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Edição 152
PERFIL

A grande figueira de Sara

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Joel Perez

Publicado em 19/07/2021


Filha dos fundadores da Prati-Donaduzzi e do Biopark, Luiz e Carmen Donaduzzi, Sara Donaduzzi Siqueira desnuda sua alma e revela o que há de mais humano dentro de si: suas imperfeições, medos e angústias, e também o seu amor à vida!

Vinte e oito anos de vida. Metade deste tempo buscando respostas. Algumas ainda estão por vir. Algumas nunca virão. Outras tantas, porém, estão tão nítidas quanto o brilho do dia. E é por este vão de luz que Sara Donaduzzi Siqueira alcançou uma elaborada percepção de si mesma, deixando a penumbra e o nada para trás, presos numa madrugada qualquer.

Hoje, olhando o rigor do caminho que percorreu, abre-se para aqueles que não conseguem imaginar uma porta. Uma única porta. Mas ela existe. Sara é a prova disso. De seus abismos interiores, fortaleceu-se abrindo e fechando cicatrizes. Tecendo e destecendo os seus dias.

Nunca quis o privilégio de ser “apenas” filha de quem é. Feita de consoantes e vogais, é sua própria heroína. De carne e osso. De medos e angústias. De alegrias e tristezas. De vazios e eternas incompletudes. De sonhos e desafios. 

Para entender sua jornada, é preciso um mergulho em sua alma. Aos 14 anos, Sara começou a ter episódios de depressão. Aos 20 e poucos anos, descobriu a bipolaridade. Após uma tentativa de suicídio, mudou o olhar para a vida, formou-se em psicologia e casou-se com o administrador Vinicius Siqueira, com quem fundou a Folks RH. 

Saiba nesta entrevista como ela, crescida à sombra de uma grande figueira - metáfora que usa para definir seus pais, os fundadores da Prati-Donaduzzi e do Biopark, Luiz e Carmen Donaduzzi -, está cultivando sua própria floresta...

Em que momento você se descobriu bipolar?
Comecei com períodos de depressão aos 14 anos e lutei por anos tentando achar uma medicação eficiente. Como os meus episódios de mania eram pouco frequentes e com pouca intensidade, os psiquiatras atribuíam as crises a efeitos colaterais da medicação. Ninguém falava em bipolaridade. O diagnóstico chegou depois dos 20 anos.

Um primo distante do meu pai trouxe a informação preciosa: a nossa família tem falta de lítio no cérebro, um dos fatores que causa o transtorno. Isso fez muito sentido para nós, explicou muita coisa. Enfim, trouxe o alívio de encontrar uma medicação eficiente.

Foi difícil aceitar?
Não. Ter o diagnóstico preciso foi uma das melhores coisas que poderia ter nos acontecido. As oscilações de humor e fases depressivas desde muito jovem eram um peso. Eu sempre quis saber por que aquilo acontecia. Ter uma resposta foi libertador.

Sobre a tentativa de suicídio, de que forma isso despertou o desejo de viver e lutar?
A tentativa foi um momento chave em minha vida. É claro, foi pesado e gerou muita dor para a família, mas também trouxe todos nós para uma realidade que precisávamos enxergar. Meus pais entenderam que era hora que cuidar mais de mim, de me dar a atenção antes comprometida pelo trabalho e pela construção de tudo o que temos hoje. 

O que doeu mais?
Ver minha mãe chorar quando eu estava na UTI. Naquele momento eu jurei para mim mesma que jamais faria aquilo de novo enquanto ela estivesse viva. Isso foi importante mais tarde, em outros momentos difíceis, quando eu não suportava mais a dor… Lembro-me de um dia em que eu estava muito mal, andando na rua, pedindo a Deus para que mandasse alguém me atropelar. Eu queria acabar com a dor. Ter paz, descanso.

Quando a gente passa pela tentativa de suicídio, entende que não se trata de coragem ou covardia, mas de um momento em que a dor de existir consegue ultrapassar o senso de autoperpetuação que nos impede de nos machucarmos por conta própria. É o patamar mais baixo do desespero, não sobra mais nenhuma possibilidade, não se acredita mais em nenhuma solução ou milagre. 

O que lhe faz continuar?
Hoje eu me cuido muito para estar bem porque sei que não posso partir, sei que isso provocaria dor nas pessoas que me amam e isso me faz continuar. Por muito tempo eu precisei viver um dia de cada vez, precisei ficar bem o suficiente e me aventurar o suficiente para que o dia valesse a pena. Hoje consigo ter sonhos e planejar um futuro. Quero viver, quero conquistar o mundo, quero provar o quanto eu posso, quero dar orgulho aos meus pais.

Eu precisei chegar ao fundo do poço para me conhecer, e eu sei que de lá eu não passo. Eu vivi o inferno, por isso hoje eu valorizo muito as pequenas coisas, a paz que meu casamento me dá e a minha família, que foram os únicos que não sumiram no meu pior momento.

Foi aí que decidiu fazer psicologia?
Sim, a decisão de fazer psicologia surgiu nessa época. Eu frequentava comunidades de depressivos no Orkut. Éramos uma grande irmandade, um grupo de pessoas sofrendo juntas e se apoiando mutuamente. Ali eu aprendi que gostava de cuidar de pessoas. Quando eu deixava a minha dor de lado para cuidar de alguém, eu me sentia melhor. Esse foi o primeiro motivo para escolher a psicologia. 

E o segundo?
O segundo veio alguns anos mais tarde quando eu percebi o quanto eu poderia ter sido melhor assistida com um bom psicólogo e psiquiatra. Eu quero apoiar outras pessoas que sofrem. Quero ampará-las. Tornar a jornada delas mais tranquila. Penso que se eu tivesse tido acompanhamento psicológico de qualidade mais cedo, teria sofrido muito menos.  

E a decisão de reconhecer sua doença em público é uma forma de combater a estigmatização?
Hoje, muito se fala em saúde mental, mas ainda continua um grande tabu. Vivemos a cultura do bem-estar. Todo mundo quer parecer estar muito bem e isso causa dois problemas: primeiro, as pessoas não sinalizam que precisam de ajuda; segundo, num mundo em que todos estão superconectados, porém isolados, as pessoas começam a acreditar que a vida é o comercial de margarina das blogueiras de lifestyle e que não somos bons o suficiente.

"Precisamos ir a público e mostrar que está tudo bem não estar bem, que existe luz no final do túnel. É difícil nos expormos e mostrarmos nossas fraquezas, mas é necessário!"


Já se preocupou muito com julgamento dos outros? Como superou isso?
É difícil não nos preocuparmos. Somos seres sociais, dependemos da sociedade para existir, desde o nosso nascimento. No início da empresa, eu me preocupava mais. Era insegura sobre mim mesma, sobre as minhas capacidades. Conforme fomos avançando e tendo resultados positivos, isso foi perdendo espaço. Aprendi que vão falar mal de qualquer jeito; então, eu vou aparecer e mostrar o quanto eu sou competente.

Me motiva mostrar para as pessoas no que eu sou boa. Ser a porta-voz da empresa era muito difícil porque, se eu cometesse algum erro, a empresa seria prejudicada, e igualmente seriam meu marido e colaboradores. Depois de entender que o fato de a empresa estar tendo sucesso era 50% minha culpa e responsabilidade, me tornei protagonista dessa história. 

Ou seja, era tudo ou nada?
Isso mesmo. Já não me importava se gostavam ou não de mim. O apoio da família e dos amigos curtindo e comentando aquilo que eu estava fazendo foi essencial para me dar a confiança que eu precisava. Hoje, eu tenho o meu lugar ao sol, e, sempre que eu toco uma vida, me sinto muito recompensada por tudo o que estou fazendo.

E o apoio familiar, conta muito?
Muito! Me sinto muito acolhida e apoiada nessa jornada! São meus fãs número 1! Meus pais têm uma trajetória de vida incrível e sempre me dão conselhos valiosos. Sempre vou na casa deles no final da tarde tomar chimarrão e contar sobre todas as conquistas e dificuldades. Meu marido se tornou meu sócio e posso dizer que tenho sorte em tê-lo comigo.

Transformamos o sonho de ter nossa empresa em realidade, e, juntos, passamos por cada aprendizado, dificuldade e conquista. Ter alguém tão competente para dividir as responsabilidades é algo que me dá muita paz para superar os dias difíceis.

Hoje, olhando para trás, o que você enxerga?
Enxergo muita luta. Eu estive perdida por muito tempo. Não sabia o meu valor, aceitava coisas que não deveria ter aceitado. Precisei passar por muita coisa para enfim estar em paz hoje. Foi um longo caminho, mas necessário. Vivo em paz com o meu passado. Sempre fiz o melhor com aquilo que tinha. Sempre me preocupei em fazer o bem; por isso, não tenho arrependimentos.

E olhando para frente?
Vejo que tem muita estrada para me tornar a profissional que eu quero ser. Há muito conhecimento para ser adquirido. O futuro me reserva coisas muito boas, só cabe a mim conquistá-las e sinto que estou no caminho certo. 

Mudando de assunto, sua grande inspiração feminina é sua mãe. Como é ser filha da Carmen?
É fácil! Minha mãe é uma pessoa de um coração sem fim, sempre pronta para ajudar quem estiver precisando. Herdei isso dela. Ela me ensinou muito sobre força, resiliência e amor. É uma guerreira. Quando ouço as histórias dos meus pais, vejo o quanto ela se sacrificou por nós e o quanto ela lutou para dar conta de tudo. Ela é daquelas que é capaz de fazer absolutamente qualquer coisa que se propõe a fazer.

Me ensinou pelo exemplo que mulher não tem nada de frágil. Ela sempre me dedicou muito amor. Era ela que ficava do meu lado nas noites sem fim de angústia e ainda ia trabalhar no outro dia. Minha mãe é o meu exemplo de como ser mulher e humana.

Mesmo sendo filha dos fundadores da Prati-Donaduzzi e Biopark, você preferiu construir sua própria jornada. Por que esta escolha?
Porque eu precisava construir a minha própria história. Sou a única responsável pelo meu fracasso ou sucesso. Eu cresci rodeada de colaboradores; então, eu nunca soube se os elogios eram reais ou não. Eu sabia que, se trabalhasse nas empresas dos meus pais, ninguém ia ter a coragem de me falar a verdade, de me dizer que eu estava errada, que eu não era boa.

Como consequência, eu nunca iria me desenvolver. Então, escolhi trilhar meu próprio caminho. 

O que aprendeu neste primeiro ano à frente da Folks RH?
Aprendi muito. Precisei entender como funciona uma empresa, tomar decisões estratégicas e difíceis, passar por dificuldades, lidar com pessoas complicadas, além de todo o conhecimento técnico e de gestão de pessoas que eu precisei desenvolver muito rapidamente para dar conta de tudo. Jamais teria tido esta evolução nas empresas da família. Todo este aprendizado me trouxe autoconfiança e o senso de que eu era capaz. Isso foi algo incrível.

Estou muito feliz com o que conseguimos fazer em tão pouco tempo. Poder ter colocado valores como humanidade, ética e qualidade em cada detalhe da empresa nos diferencia dos outros; além disso, poder ver que eu estou tornando o mundo um lugar melhor, em que as pessoas são valorizadas, me traz muita realização.

Como você se sente à frente do próprio negócio?
Ter um negócio exige nervos de aço e correr muitos riscos. Saímos daquele mundo onde tudo é preto ou branco e passamos a ter milhares de situações cinzas. Cada decisão pode decretar o fim da empresa, então é preciso reunir o máximo de informações possíveis para tentar acertar. Apesar disso, é muito divertido e recompensador. A cada decisão que acertamos, passamos a confiar cada vez mais em nós.

Ter meu marido como sócio, caminhando juntos em torno de um projeto comum e em direção a um sonho é muito legal. Precisamos aprender a trabalhar juntos e nos tornamos uma dupla imbatível. Tenho orgulho dessa trajetória e agradeço todos os dias por ter escolhido este caminho.

Quais os desafios do empreendedorismo feminino no seu caso?
O grande desafio está na cabeça de cada mulher que não acredita em si e no seu potencial e se cala. As mulheres que já entenderam isso precisam levar isso para as demais. Tomo isso como minha responsabilidade. Assim como minha mãe e outras mulheres me ensinaram que eu sou capaz, é preciso que alguém faça isso pelas mulheres que sofrem abusos e que estão caladas. 

Alguma inspiração?
Tenho sido muito inspirada por mulheres na internet que estão fazendo verdadeiras revoluções. Uma delas é a @vaginasemneura, canal protagonizado pela Ana Gehring, uma fisioterapeuta pélvica que ensina as mulheres sobre o seu corpo e sobre amor próprio. Outra é a @valeskabruzzi, uma expert do marketing digital que resolveu focar toda a energia dela em ajudar mulheres a terem o protagonismo nos negócios.

Esses são exemplos de pessoas que decidiram lutar pelas mulheres a despeito de todas as críticas. 

Qual é o peso de ser filha de Luiz e Carmen? E qual a dádiva?
Eu tenho uma metáfora interessante para pensar sobre isso: meus pais e tudo o que eles construíram podem ser representados por uma grande figueira, alta, imponente, importante. Crescer nessa sombra me deu alguns privilégios, mas também trouxe dois pesos: não ter meus pais emocionalmente presentes na minha infância e a eterna cobrança de ser tão boa quanto eles (o mundo espera isso de mim).

A grande dádiva com certeza é a base sólida de valores que sempre nos nortearam. Os grandes valores da minha empresa são a ética e humanidade, e eu trago isso de casa. Eu tenho certeza de que mesmo que eu perca tudo, a integridade permanecerá, pois está no meu modo de ser.  

Quando você se olha no espelho hoje, o que diz para a Sara?
Estamos muito bem, mas precisamos continuar nos cuidando. Viver com bipolaridade é viver em uma eterna gangorra em que períodos de exagerada produtividade se transformam em burnout. Considerando que todos nós gostamos de nos sentir produtivos, eu preciso equilibrar minha vida, com menos autocobrança, para não ficar doente.

Além disso, minha medicação precisa ser tomada de forma impecável. O autocuidado precisa ser constante. De forma geral, estou muito feliz com o que vejo no espelho.

E o que diria se encontrasse a Sara de 14 anos?
Eu a abraçaria antes de tudo. Era uma menina assustada e carente que não estava entendendo o que acontecia. Sem nenhum controle da sua vida. Diria que ela estava doente, que aquela visão horrível do mundo era apenas uma distorção da mente. Diria para valorizar mais a família porque eles seriam os únicos que ficariam ali. Diria que a jornada seria longa, muitas vezes dura, mas que no final valeria muito a pena.

Falaria sobre uma pessoa do outro lado do Brasil que a faria feliz. Diria para não aceitar ser maltratada por ninguém. Diria também para arrumar um bom psicólogo e levar a medicação muito a sério. 

Algo que você nunca disse a seus pais...
Essa é difícil, mas talvez esta entrevista traga algumas coisas não ditas porque é a minha visão sobre como tudo aconteceu. O mais importante já foi dito ao longo da vida. Eu tenho um medo absurdo de que eles morram antes de eu estar pronta para o mundo.

Ainda preciso de ajuda. Preciso que meu pai ainda entre no meu casamento comigo, preciso comemorar a minha festa de formatura adiada pela pandemia, preciso da ajuda deles caso eu realmente decida ter um filho, preciso de conselhos e o colo da minha mãe sempre pronto para acolher minhas angústias. Eu os amo e valorizo cada minuto que passamos juntos.

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1 COMENTÁRIO(S)

Eu fui em uma palestra da Sara, promovida pela Acic Mulher. Desde então, virei uma grande fã. Essa entrevista está incrível. Super honesta e com certeza ajudará muita gente. Eu me emocionei muito com suas palavras. Espero que muitas pessoas possam se inspirar em sua história como eu fiz. Ela me tocou muito mais do que imagina! Muito obrigada Revista Aldeia pela excelente entrevista.
comentado por MARIA CAROLINA GURGACZ em 20/07/2021
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