Matérias

Edição 148
ESSAS MULHERES...

Lute como a Wal!

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Kauã Veronese

Publicado em 31/03/2021


Mãe de Angélica, Luan, Estela e Renata, esta é a Wal. A jornalista que trabalhou de faxineira para pagar a faculdade e administra cada centavo com devoção!

“O dia tem 90 períodos de 16 minutos. O que você faz com cada período?”. Se você não sabe ou fica culpando a falta de tempo, certamente vai mudar de ideia depois de conhecer a história da jornalista Waldirene Barbosa. Aos 30 anos, ela é daquelas pessoas que parece ter vivido cem. Faz milagres com o tempo...

Filha de mãe solteira, sete irmãos, começou sua jornada aos sete anos de idade vendendo cocada de porta em porta em Registro, no estado de São Paulo. Aos 14 anos, dona Nilza saiu de casa com um bebê nos braços, deixando Wal e mais dois irmãos no pequeno casebre de barro. Os irmãos mais velhos já tinham sido “dados” ao mundo. Cada um para um lado. 

Não demorou para Wal ficar só. A vida precária lhe impôs uma série de desafios. Sem dinheiro para pagar água e luz, viveu dias incertos. Mas nada de se abater. Sagaz, lembrou que a mãe misturava cloro na água comum para fazer limpeza. 

Estava ali sua mina de ouro. Angariou algumas pets, fez a mistura e vendeu de porta em porta como “água sanitária”. Para comer, dava um jeito. Com a desculpa de brincar com as amiguinhas, chegava nas casas sempre na hora do almoço. “Na verdade, eu ia só pela comida”, lembra.
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Wal e os filhos, Angélica, Luan, Estela e Renata

PALESTRA COM CHIPA
Vendo o desamparo da menina, dona Mariquinha, uma vizinha próxima, a acolheu. Naturalmente, levou-a para a Igreja Adventista. Observando a sua desenvoltura tanto em atrair novas pessoas para a igreja quanto em falar, a senhora sugeriu-lhe que ministrasse uma palestra. A proposta repentina não a intimidou. Ao contrário. Mesmo sem nunca ter subido num palco, Wal garantiu que era, sim, “palestrante”. Estudou o assunto – por coincidência Dia da Mulher – e encantou a plateia. 

Aos 16 anos, já pregava em várias igrejas da região e palestrava em escolas. Na pauta, qualquer assunto. “A primeira foi sobre a origem dos dinossauros. Estudava bem antes e falava do meu jeitinho”, conta. Vislumbrando um ganho extra, dona Mariquinha também a ensinou fazer chipa (biscoito de polvilho). Deu muito certo. Palestrava e vendia chipa!

COLÉGIO INTERNO
Após dois anos, mais tranquila, dona Nilza voltou para casa e reconquistou a filha. A convivência foi boa, porém durou pouco tempo. Wal já estava de olho num colégio interno. “Pra quê?”, indagava a mãe. “Pobre não estuda”, repetia. “É colégio de rico, você nunca vai entrar!”, reiterava. Ouvindo os “nãos”, lutou pelo “sim” e, depois de muita insistência, conseguiu uma bolsa no Colégio Adventista. “Aí as coisas mudaram entre nós. Ela ficou tão orgulhosa que juntou R$ 300 catando latinhas e me deu de presente para comprar roupas”.

Com bolsa semi-integral e parte das despesas custeadas pela igreja, Wal só precisava estudar e auxiliar na cozinha. Passado um tempo, a igreja não pode mais cumprir o prometido e, para custear os estudos, vendia livros de saúde nas férias, uma espécie de trabalho evangelizador.  

De livro em livro, terminou o ensino médio. O próximo passo seria a faculdade, no caso jornalismo. Por pregar, até cogitou Teologia, mas desistiu da ideia porque na Igreja Adventista não existe mulher pastora. “Hoje, agradeço a Deus por ter feito jornalismo”.
 
“Eu valorizo muito o dinheiro e sei administrar finanças. Sei o que é prioridade para os meus filhos: saúde e educação”

SONHO ADIADO
Aos 20 anos, já na faculdade, começaram os questionamentos após uma profunda crise existencial. Veio então o desejo de casar e formar uma família. Pra resumo de conversa, casou, trancou a faculdade, foi ajudar o marido numa empresa de e-commerce e teve a primeira filha, Angélica. Depois nasceu Luan. E, na terceira gravidez, as gêmeas Estela e Renata. “Em três anos praticamente, tive meus quatro filhos”.

A empresa prosperou e, por questão de logística, resolveram mudar para Cascavel. Junto com a mudança, o desejo de voltar a estudar. Aí, num revés da vida, o negócio virou pó. “Decidi então lutar pelo meu sonho e fui procurar emprego, já de olho na faculdade. Surgiu uma vaga para limpeza e, mesmo não gostando de faxina, engoli meu orgulho e encarei”.

ABENÇOADAS LATINHAS 
Durante dois anos, ela cumpriu uma rotina pesada, das seis da manhã à meia-noite. Poucos sabiam, mas a estudante que chegava toda arrumada e maquiada na FAG sequer tinha tempo para tomar um banho ou comer. Enganava o estômago com bolacha recheada, o que a fez engordar 12 quilos no último ano. Em período de provas, adentrava madrugada. “Praticamente não via meus filhos, que ficavam sob os cuidados do pai, à época desempregado”.

Sem perceber, entrou num labirinto. Endividou-se e, por pouco, não trancou o curso. Ninguém sabia, exceto um irmão, que rapidamente convocou a família. Havia um motivo para isso: Wal era a primeira a cursar uma faculdade. “Foi uma época muito linda. Meus irmãos mandaram dinheiro e minha mãe, juntando latinhas, me mandou R$ 1 mil. Quitei a dívida e me formei”.

Chegou ao final tão exausta física e emocionalmente que precisou ser internada. Já separada, com os quatro filhos pequenos, compreendeu os seus limites e, ao invés de sucumbir, fortaleceu-se ainda mais. “Eu tinha muito medo de não conseguir terminar o curso, mas aí olhava sempre adiante. Não desisti por mim e pelos meus filhos. Quero vê-los formados também”.

MAIS DUAS GRADUAÇÕES
E inspiração não vai faltar para as crianças, pois ela agora está cursando Letras e Pedagogia. Os dois cursos na área de educação ajudam no dia a dia como mãe. “Sempre quis muitos filhos e não tenho nenhum estresse com eles. Criança não dá trabalho. Quem dá trabalho é adulto", explica. 

Quem não conhece, pode até duvidar, mas basta fazer uma visitinha para se encantar com as crianças. Cada um tem sua tarefa e, seguindo a filosofia de um cuidar do outro, seguem à risca as orientações. Na parede do quarto, eles próprios desenharam a rotina diária, começando pela oração matutina, banho, café, higiene bucal, escola, lanche, intervalo para brincar, aulas de inglês e espanhol (ministradas pela mãe), leitura, e assim por diante, até dormir, às 21 horas. Em ponto. 

Televisão e tablet só quando chega visita. “Dá muito certo porque não é uma regra imposta. Eles participaram da construção. Para educar, não precisa ser autoritária, tem que ser transparente”. E nisso entra a educação financeira também. “Eu valorizo muito o dinheiro, faço muito com pouco. Aprendi com minha mãe e repasso isso a eles”. Outra grande lição é a honestidade, traduzida aqui pela coragem de encarar qualquer trabalho honesto. De fato, tanto a mãe quanto a filha não têm medo de nada... Alguém duvida?
 
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Com o diploma universitário na rua em que mora, no Conjunto Riviera: exemplo 

 

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