Matérias

Edição 150
HISTÓRIA

Elos perdidos

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Kauã Veronese

Publicado em 19/05/2021


A advogada Ana Paula, neta dos únicos Niculitcheff do Brasil, descobriu um capítulo surpreendente da história famíliar após a morte do pai, o médico Ronald, vítima de Covid em março deste ano

Desde criança, a advogada Paula Niculitcheff Froelich gosta de história. O que ela nunca imaginou é que a história de sua família guardasse tantos segredos. Neta do refugiado russo Thimofey Niculitcheff, ela descobriu um verdadeiro tesouro há pouco mais de 30 dias com a morte do pai, o médico Ronald Niculitcheff.
 
Registro de algum abrigo de refugiados frequentado pelo avô, Thimóteo Niculitcheff

Ao desocupar a casa onde o pai morou durante mais de 40 anos  em Toledo, revirou baús e encontrou uma espécie de “elo perdido”. O avô, nascido em 1893 no Estado de Don e naturalizado brasileiro como Thimóteo, chegou ao Brasil em 1917, fugindo da Revolução Russa. Engenheiro civil formado, teve o seu diploma reconhecido pela Congregação da Escola Livre de Engenharia do Rio de Janeiro em 1922.
 
Ana Paula: após o falecimento do pai, descobertas sobre a família russa

Do Rio, mudou-se para interior de São Paulo. Casado e com dois filhos, conheceu a segunda esposa, Benedita, com quem veio para o interior do Paraná, Porecatu. Ali, trabalhou como engenheiro da Usina de Açúcar de João Lunardelli (sogro de Paulo Pimentel, ex-governador do Paraná). Desta união, nasceu Ronald.

Preocupado com os estudos do filho, mudaram-se para Londrina, onde ele cursou o ensino médio, e, mais tarde Curitiba, para cursar medicina. O velho Niculitcheff continuou prestando serviço para a usina até desenvolver Alzheimer. Faleceu em 1973 levando parte de um passado nunca revelado. “Meu pai não comentava nada. Às vezes, acho que nem sabia de muita coisa”, diz.

A ÚLTIMA CARTA
Até aqui, tudo bem. Uma história familiar comum à época. Mas, eis que, entre mapas, livros e objetos, Ana Paula descobre uma carta da Cruz Vermelha endereçada ao avô. Sem entender, procurou uma tia na esperança de decifrar o mistério. De fato, quando veio para o Brasil, Thimóteo deixou um irmão na Rússia e passou uma vida tentando contato. Na carta recuperada por Paula, a Cruz Vermelha, finalmente, em 1967, encontra o paradeiro do irmão, Mitrofan Niculitcheff. 

Final feliz? Não. Temendo alguma perseguição, após trocaram umas três cartas, o próprio Mitrofan pediu para que parassem de se comunicar. Os dois irmãos, então, perderam o contato para sempre. “Meu avô fechou este capítulo em silêncio. Se não fosse a carta, não ia saber que tenho parentes na Rússia”, diz Paula, que já entrou em contato com o Consulado Russo e está trocando informações. “É muito emocionante tudo isso. Assim que tiver mais informações quero ir lá sim, afinal, é a minha história também”.
 
Entre os objetos encontrados na casa do pai, a Carta da Cruz Vermelha

A CASA DE TOLEDO
Após a morte do pai em Curitiba, Ronald veio para Toledo, onde foi acolhido como um filho pelo Dr. Avelino Campagnolo. Depois de um tempo, ele e um amigo abriram um pequeno hospital em Marechal Cândido Rondon. Ficou lá pouco tempo, pois logo comprou um hospital em Vila Nova, interior de Toledo. 

Este hospital funcionou por mais de 30 anos. “Ele era o único médico da comunidade e contava com a ajuda da minha mãe, Carmen, para tudo, fosse em cirurgia, fosse na cozinha, fosse fazendo sapatinhos de tricô para dar de lembrancinha para os bebês que nasciam lá. Todos ganhavam um sapatinho de tricô feito por ela”, lembra Ana Paula. 

Após 30 anos trabalhando 24 horas como único médico, decidiu simplesmente fechar as portas e virar empregado. Segundo a filha, queria ter hora pra começar e pra terminar. E assim o fez. Fechou o hospital com tudo dentro e passou a ser funcionário da Prefeitura de Toledo, e depois de Cascavel, dando plantões. “Quando o PAC inaugurou, ele já fazia plantões lá. Vinha pra Cascavel quase todos os dias, mas voltava pro paraíso dele”.

Nesta casa – com hospital na frente e moradia nos fundos – viveram felizes por 47 anos até dona Carmen descobrir, ano passado, um câncer de intestino e, depois de 42 dias de UTI, não resistir. “Meu pai nunca mais foi o mesmo. Nós nunca mais fomos os mesmos. Minha mãe era o alicerce da casa e da família. Mas nossa vida, minha e do meu irmão, Marco Aurélio, seguiu, nós tínhamos filhos, companheiros, e a vida foi seguindo. Meu pai não. Ele perdeu o tudo dele. Vivia infeliz e chorando”.

Triste, decidiu sair da casa e morar perto da filha. Quando finalmente conseguiu vender, foi infectado pela Covid, e em dez dias após positivar, também não resistiu. Faleceu aos 73 anos em março deste ano. “Em 6 meses perdi pai e mãe. Mas apesar da minha dor, eu sinto paz em saber que agora finalmente eles estão juntos e meu pai está feliz de novo”, afirma.

Com a morte dos pais, ficou a história. E, claro, a casa para desocupar. “Alguns documentos, como os mapas, eu tinha conhecimento, mas outras coisas, como a carta, foi um grande surpresa”, observa a advogada. “O que mais me intrigou nisso tudo foi meu pai não contar esta história pra gente. Ele pouco comentava sobre o meu avô”.

PRÊMIO JABUTI
Outro capítulo interessante da história dos Niculitcheff no Brasil fica por conta de um dos irmãos de Ronald, fruto do primeiro casamento de Thimóteo. Trata-se do escritor Valêncio Xavier, ganhador do Prêmio Jabuti de melhor produção editorial, com o livro “O Mez da Grippe”, em 1999. Livro este reeditado ano passado pela Companhia das Letras. Escritor, cineasta, roteirista e diretor de TV, Xavier dirigiu alguns episódios do Globo Repórter.
 
Ronald, pai de Ana Paula, com os irmãos: o médico Gregory e o escritor Valêncio

Importante personalidade cultural brasileira, foi pioneiro em muitas áreas, tendo trabalhado com Sílvio Santos e Jô Soares. Em plena ditadura, ajudou a fundar a Cinemateca de Curitiba (1975).
 
Do período em que viveu na França, trouxe influências de Marcel Duchamp, Henri Cartier-Bresson, Hans Arp e outros expoentes do dadaísmo e do surrealismo, com quem conviveu. Em Curitiba, fez diversos trabalhos com o gravurista Poty Lazzarotto. 

Como todo artista, Xavier era uma pessoa excêntrica. “Morei com eles quando fiz a Escola Superior do Ministério Público e era muito comum chegar em casa e encontrar famosos da TV e do cinema brasileiro”, diz Ana Paula, que também se reaproximou da história do tio ao encontrar seus livros na casa do pai. “Quando você é jovem não dá muita importância. A maturidade traz este outro olhar”, conclui.
 
Projetos feitos à mão pelo avô, o engenheiro civil Thimóteo

 

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