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SETEMBRO

Suicídio e juventude

Texto Gabriel Portella

Publicado em 28/09/2021


Ato de tirar a própria vida já representa a segunda maior causa de morte entre jovens no mundo

Mesmo que a taxa global de suicídio tenha caído 36% nos últimos 20 anos segundo dados Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), mais de um milhão de pessoas ainda morrem anualmente por suicídio. Entre jovens de 15 a 29 anos, o suicídio já representa a segunda maior causa de morte e, de acordo com o informativo da Organização Mundial da Saúde, os principais métodos utilizados a nível global são a ingestão de pesticidas, enforcamento e o uso de armas de fogo.

No Brasil, segundo dados da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), 96,8% dos casos estão relacionados a algum tipo de transtorno mental, estando em primeiro lugar a depressão. Entre 2015 e 2018, o número de atendimentos ambulatoriais registrados pelo SUS relacionados a jovens com depressão de 15 a 29 anos cresceu 115%.

Para conscientizar a população sobre a importância de pedir ajuda, a ABP, o Centro de Valorização da Vida (CVV) e o Conselho Federal de Medicina (CFM) idealizaram o Setembro Amarelo ®, campanha nacional criada em 2015 que tem como principal objetivo reduzir esses números.

Por que o suicídio é tão comum entre os jovens?
Por mais que a taxa geral de suicídio tenha caído, quando se faz um recorte na população jovem, em especial na faixa etária de 15 a 24 anos, nota-se um aumento de 60% no número de mortes desde 1980 no Brasil.  Em entrevista à Revista Aldeia, a psicóloga especialista em gestão de pessoas Pollyana Basso, que atende crianças e adolescentes, cita que um dos motivos dos índices de suicídio entre jovens serem tão altos é o fato da adolescência ser uma fase de muitos conflitos internos, em especial com o início de cobranças e responsabilidades da vida adulta. 

“O indivíduo passa por um conflito de identidade, por isso é bem comum a gente observar nos adolescentes a necessidade de pertencerem a um grupo para que se sintam aceitos. Como eles não sabem o que realmente são, estando em um grupo eles se sentem pertencentes”, explica a psicóloga.

A relação entre família, jovens e suicídio
Falar sobre suicídio ainda é um tabu muito grande dentro das famílias brasileiras, afirma Pollyana Basso. Segundo a psicóloga, o assunto, que é rodeado de preconceito, culpa e crenças religiosas, deve sempre ser debatido, para que haja conscientização acerca do tema.

A especialista ainda comenta que uma situação comum onde há esse choque nas famílias é quando elas notam situações de automutilação por parte dos jovens. “O que não se pode fazer nesse momento é julgar. Precisa ter uma escuta acolhedora, ninguém faz isso porque quer fazer. Muitas vezes a pessoa dá sinal que precisa de ajuda e ela não é acolhida como precisava”, aponta Pollyana.

Diagnóstico precoce
Pollyana comenta que um adolescente que comete suicídio já apresenta sintomas há no mínimo dois anos antes da realização de tal ato, o que reforça a importância do diagnóstico precoce quando se fala de doenças mentais, como ansiedade, depressão e bipolaridade.

A psicóloga explica que um dos obstáculos para a realização desse diagnóstico são os tabus que envolvem o assunto, como a ideia de que ser ansioso, por exemplo, é frescura.
Segundo a especialista, o trabalho preventivo deve ser o foco das ações das políticas públicas, conscientizando, em primeiro lugar, toda a sociedade da seriedade das doenças mentais. Com equipes multidisciplinares e um fácil acesso aos profissionais da área, Pollyana enfatiza a importância da acessibilidade a espaços de escuta, onde o diagnóstico precoce possa ser feito e as intervenções médicas possam ser realizadas.

Principais sinais 
Segundo ela, existem vários sinais do comportamento suicida, tais como: tristeza excessiva, falta de vontade de estar com outras pessoas, frases de alarme, despreocupação com situações de perigo, irritabilidade, agressividade, desapego, uso de substâncias químicas e ameaças de suicídio. Além destes, um sinal para o qual as pessoas devem ficar atentas é uma grande melhora repentina. Nesses casos, o suicida simula uma falsa melhora para que as pessoas ao seu redor baixem a guarda, possibilitando que ele cometa tal ato sem interferência.
 
Efeito Werther e a desesperança dos jovens
Mariana Bteshe, psicóloga do Programa de Apoio Psicopedagógico ao Estudante da Faculdade de Medicina da UERJ, comenta, em entrevista à BBC, que durante muito tempo não se falou sobre o suicídio com os jovens por medo do famoso “Efeito Werther” - ideia de que falar sobre suicídio inspira outras pessoas a cometerem. No entanto, a psicóloga explica que até mesmo a Organização Mundial da Saúde, atualmente, incentiva a veiculação consciente de informações verídicas sobre o assunto.

Pollyana Basso afirma ser a favor da desmistificação da saúde mental e ressalta a importância, por parte dos veículos de comunicação, de não divulgar suicídios, evitando assim encorajar pessoas com pensamentos suicidas. “Não podemos descartar também as condições familiares, sociais, políticas e econômicas do nosso país. Faltam muitas perspectivas e isso faz com que os jovens fiquem desesperançosos em relação ao futuro”, explica.

Com a pandemia, a falta de interesse dos jovens cresceu ainda mais. Segundo a pesquisa “Juventude e a pandemia do coronavírus”, realizada pelo Conselho Nacional da Juventude, 43% dos jovens já pensaram em desistir dos estudos devido à pandemia, situação que se justifica principalmente pelas aulas remotas e pela situação financeira das famílias. “Ninguém tira a vida porque quer. Tiram a vida porque querem sanar a dor”, finaliza Pollyana.

188
Para aqueles que estão com pensamento suicida e refletem sobre tal ato, busque ajuda! O Centro de Valorização à Vida atende 24h por dia, basta ligar 188 e você receberá ajuda! Não há cobrança de nenhuma taxa sobre a ligação.


 

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