Matérias

Edição 152
ENTREVISTA - Renato Prado

Sua empresa faz o que fala?

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Mayara Dengo

Publicado em 21/07/2021


Quem responde esta pergunta é o sócio e diretor executivo da produtora Check Films, professor de marketing, inovação e psicologia do consumidor, Renato Prado. Nesta entrevista, ele faz uma análise sobre o mercado local, o comportamento do consumidor com a pandemia e a comunicação assertiva, bem como sobre o papel do marketing e do trabalho publicitário e os danos da desinformação quando se trata de construir ou posicionar uma marca.

“Muito se diz que ´todo brasileiro já nasce publicitário´, mas isso é uma grande mentira, e perpetuá-la pode ser nocivo para o seu negócio”, frisa. Apesar do potencial gigante, a classe empresarial local, explica, precisa profissionalizar alguns pontos de suas operações, e a única maneira de fazer isso é contratando e valorizando os profissionais realmente capacitados para essas empreitadas. 

O que de fato mudou no comportamento de consumo das pessoas com a pandemia?  
Com mais de um ano após o início da pandemia já podemos observar várias mudanças em relação ao comportamento do consumidor. Desde o início da pandemia uma incerteza quanto à estabilidade econômica foi gerada, oscilando durante vários momentos; por conta disso foi natural que as decisões de compra fossem realizadas de uma forma mais "cuidadosa", por assim dizer.

Um dos principais fatores observados no comportamento de consumo das pessoas foi em relação à fidelidade com as marcas. Muitas vezes, o consumidor passou a procurar pelo mais acessível, ao invés do habitual. E como isso tudo também interferiu bastante em hábitos sociais/culturais, produtos e serviços destinados ao lazer e convívio social acabaram não sendo mais tratados com prioridade.

Quais hábitos adquiridos serão incorporados em nossas vidas?
O processo de transição das operações convencionais das empresas, e também da comunicação, para modelos de mercados digitais é uma realidade que já vem se concretizando há anos, e com a pandemia esse processo todo certamente foi acelerado.

A incorporação de sistemas de entrega para supermercados, por exemplo, fez com que muitas pessoas conhecessem e utilizassem muito mais este serviço do que a visita presencial nas lojas. Questões como essa tendem a permanecer. 

Na sua opinião, o que não muda?
Independente de qualquer cenário, os consumidores continuam buscando por qualidade, bom atendimento, confiança... Questões que dizem respeito aos valores por trás dos produtos/serviços continuam norteando, e muito, as decisões de compra.

E a comunicação do produto acompanha esta mudança?
A comunicação dos produtos e serviços certamente acompanha todas as mudanças e nuances sociais, sempre foi assim. Um bom comunicador está atento aos movimentos dos mercados, podendo então facilmente ajustar e readequar pontos chave que vão desde rebrandings, reformulação de embalagens e apresentação dos produtos, até as campanhas publicitárias, promoções e afins.

Vale lembrar que a competição pela atenção no ambiente digital nunca foi tão grande, portanto a frequência e aumento da presença nesse ambiente é fundamental. Erra (muito) quem pensa que isso é um investimento financeiro baixo. 

É um período de oportunidades para as marcas?
Para as boas marcas, que são a representação de empresas resilientes, sempre é um período de oportunidades. Mas é muito importante ressaltar que, sem preparo (fluxo de caixa, estratégias, planejamento), dificilmente qualquer momento pode ser caracterizado como oportunidade, ainda que a conversa exista nos círculos de empreendedorismo.

Muitos empresários acreditam que a tecnologia por si só resolve tudo. O que vem antes da tecnologia?
O que vem antes é clareza nos objetivos e planejamento. Hoje em dia podemos encontrar sistemas para automatizar praticamente todos os processos dentro de uma organização e, realmente, todos os empresários gostariam de otimizar seus processos.

Mas assim como os primatas de milhares de anos atrás encontraram o caminho para o desenvolvimento por meio da utilização de ferramentas para suas atividades, a questão tecnológica ainda é a mesma. Utilizando da maneira correta podemos desenvolver nossas organizações, utilizando a esmo não passam de distrações.  

O que o empresário deve analisar, hoje, antes de lançar uma campanha para seu produto?
Os empresários precisam, antes de tudo, conhecer suas próprias operações. Onde estão seus pontos fortes, onde estão seus pontos fracos e o que pode ameaçar suas estratégias; somente com essa noção é possível começar a falar em oportunidades de mercado, para então falar em campanhas publicitárias.

É fundamental termos clareza nos objetivos de uma campanha, o tempo de duração, a verba disponível para que isso tudo possa ser executado e os parâmetros comerciais que desejam ser alcançados.
 

"Os empresários precisam, antes de tudo, conhecer suas próprias operações. Onde estão seus pontos fortes e pontos fracos"


O discurso de propósito das marcas cresceu, mas, na prática, tem sido aplicado?
Muitas marcas, principalmente em nossa região, atuam de forma direta e fiel aos seus propósitos. Nestes casos, em que palavra e atitude já caminham em sincronia, não há grandes novidades. Já para os casos de empresas que pregam "A" mas fazem "B", e assim por diante, de nada adiantará um discurso vazio.

Como diz o publicitário Guilherme do Prado, “publicidade é o último recurso da desorganização". Empresas que estão alinhadas de forma sistêmica em suas operações precisam apenas comunicar isso ao mercado, e não convencer ninguém de que são melhores ou qualquer coisa do gênero.

O empresário cascavelense sabe investir em mídia?
Saber investir em mídia é muito relativo, pois nem sempre essa decisão é tomada pelos empresários, mas sim pelas agências. Basicamente, saber investir em mídia é saber quantificar quem é seu público-alvo, e como você pode fazer para atingi-lo com as mensagens que pretende converter em trocas comerciais.

Considerando que existem muitas empresas de mídia operando de forma tranquila no mercado de Cascavel, certamente os investimentos estão acontecendo. Se eles estão de fato trazendo o retorno desejado, aí já é outra história....

Esse é um momento propício para anunciar? Por quê?
O momento propício para anunciar depende muito mais da saúde da sua empresa e da sua operação do que de fatores externos. Como já comentamos, uma oportunidade só é de fato uma oportunidade se você estiver preparado para ela. Empresas que estão em dia com suas responsabilidades estão sempre em momentos propícios para anunciar. Essa construção deve ser gradativa e constante.

Onde anunciar? On-line ou off-line?
Houve um período ao longo dos últimos dez anos em que estar anunciando on-line era caracterizado como uma vantagem. Os custos eram muito menores, e o retorno muito maior.

Hoje, em 2021, quem não está on-line na verdade está atrasado. Isso não significa que todos os esforços da comunicação devem ser centrados no on-line, a não ser que sua marca opere exclusivamente em modelos de negócio voltados ao marketing digital; mas, ainda assim, a integração das plataformas on-line com off-line tendem a cobrir todas as frentes de comunicação para gerar resultados mais efetivos.

Você acredita no impresso? E, em que a integração on-line x off- line pode ajudar no posicionamento da marca?
O impresso sempre carregou em si uma carga muito maior de credibilidade, no caso dos veículos como jornais e revistas.

Mídias impressas como flyers e afins há muito têm sua efetividade questionada. Associar a sua marca com veículos que já possuem credibilidade e aceitação certamente trará resultados positivos. Apenas estar presente no impresso, por estar, pode ser uma iniciativa vazia e descontextualizada.
 

"Associar a sua marca com veículos que já possuem credibilidade e aceitação certamente trará resultados positivos"


O produto local é o novo gigante?
Estamos em uma das regiões mais ricas do país, e há uma grande quantidade de inovação por aqui, seja em produtos, seja em serviços.

Mas isso não significa que as coisas ficam mais fáceis para os "locais"; significa, na verdade, que cada vez mais estamos entrando no radar das grandes empresas e corporações que estão trazendo suas operações para cá. Para sermos gigantes, basta operarmos de forma profissional como eles também fazem.

Storytelling está em alta, certo. Como criar um storytelling efetivo?
O storytelling retoma um dos pontos discutidos anteriormente. Não basta "inventar" uma história, ela precisa ser vivida. Sua marca precisa ter o que contar, para que então isso possa ser contado. De nada adiantarão as técnicas publicitárias e de comunicação com este foco, se o cotidiano das empresas não contribuir para as narrativas que precisam ser geradas.

Novamente, se trata de apenas comunicar o que de fato é feito, e não de "enfeitar" de forma publicitária a narrativa, a partir de questões que os consumidores poderão ver que não é a realidade da marca.
 

"Não basta "inventar" uma história, ela precisa ser vivida. Sua marca precisa ter o que contar, para que então isso possa ser contado"

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Importante: Comentários com conteúdo sensível, impróprio ou que for considerado inadequado – por qualquer motivo, a critério do moderador – serão sumariamente deletados.

Deixe seu comentário.
×

Assine Aldeia

Por apenas R$ 9,90* / mês.

Deixe seu telefone, nós ligamos para você.
Venha fazer parte da nossa tribo!