Matérias

Edição 149
ARTES

Ela quer seu muro!

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Kauã Veronese

Publicado em 30/04/2021


Com referências e inspirações no feminino, principalmente em mulheres indígenas, Jay Moraes derruba preconceitos e alcança paredes de todo país

“Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além”. O poema é de Paulo Leminski, mas cabe perfeitamente à vida da artista Jay Moraes. Aos 33 anos, pioneira no grafite feminino em Cascavel, está ganhando protagonismo em nível nacional. 

Multicolorida e vibrante, a obra dela carrega a força da ancestralidade. Inspirada nas mulheres indígenas, exalta a natureza soberana destes povos, seus costumes e tradições, bem como uma conexão com o mundo moderno. Prova disso é o mural pintado no Centro da Juventude de Cascavel em que uma índia está de relógio no braço. 

A referência para a pintura é uma fotografia de Raissa Azeredo, fotógrafa e estudante de Antropologia. É uma provocação mesmo. “Só por usar relógio, ela não deixa de ser índia”, diz Jay. Para a artista, culturas originárias e ancestrais não significam passado. Ao contrário, resistindo há mais de 500 anos de colonização, continuam ativas integrantes da sociedade.

O comprometimento com a questão indígena se alinha ao comprometimento com a arte de rua. Uma é ferramenta para a outra. “A arte de rua possibilita levar esta mensagem a um maior número de pessoas. É democrática. Atinge tudo mundo, independente de classe social”, diz. 

SIM, GRAFITEIRA!
Jay Moraes até tentou outra carreira antes de partir para as artes. Trabalhou em escritório, mas confessa, “não era feliz”. Com talento artístico para o desenho desde criança, fez sua primeira formação em Moda. “Era o que tinha mais próximo do que eu queria. Concluí a faculdade, mas não me identifiquei. Em 2013, comecei a Faculdade de Artes e, dentro do curso, me descobri como pensadora, como artista. Ali despertei meu potencial para criação”, conta.

Primeiro pintou telas. Queria algo maior. O boom aconteceu em 2018 quando migrou para os murais. “Comecei a pesquisar mais, buscar referências e vivenciar a arte de rua”. Para ir em frente num ambiente essencialmente masculino, muita coragem. Apoio de alguns, dúvidas de outros. Foi a primeira mulher que ousou “grafitar” em Cascavel. Graças a seu pioneirismo, hoje tem até um coletivo com dez mulheres, o “Seiva Artística”.

FÉ ANCESTRAL
Xamanista, ela tem buscado cada vez mais o autoconhecimento e o bem-estar do corpo e da alma nas forças da natureza. “Meu Deus é o universo, minha deusa é a mãe terra”, diz, lembrando que sua arte está muito conectada com esta espiritualidade. Tem também pesquisa, estudo, técnica, talento e, claro, esforço físico.

“Se você quer um trabalho que toque os corações das pessoas, precisa se dedicar. O que eu admiro na minha é justamente esta energia. Quando estou diante da obra, é uma entrega. Não é só passar a tinta. É conversar com aquela pessoa que estou retratando, perguntar o que ela quer transmitir”, afirma.

VULNERABILIDADES
Além de enfrentar as adversidades próprias a uma mãe solo – Jay é mãe de Liv, 4 anos, e Piatã, oito meses – há as barreiras culturais. “Não importa onde estou pintando, sempre tenho medo. Trabalho de costas para a rua e fico muito exposta. Até mesmo em eventos fechados há situações constrangedoras”, afirma.

Tudo isso se reflete na caminhada artística. “Precisamos quebrar barreiras o tempo todo. Para os homens, neste sentido, é mais fácil. Para nós, mulheres e mães, é tudo mais limitado”.

Por sorte, na família não falta apoio. Os pais Itacir e Nelci ajudam nos cuidados com as crianças e até mesmo angariando patrocínio para as viagens. Além de Cascavel, Jay já pintou em Rio Branco e Cruzeiro do Sul, no Acre, São Paulo, Curitiba Londrina e Apucarana. “É tudo muito recente, mas pretendo conquistar o mundo. Tenho muito a aprender e a crescer”, conclui. 
 
“Sou oficineira aqui no Centro da Juventude e dou aulas para crianças e adolescentes. Sou bem feliz por isso. É maravilhoso poder tocá-los com arte” 
 
Jay Moraes em frente ao mural no Centro da Juventude: inspiração em mulheres indígenas

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