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Edição 005
FUTEBOL

Zico, o herói de 1980

Texto Rejane Martins Pires

Publicado em 08/10/2021


Nesta reportagem intitulada “Os heróis de 1980”, publicada em 2008, a Revista Aldeia ouviu alguns jogadores que
levaram o Cascavelão ao título estadual. Agora, com o time na final do Campeonato Paranaense, vamos relembrar...
 
Eles chegaram ao Cascavel em 1980 com a missão de conquistar o campeonato estadual. Não só conseguiram a façanha, como se projetaram em nível nacional. Do Ninho da Cobra, foram parar em grandes estádios nacionais e internacionais. Alguns fizeram fama e dinheiro. Outros se perderam no meio do caminho. Nada inesperado para uma equipe que nasceu de um "amontoado" de jovens destemidos de várias regiões do País. 
Falar do Cascavel de 1980 é falar de loucos e sonhadores.

Entre eles, o presidente Nelson Vetorello, o diretor Tchê Casagrande, o técnico Borba Filho e o seu antecessor Sergio Lopes. "Era um time ímpar, sem disparidade", observa o radialista Edson Moraes, que ao lado de Bolívar "Cacau" Negreiros, fez história como locutor esportivo nos anos 1970 e 1980.

Para Moraes, é também relembrar jogos memoráveis e atletas idealistas e determinados, que não ganhavam salários milionários (cerca de 300 mil cruzeiros, o equivalente a R$ 3 mil), mas eram capazes de lotar o "Ninho da Cobra". "Hoje seria um time para disputar o título", diz o radialista, que destaca Osmarzinho como o cérebro da equipe campeã, além de Paulinho Cascavel, Sérgio Ramos e dos goleiros Zico e Claudinho. "A equipe tinha uma energia positiva que nenhuma outra conseguiu ao longo destes anos". 
 
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A SERPENTE
O Cascavel Esporte Clube foi fundado em 19 de janeiro de 1979. Sua primeira casa foi o Ninho da Cobra e posteriormente o Estádio Olímpico Regional, com capacidade para 34 mil pessoas. Atualmente, o time oficial da cidade é o Cascavel Clube Recrativo.
   
DOIS HOMENS DOIS DESTINOS
 
ZICO
No dia 16 de novembro de 1980, José Aparecido Rodrigues, o "Zico", viveu seu dia de glória. Foi no 1º turno do quadrangular final do Campeonato Paranaense. Jogavam Cascavel e Colorado no Estádio Ninho da Cobra. O time da casa vencia por 1 a O, quando o goleiro Zico, ao repor a bola em jogo acabou marcando o segundo gol do Cascavel, na vitória por 3 x 0 sobre o Boca.

Impulsionado pelo sopro favorável do vento, a bola viajou pelo ar, "quicou" na risca da grande área e encobriu o goleiro Joel Mendes, que chegou ainda a tocar nela com a ponta dos dedos. "Eu levei um susto quando a bola entrou. Francamente, não acreditei que tinha marcado um gol", disse Zico em entrevista à Revista Aldeia. "A torcida do Cascavel foi à loucura e o gol de goleiro virou espetáculo em rede nacional", lembra.

Passados 28 anos, o ex-goleiro fala com certa apatia da época em que era ídolo em vários estádios do País – jogou no Mineirão, Morumbi, Maracanã, Rei Pelé e Castelão, entre outros. Morando sozinho num sítio de cinco alqueires, a 14 km de Lindoeste, Zico não se prende muito ao passado. As únicas recordações são um pôster do Cascavel de 1980 e duas páginas de jornal, fixadas com fita isolante na parede da modesta casa em madeira de 42 m². 

Longe da aclamação e da coreografia ensaiada dos estádios, ele vive na penumbra, mas não se incomoda com isso. "Ganhei dinheiro sim, nada comparável aos jogadores de hoje. Comprei casas, sítios e até uma fazenda, mas perdi em negócios mal feitos", conta o ex-goleiro que também disputou dois campeonatos brasileiros pelo CSA, de Alagoas.
 
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Zico: "Eu levei um susto quando a bola entrou. Demorei acreditar que tinha marcado o gol"


TRAGÉDIA FAMILIAR
Foi em Andirá, no Norte Pioneiro, que o ex-goleiro ganhou o apelido. "Zico vem Ezequiel, nome que minha mãe tinha escolhido pra mim", lembra. Criado na roça, começou a jogar "bola" ainda criança, ao lado dos dez irmãos. Antes de ser contratado pela "Serpente" em 1979, jogou no Matsubara, Cornélio Procópio e Toledo. 

Em 1983, perdeu um irmão num acidente automobilístico. Zico estava no carro "demolido" e ficou seis meses sem jogar. "Quase me enterrei. Em 1984 fui contratado pelo Comercial de Campo Grande (MS). Foi a pior campanha da minha vida. Fiquei um ano por lá e volte ao Cascavel em 1985 com um cheque frio nas mãos".

Além do "gol de goleiro", Zico fez parte de um curioso caso do futebol em 1982. Já no Colorado (hoje Paraná Clube), ele se atrasou para retornar ao campo no segundo tempo. A arbitragem não percebeu e, mesmo sem o goleiro em campo, recomeçou o jogo. "Fiquei uns quarenta segundos fora", lembra.
Zico também defendeu o Pinheiros, o ASA (AL), o CSA (AL), o Grêmio Maringá (PR) e o Sport de Campo Mourão (PR), seu último clube. 
 
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AO PÉ DO OUVIDO
Aos 54 anos, com 112 quilos – no auge da carreira pesava 73 quilos -, Zico não se desligou totalmente do futebol. De dia, acompanha o esporte através dos noticiários da TV e à noite, quando consegue, sintoniza as rádios Guaíba e Gaúcha. "Tenho dois rádios. São meus companheiros".

Para afastar a solidão, principalmente aos finais de semana, foge do sítio e se "acampa" na casa de amigos. "Cozinho, lavo roupa e limpo a casa a semana inteira. Não agüento mais", reclama o ex-goleiro.
Diabético, com três cirurgias no joelho e uma no tendão de Aquiles, Zico só se ressente de uma coisa: a separação após dez anos de casamento com a bancária Teresinha Campagnolo, com quem teve o filho Gustavo, 22. "Estou separado há 18 anos e não superei".
 
 
PAULINHO CASCAVEL 
Paulo Roberto Bacinello nasceu em Santo Antonio da Platina, mas carrega o apelido "Paulinho Cascavel". As dificuldades financeiras da família – o pai funcionário público do DER e a mãe dona de casa -, o levaram a apostar no futebol aos 15 anos. Treinava no Esporte Clube Pinheiros, em Curitiba, e não demorou ser requisitado por outros clubes. Jovem ainda, aos 20 anos, desembargou "emprestado" para equipe do Cascavel e se transformou numa espécie de referência para o futebol nacional e internacional. 

Em Santa Catarina, foi artilheiro estadual em 1982 (com 16 gols) e 1984 (28 gols), respectivamente, por Criciúma e Joinvile. Ainda no Brasil, teve boas passagens pelo América de Rio Preto (SP) e Fluminense. Este bom desempenho lhe rendeu polpudos contratos no milionário futebol europeu. O primeiro clube lá foi o Porto.

Mais tarde, com a camisa do Vitoria de Guimarães (Portugal), marcou 22 gols no certame de 1986/87. Na temporada seguinte, 1987/88, balançou a rede 24 vezes e foi campeão pelo Sporting. Paulinho encerrou a carreira em 1991, no Gil Vicente FC, também em terras lusas. 

Penduradas as chuteiras de atleta profissional, o atacante brasileiro não perdeu as qualidades de goleador, e conquistou o prêmio de melhor marcador no campeonato de veteranos, por  cinco vezes, ao serviço do Aliados Futebol Clube, entre 1993 e 1998, apenas não vencendo o prêmio em 1997.
 
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FORA DE CAMPO 
O forte sangue italiano e a boa estrutura familiar foram preponderantes para o jogador manter o equilíbrio também fora de campo. Afinal não é para qualquer um sair dos holofotes e dos "paparicos" de uma torcida eufórica e tocar a vida no "quase" anonimato. 

"Ao longo de minha carreira, já fui me preparando para isso. É claro que sinto saudades dos estádios lotados, com mais de cem mil pessoas, mas futebol é assim mesmo", diz o ex-atacante, que atualmente mora em Guimarães, a 350 km de Coimbra, juntamente com a esposa Leisa e os filhos Vitória (15) e Guilherme (20), formado nos escalões mais jovens do Vitoria.

De temporada em temporada, Paulinho passa períodos em Cascavel, onde acompanha negócios da família  - Irene Linhas e Água Mineral Cachoeirinha -, e a Escola de Futebol do Grêmio. Em Portugal, além de acompanhar a carreira do filho é representante de algumas empresas de futebol. "Gosto muito de lá, mas também não arredo o pé de Cascavel", afirma o empresário, que ainda disputa umas peladas com o pai, João Bacinello, de 73 anos.
 
 
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OUTRAS CAMISAS

 
CLAUDINHO
Ao lado de Zico, o goleiro reserva Claudio Borges, 53, também fez história na "Serpente". Vindo do Caxias (RS), Claudinho desembarcou em Cascavel em 1980, com 24 anos e muitos sonhos. Em sua rápida trajetória, jogou para o Toledo (1982) e para o Independente de Limeira (1984), seu último time. "Parei de jogar com 28 anos. Fiquei um ano sem receber e me desiludi". 

No Cascavel, ele fez grandes defesas e como todo goleiro, "engoliu"  frangos. "O pior deles foi no amistoso contra a Seleção da Indonésia. Estava chovendo muito e a bola escorregou". Apesar do frango, Cascavel ganhou por 4 x 2. O ex-goleiro começou a carreira nas categorias de base do Flamengo de Caxias em 1969. Teve uma rápida passagem pelo Internacional (RS) no início dos anos 70, quando quebrou o dedo da mão. Retornou à serra gaúcha para defender o Caxias, onde permaneceu até 1979 e teve a chance de jogar ao lado de Luiz Felipe Scolari. 

Fora dos campos, Claudio ganhou a vida como representante comercial. Formou-se em Educação Física (FAG) e atualmente é executivo de compras da Rede Paranaense de Comunicação (RPC). Também é treinador de futebol.
 
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SÉRGIO RAMOS
Apesar da boa trajetória no futebol, o ex-ponta esquerda do Cascavel de 1980, Sérgio Ramos, vive modestamente como vendedor de veículos há 15 anos. A profissão veio depois que abandonou os campos, em 1990, no time do Foz do Iguaçu. No auge da carreira, Sérgio jogou pelo Vasco da Gama, São Bento, Matsubara, Atlético Paranaense, Taubaté, Uberlândia e CSA, além da Seleção Brasileira de Novos, que foi a Toulon em meados dos anos 70, ao lado de Oscar, Muricy e Zé Mario.

No Cascavel, orgulha-se dos 11 gols durante do Campeonato Paranaense, sendo sete com bola parada. "Eu batia falta muito bem. Era minha especialidade", lembra o artilheiro, que começou jogando no Noroeste de Bauru, aos 14 anos e se arrepende de não ter aceitado a proposta para jogar no Exterior. "Fiquei vendendo carros", conclui.
 
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MANOEL
“Foi bom enquanto durou”, afirma o ex-zagueiro, Manoel Rodrigues, hoje com 52 anos. A brilhante carreira do jogador começou aos 17 anos no Rio Branco Sport Club. Depois passou por times do Paraná, Santa Catarina, São Paulo e Mato Grosso do Sul. Foi dono da camisa 04 do Cascavel nos anos de 79 a 83. 

De volta à cidade há três meses, veio com a missão de assumir os treinos da Escolinha de Futebol do Ciro Nardi. “Recebi o convite da prefeitura e adorei a idéia. Larguei a carreira de treinador de times profissionais para passar a esses meninos tudo que eu aprendi com o futebol. É importante tirá-los das ruas e dar uma oportunidade melhor a eles”, conta o professor de 150 alunos com idade entre 07 e 13 anos.
 
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Moreno, alto, de voz firme, Manoel ainda lembra da final do Campeonato Paranaense de Futebol. “Nossa decisão foi uma decepção. Mesmo ganhado o título, o juiz ´meteu a mão na gente´ ”, lembra. Mesmo com o resultado da final em 2 x 0 para o Colorado Esporte Clube, o Cascavel levou o título devido à vantagem que tinha. A carreira do zagueiro durou 20 anos. “Aos 34 anos de idade achei que estava na hora de parar. Agora estou seguindo a vida”, conclui Manoel.

 

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