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Edição 150
ENTREVISTA - Carine Zandoná

Precisamos falar sobre Henry...

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Tatiane Piasecki

Publicado em 25/05/2021


...Precisamos falar sobre Ketelen, sobre Isabela e sobre Raíssa. Mas, por mais desconfortável que seja, precisamos falar sobre você. Sim, sobre você, leitor e leitora. Sabia que casos de violência e abuso sexual contra crianças e adolescentes são mais comuns do que se imagina? E que omissão mata? E que você ajudar? Nesta entrevista, a psicóloga Carine Scalcon Zandoná fala sobre o assunto, alertando para os sinais que as crianças dão, bem como formas de ajudá-las, primeiro acreditando nelas. Depois, acolhendo-as.

 
Como identificar sinais de violência em crianças?
A criança não vai expressar claramente, ela vai dar sinais e sintomas de desconfortos físicos e psicológicos. É importante observar mudanças bruscas no comportamento, na rotina pessoal, escolar, social e no dia a dia. 

Identificando, o que fazer para ajudar? 
Primeiro acolher, permitir que a criança seja aceita e respeitada, expor o necessário para providências jurídicas, sempre mantendo a integridade física e mental. Encaminhar com urgência a vítima e a família para um profissional qualificado para o atendimento.

Quais sinais devem ser observados em caso de violência física?
Sintomas de desconforto (mal estar, dor abdominal, vômito, febre, sem doença aparente). A intensidade dos sintomas podem ir aumentando conforme a ameaça e a violência forem se tornando mais frequentes.

E psíquica?
Aversão ao agressor, isolamento, instabilidade de humor, tristeza profunda, choro sem motivo, necessidade em chamar atenção, desempenho escolar baixo, insônia, alterações no apetite, humor, medo, insegurança, ansiedade, a criança deixa de fazer coisas que fazia e que são adequadas para a idade (brincar, sorrir, se divertir).

Muitos adultos costumam duvidar da história, achando que é fantasia ou mentira. Precisamos ouvir e acreditar mais nas nossas crianças?
Com certeza essa é a única forma de ajudar essas vítimas que são frágeis e são ameaçadas pelo agressor para não contar a ninguém sobre a violência que sofrem. A criança é literal e ela vai acreditar nas ameaças que sofre. Mesmo que sejam fantasias devemos ficar atentos de onde vem esses conteúdos. A criança não inventa sem ter um fundamento. 

Em sua trajetória como psicóloga já interviu em situações limite?
No caso de violência por psicopata já intervi e considero a situação mais difícil de identificar, pois são muito sedutores, agradáveis e planejam seus atos com muita discrição. 

O isolamento social imposto pela pandemia aumentou o número de casos de violência, pois longe da escola, as vítimas ficam ainda mais vulneráveis. Como vizinhos e parentes podem ajudar?
A violência em si independe do isolamento, ela existe e pode estar mais próxima do que se imagina. Dados mostram que a violência doméstica aumentou muito, porém com ou sem pandemia devemos estar sempre em alerta aos conteúdos trazidos pelas crianças. E quando se trata de violência doméstica deve-se denunciar mesmo que faça parte do convívio social e coletivo (no caso de vizinhos, professores, ou envolvidos indiretamente). 

Vivemos num país machista em que o corpo feminino e infantil não são respeitados. É a violência naturalizada. Como analisa isso?
Percebo que há um início de mudança. Nunca perco a esperança de que o ser humano se tornará melhorar. Penso que estamos caminhando para a construção de uma consciência coletiva e, enquanto isso, cada um deve fazer a sua parte. 

Ensinar a própria criança a conhecer o corpo (inclusive as partes íntimas) e identificar situações de abuso também é um caminho? 
Sim. Inclusive há diversas campanhas que ensinam a criança de maneira ilustrada e lúdica na linguagem acessível. A educação sexual é de extrema importância assim como outros processos de aprendizagem. É um direito da criança ter essas informações.

Em que momento (idade) fazer isso? 
Desde que ela tem consciência corporal já pode-se construir um canal de comunicação, confiança e respeito.

O desenho, a fala, a escrita também são ferramentas lúdicas que podem mostrar muito sobre a criança? 
A criança vai manifestar sinais dentro do que ela vive e do seu mundo. Então avaliar desenhos ou brincadeiras inadequadas pode ser um sinal. Ela reproduz e repete o que vive.

O abusador compra o silêncio com ameaças. De que forma estabelecer uma relação de confiança (sem segredos) com os pequenos? 
Desde pequenos buscar construir uma relação de confiança, respeitando e protegendo seus segredos, sua integridade e exposição.

Como psicóloga, como analisa o caso Henry. Poderia ser evitado?
Com certeza, minha opinião é baseada nas informações dos meios de comunicação, e conforme a minha leitura profissional havia indicativos de agressão, violência e talvez abuso. A criança deu muitos sinais do que estava acontecendo. De várias formas Henry pediu ajuda e não foi ouvido ou levado a sério por pessoas que deveriam estar lá para protegê-lo. 

A omissão, então, mata? 
Não só dos mais próximos, mas daqueles que vivem ao redor. Me pergunto o que leva o ser humano a negar ou omitir uma tragédia que poderia ter sido evitada. A explicação mais plausível para mim é que o ser humano tem a tendência de negar fatos reais que trazem desconforto como um mecanismo de defesa da psique, segundo Freud.
 

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