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Edição 155
ENTREVISTA

Alienação parental, um ato perverso

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Eron Zeni

Publicado em 27/10/2021


Dá-se o nome de alienação parental à prática do pai ou da mãe desconstruir a imagem um do outro para o filho de forma sistemática, dificultando a convivência da criança ou adolescente com o outro genitor, avós ou familiares.

 
Mesmo passado mais de dez anos da criação da Lei nº 12318/10, que passou a trazer sanções jurídicas, a alienação parental é um fenômeno silencioso ainda muito comum. Nesta entrevista, a educadora, psicóloga, bacharel em Direito, mãe e estudiosa do assunto, Caroline Buosi Velasco, fala sobre essa prática, bem como formas de evitar e se proteger.

Situações de alienação parental são mais comuns do que imaginamos?
Sim, são muito comuns. Estima-se que mais de 80% dos filhos de pais separados já sofreram algum tipo de alienação em algum grau. Os pais têm muita dificuldade de, no momento da separação, diferenciar as relações conjugais que estão finalizando das relações parentais e acabam se vingando.

Quais sinais os filhos dão?
As crianças começam a ter uma recusa injustificada por um destes pais que está sendo alienado. Começa a não querer visitar, não querer ver e conviver com o pai ou a mãe que está sofrendo alienação. Este pai ou esta mãe entram em desespero porque não fizeram nada que justificasse a rejeição.

Além de não querer conviver, outros sinais são autoestima muito rebaixada, agressividade, ansiedade, insegurança, problemas escolares e até, em períodos críticos de alienação, falsas denúncias de abuso sexual. 

Dá para se dizer que é o ódio vencendo o amor e o respeito aos filhos?
Esta é uma pergunta que exige muita reflexão. Na minha vivência, percebo que muitos pais não se dão conta do mal que estão fazendo para os seus filhos quando cometem alienação. Então, de certa forma, é, sim, o ódio vencendo o amor, mas nem sempre isso é de forma consciente.

Muitos pais sabem que estão fazendo mal, mas não têm consciência clara sobre isso. Não se dão conta de que este comportamento vai gerar consequências para esta criança que eles amam tanto. Por mais que faça mal, o alienador tem um amor enlouquecido pelo filho, não quer promover consequências negativas. É um amor doentio, mas não deixa de ser um amor.

Quais as consequências para a saúde mental das crianças e adolescentes?
São muitas as consequências. Como já citado, sentimentos como insegurança, abandono, ansiedade, queda no desempenho escolar, medo, dificuldade de confiar nas pessoas. Tudo isso porque quem deveria amá-la, na cabeça dela, não a ama mais. É feita uma verdadeira campanha de difamação.

Como provar casos de alienação?  
Os casos de alienação são muito difíceis de provar, pois há uma linha tênue entre o que é uma memória verdadeira e o que é uma memória falsa. O que dá para fazer é arquivar mensagens, troca de e-mails, tentativa de ligações, e também levar a criança para uma análise psicológica.

Neste atendimento psicológico é feita uma perícia após algumas sessões, identificando alguns casos de memórias sem fundamento. Muitas vezes, dependendo da idade, a própria criança percebe que aquilo não foi uma verdade, foi algo que alguém falou. A partir disso é elaborado um laudo que será anexado ao processo para ser avaliado pelo juiz.

Acredita que guarda compartilhada é antídoto à alienação parental?
Com certeza, a guarda compartilhada nos ajuda muito para que se possa prevenir a alienação parental. Quando a possibilidade da guarda compartilhada existe, a gente percebe que a criança começa a ter o significado de tudo aquilo que está vivenciando como verdadeiro e aquilo passa a ter um peso muito maior do que é dito para ela.

O problema é que, ainda que guarda compartilhada seja a regra em casos de separação conjugal, muitas vezes é difícil efetivá-la na prática.

Quanto à aplicação da lei, os operadores do direito estão preparados para ela?
Sim, estão a cada dia mais preparados, bem diferente do cenário de dez anos atrás quando ninguém sabia o que era alienação parental e nem existia lei. Por isso a importância de entregar estes casos para quem já tem entendimento, pois conseguem manejar as situações de forma adequada.

Como mãe e psicóloga, que orientação você dá para quem está se separando e tem filhos?
A questão mais importante é não misturar as frustrações conjugais com a relação de paternidade e maternidade. As pessoas precisam ter consciência de que a relação conjugal tem fim, mas a relação parental não. É para sempre. Embora o final de um casamento seja um marco e tanto na vida do casal, as crianças são as que mais sentem com essa mudança. 

A maternidade te trouxe um novo olhar sobre o tema?
Sim, me ajuda a ter uma compreensão melhor daquilo que os pais e mães relatam diariamente quando estão em processo de separação, dos impactos na criança e das consequências futuras. A maternidade me ajuda a compreender de uma forma mais fidedigna o verdadeiro sentimentos entre pais e filhos.

Em sua trajetória tem algum caso que lhe chocou?
Todos os casos chocam. É triste ver uma criança sofrendo em decorrência de conflitos mal administrados entre os pais. Mas um caso em especial foi de uma pré-adolescente que identificou a alienação por parte da mãe e passou a odiá-la por tê-la afastado do pai sem motivo algum.

Quando ela cresceu e teve consciência de que tudo era uma mentira, ela se revoltou tanto a ponto de não conseguir conviver mais com a mãe. Neste caso aconteceu o efeito bumerangue, ou seja, sentindo-se culpada por ter sido injusta com o pai, passou a odiar a mãe.
 

QUEM É CAROLINE BUOSI?
Doutora em Psicologia Experimental pela Pontifícia Universidade Católica/SP e mestre em Direito pela Universidade Federal do Paraná. É professora de graduação e pós-graduação do Centro Universitário Univel. Atua como psicóloga clínica e jurídica há 15 anos e é autora do livro “Alienação Parental: uma inter-relação entre o Direito e a Psicologia”, publicado em 2012 pela editora Juruá. É diretora do Centro Educacional e de Desenvolvimento Infantil Gira-Sóis. Casada com o advogado Lucas Velasco, é mãe de Maitê e Athena.
 

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