2016, assumiu a prefeitura convicto de cumprir o mandato integralmente, sem pensar em reeleição. “Quando um prefeito só pensa politicamente, não consegue administrar bem”, defende. 

Até pode voltar daqui alguns anos, mas reeleição nem pensar. “O continuísmo não é bom nem para o município, nem para o gestor, que naturalmente se acomoda”, afirma. “Eu sou uma pessoa que gosta de fazer as coisas. Nunca tive medo de pedir ajuda e deixo a prefeitura realizado e feliz, com dinheiro em caixa, muitas obras, maquinários e veículos novos, tudo certinho. Como cidadão, espero que este trabalho tenha continuidade e vou ficar sempre de olho. A boa pessoa luta pelo seu território, pela sua cidade”.
 
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PLANEJAMENTO
Na cartilha de Germano não pode faltar planejamento. Esta foi a primeira ação que fez. Antes de sair tomando decisão sem pensar, montou uma equipe coesa, ouviu os servidores, pesquisou, estudou a situação do município, leu relatórios e diagnósticos, enfim, se apropriou da realidade. 

Feito isso, agiu como líder. Durante todo o mandato, delegou tarefas e cobrou resultados. Paralelamente, buscava recursos fora. Um dos exemplos está na recuperação da malha asfáltica: mais de 50 quilômetros entre recape asfáltico e pavimentação com pedras irregulares. “Conseguimos recursos dos governos estadual e federal graças à ajuda de pessoas importantes que abriram caminhos. Mas tem que pedir, correr atrás”. 
 
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Investimento: mais de 50 quilometros entre recape asfáltico e pavimentação com pedras irregulares

NÚMEROS POSITIVOS
A aposta numa Secretaria de Educação estruturada e num alinhamento pedagógico objetivo rendeu a Céu Azul a quarta colocação no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) entre os municípios da Região Oeste, com a nota 7.2. Média bem acima de Cascavel, por exemplo, que ocupa a 19ª, com a nota 6.9. Além disso, todas as escolas receberam investimentos e liberação do Corpo de Bombeiros e Vigilância Sanitária. “Nenhuma das nove escolas tinha liberação”.

Na saúde, a administração não só zerou uma fila de espera de 150 cirurgias eletivas, como realizou 1.030 cirurgias em três anos e meio. Outra conquista foi para o Hospital Bom Samaritano, que há 18 anos pleiteava filantropia para receber recursos. Trabalho este que já rendeu R$ 1 milhão em equipamentos hospitalares em apenas 60 dias.

CADERNINHO 
Ao longo da vida, Germano teve dois grandes mestres na arte de trabalhar, administrar e empreender: Francisco Sciarra e Ibrahim Faiad. Com Faiad, inclusive, trabalhou 11 anos como gerente da Fazenda Iguaçu. É de lá que vem o hábito de anotar tudo. No “caderninho do Germano” nada passa batido. “Anoto tudo aqui”, diz. Desde o primeiro dia, todos os investimentos estão registrados. E olha que o número é expressivo: mais de R$ 53 milhões. Só a título de comparação, na gestão anterior, foram R$ 23 milhões. O resultado desta disciplina está na aprovação das contas pela Câmara, Ministério Público e Tribunal de Contas. Os exercícios de 2017 a 2019 foram aprovados sem ressalvas. “Tenho uma equipe muito competente e sou exigente, mas compreensivo. Vim para trabalhar quatro anos. Somente trabalhar. Não tem dia, não tem hora”. 
 
EMPREENDER É ACREDITAR
Germano tinha apenas um ano de idade quando seus pais, Estefano e Adelina, deixaram Santa Catarina acompanhando a onda migratória para o Oeste do Paraná. Em Céu Azul, seo Estefano criou a família de seis filhos trabalhando em grandes madeireiras e serrarias. Mal conseguiam empunhar uma enxada, os meninos iam para a boia-fria. Foi assim com o Germano. “Tive boas pessoas que me orientaram na adolescência e, mesmo trabalhando de empregado, sonhava em empreender”. 

A primeira experiência foi ao lado da esposa Naci, com quem tem três filhas: Paola, Germana e Michele – in memoriam. Jovens e recém-casados, começaram criando e abatendo frango na chácara da família e vendendo de porta em porta. Depois, investiram numa fábrica de fertilizante. O negócio cresceu e hoje, com mais dois sócios, atua em vários segmentos, como fábrica de ração, moinho de trigo, transportadora e agricultura. “Empreender é acreditar naquilo que você faz. Nisso, o Ibrahim Faiad me ajudou muito. Aprendi com ele a escutar e a somar forças”.

Do sucesso na vida privada, nasceu o desejo de dar sua retribuição ao município. “Fizemos uma administração inovadora em vários aspectos, mas nosso grande trunfo está na elaboração de projetos e realização de convênios. A Itaipu tem sido uma grande parceira neste sentido. O bosque municipal, o lago, o centro poliesportivo e o centro de reciclagem regional são obras que nasceram desta parceria”.



APRENDA COM GERMANO
“Quando eu precisava ir para Curitiba ou Brasília, geralmente pegava duas diárias, mas se conseguisse resolver tudo num dia só, devolvia a outra”

“Na crise de 2018, tivemos que tomar algumas medidas e reduzimos os salários dos secretários, diretores, vice-prefeito e prefeito em 10%. Todos entenderam”

“Inovei na coleta do lixo também, mudando a licitação. A empresa que ganha tem que fornecer todos os EPIs e maquinários. Antes a prefeitura entrava com tudo. A economia foi de R$ 2 milhões em dois anos e meio”

“No começo, tive alguns embates. Aí descobri uma estratégia. Toda vez que eu ia buscar algum recurso bom para o município, solicitava a tribuna da Câmara de Vereadores e falava: ´olha, aqui está o projeto ou convênio, depende de vocês aprovarem ou não´”

“Valorização do funcionalismo público é fundamental. Implantamos vale alimentação e investimos em cursos e treinamentos. Também reduzimos a folha. De 513, passamos a 463 funcionários”

“O ideal seria um mandato de cinco anos e pronto. Aí você tem tempo de administrar, pois os primeiros seis meses são de adaptação, estudo e planejamento. E, nos últimos seis meses, vem o período eleitoral, que amarra tudo”

UMA PERGUNTA
O que levar em consideração na hora de votar?
Observar se são pessoas capacitadas, que tenham conhecimento, que não façam conchavos, que não negociem para chegar ao poder. Eu não negociei, por isso tive autonomia para administrar. Se o candidato fizer uma campanha com o compromisso de arrumar emprego para um ou para outro, não vai conseguir administrar. Outra coisa: poder não é eterno. É transitório. Tem que estar preparado para sair. 

 



 

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