Matérias

Edição 148
ESSAS MULHERES...

Maike, à bientôt!

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Bruna Scheidt

Publicado em 29/03/2021


Até os 21 anos ela nunca tinha de saído de Toledo. Hoje, conhece mais de 20 países. Tudo isso graças à sua paixão pelos queijos

Quando tinha 12 anos de idade, Maike Taís Maziero Montanhini apanhou da mãe por falar “dia e noite” da França. Queria porque queria conhecer o país do outro lado do mundo. Ela nunca soube explicar esta veneração. Talvez pelas paisagens, pela história, pela saborosa comida ou, quem sabe, pelos queijos. 

Enquanto os pais a repreendiam que estava fora da realidade, que precisava colocar os pés no chão e que aquilo tudo era uma bobagem, a menina correu atrás dos seus sonhos. Primeiro, é claro, precisou aprender a língua. Soube de um curso gratuito no Celem, mas só tinha um problema: o material era pago. Pediu ao pai e, diante da negativa, quebrou um cofre, juntou moedinhas e tirou xerox dos livros. Foi seu primeiro grande investimento na futura carreira.

Ela nem imaginava o que vinha pela frente, mas tudo ficou mais nítido aos 16 anos, quando começou a trabalhar num laticínio. Ali se apaixonou pela área de lácteos, fez a faculdade de Tecnologia de Alimentos e descobriu o universo dos queijos. Até então seu mundo era Toledo. Nunca tinha arredado o pé para fora. Terminada a faculdade, aos 21 anos, ousou ir mais longe. Primeiro, alguns cursos de especialização. Depois mestrado em Londrina e doutorado em Curitiba. Tudo na área de tecnologia de alimentos.

Finalmente, aos 28 anos, chegou à França. Lá estava a resposta para todos os sonhos infantis. Na terra dos queijos, sentiu-se em casa. Estudou ainda mais, conheceu os inúmeros tipos e até fabricou. De lá, viajou o mundo. “Hoje conheço mais de 20 países e queijarias de diferentes regiões. É um universo infinito. Só na França, são mais de mil tipos diferentes”.
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QUEIJOS FINOS NO BIOPARK
De volta a Toledo depois desta incursão pelo mundo, Maike começou a dar cursos e logo foi descoberta pelo seo Luiz Donaduzzi, idealizador do Parque Tecnológico Biopark e também apaixonado por queijos. Nascia o projeto de queijos finos. “É um projeto lindo que já está rendendo bons frutos”, diz Maike. Queijos tipo Gouda, Saint-Paulin, Morbier, Camembert e Brie já estão sendo produzidos na região.

Isso é só o começo. “Temos todas as condições de criarmos rotas do queijo como existe em São Paulo, Minas e Santa Catarina”, explica Maike. “Temos uma natureza bonita, rebanho leiteiro e um ambiente apropriado para o turismo rural. Porém, é preciso ousar, ter coragem... os primeiros passos estão sendo dados”.

Entra aí também o papel da comunicação. Segundo a doutora, é preciso trabalhar duas vertentes. Uma com o produtor. “Ele precisa entender questões básicas de higiene, de qualidade do leite, do manejo dos animais e do processo de produção dos queijos”. A segunda vertente diz respeito ao consumidor, que precisa entender como consumir e harmonizar queijos finos e o porquê de serem diferentes e um pouco mais caros. 

DERRUBANDO MITOS
Derrubar mitos sobre queijos é uma batalha diária. “Tudo passa pela informação. Muita gente demoniza o leite, mas é preciso entender que talvez a humanidade não estaria onde está sem o leite. E foi justamente quando aprendeu a processá-lo que a vida ficou mais fácil”. E se o Brasil ainda engatinha na produção de queijos finos, há que se levar em consideração a questão histórica e cultural. “Não tem como comparar com outros países. Somos jovem, criança ainda. Porém, com mercado crescente”.

QUEIJOS AUTORAIS
O grande desafio é chegar aos chegar autorais. E o Oeste do Paraná, explica, tem todas as condições de produzir queijos exclusivos e não cópias. “É possível, sim, termos um queijo com identidade nossa”, diz. Entra aí a pesquisa para desvendar os segredos do clima, solo, micro organismos, melhores raças de vacas, melhores tecnologias. “Não podemos simplesmente querer reproduzir a mesma tecnologia”, observa.

Outra questão é paciência. Com uma cultura muito ligada ao queijo colonial, a escalada para o consumo de queijos mais fortes é lenta. “O brasileiro não é tão ousado como o francês, por exemplo. Os queijos franceses são fortes, são queijos que têm um odor, um aroma, uma pungência que muita gente não gosta”.

E se paladar é o que conta, segundo Maike, existem queijos para todos os tipos de paladares. “Quem fala que não gosta de queijo é porque ainda não conheceu o queijo próprio para o seu paladar”, diz. Prova disso são os queijos adocicados, amargos, salgados, pungentes, amanteigados, e por aí vai. “É preciso fazer uma escadinha na evolução de sabores para, quando chegar nos sabores mais fortes, não ter um impacto sensorial negativo”. Sempre há um queijo preferido. O de Maike é o francês Mont d’or, um queijo de inverno com sabor marcado pela madeira. 
 
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BATIZANDO OS QUEIJOS 
Enquanto não retorna à França, onde vai morar com a família em Toulouse, Maike continua estudando, produzindo e testando seus próprios queijos. Em casa mesmo. A ideia é desenvolver produtos autorais. Aliás, os queijos de Maike já existem. Só falta agora batizá-los e registrá-los. “Fico meses pensando num nome”. É o que se pode chamar de tempo de maturação!   


COLUNISTA DA ALDEIA
Em fevereiro, Maike estreou a coluna “Mundo dos queijos” na Revista Aldeia. Todos os meses ela vai falar um pouco deste grande universo, compartilhando conhecimento e experiências com o objetivo de difundir a produção e o consumo de queijos finos na região. Bienvenue !



 

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1 COMENTÁRIO(S)

Excelente reportagem. Conheço de perto o trabalho da Maike, nossa referência do mundo dos queijos. Nesta reportagem, além do importante incentivo a produção de queijos, fica o exemplo da perseverança na conquista dos seus sonhos, muito importante ainda, hoje em dia. Parabéns!
comentado por JOSELIA LARGER MANFIO em 09/04/2021
Muito obrigada Joselia! O que me deixa mais feliz na minha profissão é contagiar outras pessoas com essa paixão pelo mundo dos queijos.
Desejo muito sucesso para você!
comentado por Revista Aldeia em 09/04/2021
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