A revista mais premiada do Paraná
14 anos de história
MÚSICA

“Vou abrir uma escola de música para crianças”, diz DJ 900

Texto Gabriel Portella
Foto(s) WYSSBRAZIL

Publicado em 26/08/2021


“Vou abrir uma escola de música para crianças”, diz DJ por trás da canção mais tocada no Brasil

Se você acessou a internet em algum momento durante o ano de 2021, você com certeza se deparou com a música “Bipolar” pelo menos alguma vez. Com mais de 175 milhões de visualizações no Youtube, a canção ficou em primeiro lugar como a música mais tocada no Spotify Brasil por dois meses e entrou para o Top 50 do Spotify mundial, passando artistas como Justin Bieber, Ariana Grande e Olívia Rodrigo.

Entoada na voz dos cantores MC Don Juan, MC Pedrinho e MC Davi, a produção da música é de autoria de uma figura que já coleciona diversos sucessos em sua carreira e está ganhando cada vez mais espaço no cenário nacional. Nascido em Cariacica, no Espírito Santo, o DJ 900 é o produtor musical por trás do sucesso de “Bipolar” e contou, com exclusividade à Revista Aldeia, sobre os bastidores da sua canção, sobre o impacto das redes sociais no sucesso da música e sobre seus novos projetos, incluindo sua parceria com o Alok.

O homem que não pode viajar
Criado dentro da Igreja e irmão de um delegado, 900, que tem o comportamento descontraído como marca registrada entre seus fãs, já passou por momentos dolorosos em sua vida quando, além de ter perdido a sua casa, enfrentou o falecimento de sua mãe, irmão e avó. No entanto, tudo começou a mudar quando ele conheceu o WC no Beat, que o ensinou a produzir música.

“Conheci o WC no Beat e a gente morou junto. Depois acabei indo para o Rio de Janeiro passar um final de semana lá com um amigo meu e conheci a Rebecca”, conta 900. Após o encontro com a cantora, o DJ passou a produzir as músicas dela até ser notado e contratado por Kamilla Fialho, que na época era empresária da Rebecca e da Anitta.

Em uma viagem a São Paulo, que também deveria durar um final de semana, 900 conheceu os MCs Jhowzinho e WM, que acabaram o contratando para a produtora deles. Logo depois, o capixaba foi contratado pelo Rodrigo e entrou no time da GR6 Explode, a maior plataforma de ritmo de funk no mundo. ”Eu sempre ia passar o final de semana em um lugar e nunca mais voltava. Por isso, não quero nem viajar mais agora”, brinca o DJ.

“Não é preconceito, para eles o básico basta”
Mesmo com outros grandes hits em seu currículo, 900 não esconde que o sucesso de Bipolar foi, nas palavras dele mesmo, algo insano. “Parei em um posto de gasolina e não consegui abastecer. Tive que me mudar porque descobriram onde é minha casa, às vezes a gente acha ruim mas a gente agradece porque lutamos para viver isso. Não tem o que reclamar, mudou muita coisa na minha vida, na minha vida financeira, hoje eu estou até conseguindo dormir, porque antes eu não dormia”, admite o DJ.

Questionado sobre os segredos por trás do estouro de “Bipolar”, o DJ comenta que a chave é entender e ouvir os desejos do público. Fã de instrumentos eruditos, como o piano e violino, 900, que coleciona covers em seu Instagram, explica que precisou deixar as suas preferências de lado para poder alcançar um público cada vez maior e estourar as suas músicas.

“Eu parei de pensar no que eu quero para deixar a música mais bonita e fico ouvindo ela como se eu fosse o público, como se eu fosse a favela, como se fosse a rua”, explica o DJ, “Tanto que a música que mais estourou foi a Bipolar, na qual eu botei menos coisas. Quando a gente enfeita demais a música, o público e a favela não aceitam. Não é um preconceito, para eles o básico basta”.

O impacto do TikTok no sucesso de Bipolar
Segundo relatório do App Annie, o TikTok foi a rede social mais baixada de 2020, ultrapassando o WhatsApp, o Facebook e o ZOOM Meetings. Dos usuários da rede, 73% afirmam que passaram a conhecer novas músicas através do aplicativo e 61% gostam de saber quais são as trends do momento. Para o DJ 900, a força e o impacto que a rede de compartilhamento de vídeos tem foi o principal motivo para “Bipolar” ter conquistado os números que alcançou.

“Eu fiquei fazendo um monte de vídeos porque ela é uma música de TikTok. Na hora de escrever a letra, o MC Davi não teve a maldade do TikTok, então na hora de produzir eu já pensei nisso. Essa foi a razão principal para a música ter estourado mundialmente”, comenta 900.

No entanto, mesmo grato pelo impacto do aplicativo na viralização da sua canção, 900 explica que, por mais que a indústria da música já considere o “efeito viral” do TikTok na hora de lançar um produto, isso não será bom para os shows presenciais dos artistas. “Acho que quando os shows voltarem, essa febre vai diminuir muito, porque ninguém vai ficar fazendo dancinha no baile”, justifica o produtor.
 
/arquivos/images/dj_900_20_instagram.jpg

“Vou abrir uma escola de música para crianças”
Como qualquer outra figura pública, seja ela artística ou não, 900 carrega algumas responsabilidades devido ao alcance que tem. Com mais de 120 mil seguidores em seu Instagram, o produtor comenta que reconhece ser alguém em quem as crianças, em especial as da periferia, se espelham. Quando o assunto é musicalização, 900 explica que ele se tornou um exemplo para qualquer pessoa que deseja aprender a tocar algum instrumento.

“Hoje vários DJs de mandela, de funk, estão me procurando para que eu ensine eles a tocarem. Eles viram que diferente da classe social, você consegue aprender o que quiser. Hoje eu toco mais de 40 instrumentos e não precisei que ninguém me ensinasse. Eu me virei, eu aprendi sozinho”, conta o artista.

Mesmo que o direito ao acesso à cultura seja garantido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/90), mais de um terço das crianças e adolescentes de até 14 anos não têm acesso a cinemas, museus e outros tipos de lazer, de acordo com o levantamento feito pelo IBGE. 

Em entrevista ao Jornal Nacional, a organizadora do evento cultural PerifaCon, Luíze Tavares, diz que há uma deturpação na maneira em que as crianças da periferia são vistas. “A periferia não é entendida como um centro de cultura quando a gente fala de investimento. Em geral, cursos ou até acesso à educação que você tem na periferia são focados em trabalhos manuais, operacionais e nunca artísticos”, comenta Luíze.

900 afirma que, por mais que ainda haja negligência por parte do poder público em relação ao incentivo cultural na favela, o negacionismo em relação ao funk está perdendo a força. Segundo o artista, graças ao ritmo musical muitos jovens não entraram para o crime devido às possibilidades de trabalho que o funk proporciona.

“O funk está ficando tão forte que eles não tem mais o que fazer. Quem tiver contra, vai cair, porque o poder do funk hoje é imensurável. Você vê o Alok vir gravar e a gente meter um funk na música dele, que é o 5º maior DJ do planeta. E é uma forma da favela vencer sem estar indo contra as leis do governo, então eles tinham que ajudar o funk, não ir contra”, explica o DJ.

MC Hariel e MC Don Juan - Ascensão (GR6 Explode) DJ 900

Em julho, a Academia Latina de Gravação, responsável pela maior premiação de música da América Latina, incluiu o funk brasileiro na categoria Música Urbana e “Bipolar” está concorrendo. Focado totalmente em produzir novas músicas, 900 está reabrindo sua agenda de shows depois de três anos e anuncia o seu mais novo projeto:

“Vou abrir uma escola de música para crianças e vou ser eu quem dá as aulas, pois isso serve de incentivo para elas. Vou ter todos os instrumentos e vou ensinar o que elas quiserem aprender”, comunica o DJ, que explica que as aulas acontecerão uma vez por semana.

9-0-0, VAI!
Ansioso para o futuro, o produtor afirma com segurança que o ritmo continuará a se expandir, ocupando cada vez mais espaço. 900 conta que logo lançará um feat com a cantora Karen Kardashian, reafirmando seu apoio a comunidade LGBTQ+, e conta detalhes do seu novo projeto com o DJ Alok.

“Ali é humilde! Senta, conversa e é gente boa. Eu até expliquei para o Alok o que era um beat de BH, porque o beat, para nós, é a percussão, é a batida. O beat de BH é o contrário, é o som que faz o barulho da percussão. E eu acho até que podemos ver algo nessa música nova”, incentiva 900.

Sobre participação em outros tipos de projetos, 900 comenta que até participaria de uma série ou filme, mas que seu foco se mantém na música. O DJ afirma que gostaria de abrir uma filial da GR6 no Espírito Santo e levar o funk para a sua terra natal de uma forma inédita, pois, segundo o produtor, o ritmo musical no estado é fechado.

Questionado sobre o medo de não conseguir alcançar outros hits de sucesso como a música “Bipolar”, o DJ responde que, mesmo com medo, ele não vai perder o foco. “O meu ritmo de trabalho hoje é dobrado referente ao que eu era antes. O que eu fazia de música, eu faço o dobro, o que eu estudava, eu estudo o dobro, porque na hora que eu parar de estudar, vem alguém e me passa”, conta o DJ.

“Acho que o mundo do funk vai mudar muito agora quando acabar a quarentena. Essa questão do artista funkeiro ostentar e gastar vai mudar. Vai mudar a aceitação do funk com o público, o funk vai tomar conta do mundo”, finaliza 900.

 

Deixe seu comentário

Expresse, fale, opine, sugira! Nós queremos fazer nossa Aldeia cada vez melhor.

Importante: Comentários com conteúdo sensível, impróprio ou que for considerado inadequado – por qualquer motivo, a critério do moderador – serão sumariamente deletados.

1 COMENTÁRIO(S)

Entrevista top demais. Materia bem escrita e o Dj 900 é foda demais. NOVE ZERO ZERO EEI
comentado por Carlos em 26/08/2021
© 2021 REVISTA ALDEIA Todos os direitos reservados.
Alguma dúvida? Nos te ajudamos. Ligue: (45) 3306-5751