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Edição 156
REFUGIADOS

Das canções que cruzaram fronteiras

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Kauã Veronese

Publicado em 26/11/2021


Forçados a deixar a sua pátria, os venezuelanos José Gregório e Ysmaida encontraram em Cascavel um lugar seguro para recomeçar suas vidas. Em dias de saudade, só restam as canções...

“Estrela da manhã, me empresta sua clareza para iluminar os degraus para meu amante que está partindo. Se meu amor é a montanha e minha força é marrom, como você não quer que eu cante, como você não quer que eu cante... como um coração canta”.

Quando dedilha esta canção de Simón Díaz em seu “cuatro”, o venezuelano José Gregório Montoya Moreno está dizendo: “estrela da manhã, obrigada por mais um dia!”

E assim tem sido desde que chegou em Cascavel há dois anos junto com a esposa Ysmaida e os filhos Eli Abraham e Yraida Ynemar. No coração dos Montoya há duas pátrias e um profundo respeito por ambas.

Nascidos numa Venezuela que até o início do século 21 tinha o maior PIB per capita da América do Sul, e que na década de 1950 estava entre os quatro países mais ricos do mundo, assistiram sua derrocada, lentamente.

Jamais imaginaram migrar, mas as ditaduras de Chaves (1999-2013) e de Maduro (desde 2013), no centro do problema, sufocaram todas as esperanças. “Eu dei tudo o que pude por meu país, mas infelizmente não posso voltar. Não tenho mais nada lá”, diz José Gregório, que faz questão de deixar uma bandeira da Venezuela à mostra, na estante de casa, para nunca esquecer de onde veio e onde quer chegar.
 
Bandeira da Venezuela exposta em casa para jamais esquecer das raízes

“Quero ser um exemplo, mostrar que é possível recomeçar e, assim, ajudar a construir um mundo melhor”.

Nascido em Santa Teresa del Tuy, a 60 km de Caracas, Gregório tinha uma vida estabilizada. Motorista e mecânico, trabalhava com seu próprio ônibus. Aqui, conseguiu emprego na mesma semana. Primeiro numa mecânica e logo em seguida foi efetivado numa indústria de silos.

“Foi uma adaptação um pouco difícil em função da língua. Impossível não se deprimir. Graças ao trabalho e às pessoas, muito receptivas e solidárias, estamos superando e retribuindo a ajuda, estendendo a mão a quem precisa”.
 
A foto da família em Curitiba foi para o porta-retrato: “Nunca vamos esquecer do frio e das pessoas boas que nos acolheram”

450 DÓLARES NO BOLSO E MUITA FÉ
A família Montoya conseguiu deixar a Venezuela com a ajuda da Igreja Mórmon. Venderam tudo o que tinham para arrecadar 450 dólares (2 milhões de bolívares), quantia suficiente apenas para chegar em Boa Vista e fazer a documentação. Sem o convênio com a igreja, seriam necessários 8 milhões de bolívares para cada pessoa cruzar a fronteira.

Nos três dias em Boa Vista, muita desolação. “Não senti medo, só tristeza. Nosso país é muito rico, próspero, mas as ditaduras acabaras com todo e qualquer sonho lá”, diz Ysmaida. Aos 37 anos, ela fazia curso de técnico de segurança do trabalho e era monitora de segurança de um shopping.

“Tínhamos uma vida normal, podíamos sair, tomar sorvete com as crianças, passear nos parques... hoje não tem nada disso. No auge da crise, comíamos mandioca e manga”, conta.

Não bastava, segundo ela, ter emprego. Ninguém recebia salário, em média dois dólares ao mês. “Quando conseguíamos uns trocados, não havia comida para comprar. E quando havia, tudo muito caro. Um quilo de farinha, por exemplo, equivalia ao salário do mês”. Com a crise, a solidariedade se transformou em egoísmo. “Quando as pessoas conseguiam comida, ficavam caladas, com medo de ter que dividir”.
 
Ysmaida e José Gregório, juntos há 22 anos: laços fortes 

UMA PONTE PARA YSMAIDA
Incluídos do Programa de Interiorização da ACNUR (Agência da ONU para Refugiados), a família chegou em Cascavel no dia 05 de julho de 2019. Acolhidos pela igreja, com casa e alimentação, tinham três meses para se tornarem autossuficientes.

Atualmente todos estão trabalhando. José Gregório na Consilos. Os filhos Eli, de 18 anos, e Yraida, de 17, no Supermercado Irani, e Ysmaida na Panificadora Cancelli. Mãe e filhos também cursam o ensino médio.

Ainda com a alma na Venezuela, Ysmaida sofreu mais na adaptação. Depressiva, foi sendo resgatada aos poucos. Durante as aulas de português na Univel, uma amiga comentou de um convênio entre a Cáritas e o Senac, a chamada Trilha do Conhecimento. Por aqueles dias, haveria uma palestra. Ela foi. 

Lá, conheceu a técnica de relações com o mercado Lais Humann Schinchenviski. Contou sua história e pediu ajuda para arrumar emprego e também fazer cursos; gratuitos, é claro, pois não tinha dinheiro. “A Lais e o Senac salvaram a minha vida. Ela me tratou com tanto carinho que na saída lhe dei um abraço inesperado. Há algum tempo não me sentia tão feliz".

Os cursos de “Atendimento ao público”, “Comunicação” e “Elaboração de currículo” foram a ponte até o tão sonhado emprego. De um lado, Ysmaida, uma refugiada. Do outro, Mônica Pasa, uma empresária humanista.
 

No meio, o Senac. “Quero fazer outros cursos. Quem sabe, futuramente, um de barista”. Com toda a sinceridade latina, ela não titubeia quando o assunto é gastronomia. “Trabalho numa padaria, mas não gosto muito de pão. Porém, sou grata ao pão todos os dias”. 

Explica-se: na Venezuela, a comida típica e tão sagrada quanto o pão é a arepa, uma espécie de “panqueca” à base de farinha de milho e recheios variados. Além da arepa, outra iguaria muito consumida é a hallaca, massa de milho recheada e envolta em folhas de bananeira. “Para nós, é um dos grandes símbolos do Natal e Ano Novo”, diz. 

UMA PERGUNTA
O que veio na bagagem?

Além de roupas e porta-retratos, trouxemos o *cuatro (instrumento musical que mescla a viola e o ukulele) e um violão. Nós, venezuelanos, somos muito ligados à questão cultural, sobretudo música e dança. Tocar nossas músicas é também uma forma de aliviar a saudade.
 
 

“Felicidade é ter emprego, saúde, casa para morar e comida. Encontrei tudo isso aqui em Cascavel. As pessoas daqui são muito receptivas e, apesar de eu estar aqui há dois anos já, sempre dizem: seja bem-vinda!” - Ysmaida Montoya


TRILHA DO CONHECIMENTO
A trilha que Ysmaida se referiu na matéria foi uma ação conjunta do Sindicato da Indústria da Panificação do Oeste do Paraná, Câmara da Mulher Empreendedora e Gestora de Negócios e Senac Cascavel, que nos meses de agosto e setembro realizaram palestras de qualificação profissional para profissionais da área de panificação e pessoas assistidas por instituições beneficentes, a exemplo da Cáritas.

Foram qualificadas 60 pessoas, entre elas a venezuelana. “Graças à união do sindicato, empresas e Senac, estas pessoas estão tendo novas perspectivas de vida”, conclui a técnica Lais. Ela lembra que acolher é também oferecer possibilidades de uma vida digna e o conhecimento é o melhor caminho para isso.
 
A cachorrinha Laila e a gatinha Michi, adotados no Brasil, são um alento para matar a saudade de Osso, o cãozinho que ficou para trás

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