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Edição 157
ENTREVISTA – Gugu Bueno

No tempo certo

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Edson Alexandre Prediger

Publicado em 15/12/2021


Conciliação. Essa é a marca do deputado estadual e vice-líder do Governo na Assembleia Legislativa, Gugu Bueno. Sagaz articulador, no sentido nobre da palavra, Gugu tem a sabedoria de poucos para conciliar e compor no tempo certo.

Esta compreensão lhe trouxe respeito até mesmo dos adversários políticos. Seguindo a máxima de Érico Veríssimo, em “Solo de clarineta”: “Nunca vá tão depressa que possam pensar que você tem medo, nem vá tão devagar que possa parecer provação”, ele leva isso para o campo das decisões.

Aprendeu com os erros e não toma nenhuma decisão precipitada. “Se não preciso decidir hoje, deixo para amanhã. Política é muito dinâmica. Os cenários mudam rápido”. Nesta entrevista, Gugu faz uma análise de seu mandato, fala dos projetos de reeleição e compartilha um pouco de seu ideário otimista que o faz sempre enxergar um futuro melhor!

O que mudou no Gugu em uma década de vida pública?
Mudou bastante. Quando eu assumi o mandato de vereador em 2012, eu era jovem, sonhador. Sempre gostei muito de política, sempre fiz muita política estudantil; então, evidentemente a boa intenção de fazer a diferença, de melhorar a vida das pessoas, de melhorar a nossa cidade, enfim, continua a mesma, só que hoje com muito mais maturidade.

Hoje tenho uma compreensão melhor de que na política não basta apenas boa intenção e vontade, não basta só querer fazer o melhor, você tem que saber fazer o melhor, você tem que saber construir pontes. Política não é simples. É uma atividade humana muito complexa porque envolve relações humanas.

Você chegou na Assembleia Legislativa e em seis meses virou vice-líder do governo. A que atribui?
Ao desejo, à vontade e à energia, que continuam os mesmos de dez anos atrás, só que agora com muito mais experiência. Na Assembleia, fui o vice-líder mais jovem da história e, hoje, me considero um deputado reconhecidamente de resultado. Trouxe muitos recursos, muitas conquistas para Cascavel e para os municípios que represento.

Então, como consigo? É simples, minha vida foi feita de etapas. Primeiro, fui vereador, depois presidente da Câmara (também o mais jovem da história), secretário da Câmara, líder de Governo, reeleito presidente, enfim, toda essa experiência deságua no que sou hoje. Nem tinha parado para pensar que já se passaram dez anos de vida pública. Foi algo construído com constância.

Sempre foi precoce em tudo?
De certa maneira, sim. Tudo aconteceu muito rápido em minha vida e sempre fiz várias coisas ao mesmo tempo. Comecei a faculdade de Direito e, quando estava para terminar, recebi o convite para ser chefe da Secretaria de Esportes no Governo Requião. Tranquei a faculdade no quarto ano para me dedicar à Secretaria.

Quando retornei para Cascavel em 2007, fiz dois anos de faculdade num ano só. Para concluir, fazia o quarto ano à noite e o quinto de manhã. Passei na OAB e comecei a advogar. Mas, aí veio a eleição de 2012 e até tentei levar as duas atividades juntas, porém declinei da advocacia. Vivi intensamente o mandato.

O papel de um bom político é engajar pessoas com diferentes necessidades e isso requer habilidades que você tem de sobra, pois é reconhecido por seus pares pela capacidade de harmonizar opiniões divergentes. Como construiu isso?
Isso é muito do meu perfil, eu sempre fui mais conciliador. Isso na vida pessoal e na vida pública. Sou conhecido como alguém que articula, que concilia, que conduz, sempre ouvindo muito. Escuto mais do que falo, e, na política, isso é uma vantagem. Também sempre tive a compreensão que a política é um instrumento de transformação social, mas é uma construção.

Você não impõe uma vontade na política, você tem que construir esta vontade, construir a sua verdade. Não adianta querer impor a sua verdade. Parto sempre do diálogo, da construção. Muitas vezes é preciso ceder, dar dois passos para trás, recuar, para depois avançar. A palavrar é construir. É apoiado nesta característica que eu conduzo o meu dia a dia. 

Você tem um trabalho incansável com suas bases. O que tem aprendido com isso?
Eu tenho aprendido que, literalmente, são as pessoas que sabem as reais necessidades delas. Não adianta você querer impor uma coisa de cima para baixo. Não adianta imaginar que lá de Curitiba, do Palácio, da Assembleia, a gente vai ter a melhor solução para a necessidade das pessoas. São as pessoas que vivem nas cidades, nos bairros, nas comunidades rurais que sabem.

Atuo em 110 municípios e cada município tem uma realidade diferente, um problema diferente, uma aspiração diferente, uma vocação diferente.  Daí vem a importância de você ouvir a necessidade e adequar esta necessidade dentro da política de estado, e conseguir fazer a conexão.

Onde está o maior desafio desta conexão?
Sem dúvida nenhuma, o maior desafio da gestão pública e, por conseguinte, da política no Brasil, é a burocracia. O Brasil é feito para não dar certo. São criadas muitas regras que desdobram em regras e mais regras.  Infelizmente, o grande mal do Brasil é a burocracia.

Na prática é assim: como deputado e representante de determinada comunidade ouço a necessidade, levo a necessidade ao governo. Aí consigo a determinação de resolver o problema por parte do governo; porém, até isso acontecer de fato é um longo caminho, muito dificultado pela burocracia. 

Corrupção entra nisso?
Estou no meu primeiro mandato de deputado e sou privilegiado porque eu conheço esta realidade do governo Ratinho. E eu posso garantir que nós vivemos num governo com corrupção zero. Não estou falando do Paraná. Estou falando da máquina pública do Estado, que é a minha realidade.  

O problema são as dificuldades impostas pelos regramentos. Dentro da nossa realidade, estamos tentando mudar isso, desburocratizar a máquina pública. 

Às vezes, você se sente sozinho?
Sim, às vezes desanimo. Você sabe qual é a solução e acha o caminho, mas para aquilo ser resolvido é um longo caminho. É desanimador. 

Ratinho lhe deu uma missão na Superintendência de Articulação Regional da Casa Civil. Como avalia, cumpriu?
Acredito que cumpri, sim. Minha missão era aproximar as ações do governo com os municípios do interior, principalmente os de pequeno porte. Eu e minha equipe estabelecemos uma série de agendas e montamos uma estratégia para ouvir os prefeitos. Organizamos diversas reuniões em Curitiba antes de tomar qualquer decisão.
 
Deputado estadual Gugu Bueno com o chefe da Casa Civil, Guto Silva

A ideia sempre foi ouvir e identificar as demandas, para depois isso se desdobrar numa ação de governo. Tive a oportunidade de conhecer os quatro cantos do Paraná. Isso me ajuda, hoje, como deputado. Uma ação muito bacana foi a interiorização do governo em que transformamos Londrina, Cascavel, Maringá, Pato Branco e Francisco Beltrão em capital.

O governo foi ao encontro dos municípios com toda a sua estrutura porque muitas demandas não se resolvem de maneira única. Como é intersetorial, tudo se resolvia ali. Em Londrina, em três dias foram mais de 3 mil atendimentos. Dos 399 municípios, já estive presencialmente em quase 300. Isso me ajuda hoje como deputado.

Qual é o melhor conselho que já recebeu e que, de fato, seguiu?
Tem um conselho bem interessante na política que é assim: não tome uma decisão hoje se você pode tomar uma decisão amanhã. Política é muito dinâmica. O cenário de hoje não necessariamente será o mesmo cenário de amanhã. Na política isso faz muita diferença. Já tomei decisões no ímpeto e me arrependi. Depois, analisando, se estivesse esperado mais um dia, teria tomado uma decisão melhor.

O cenário teria se encaixado de maneira melhor. Para a prática da política é importante isso, até porque muitas vezes você é incompreendido. Ainda mais nos dias de hoje em que pessoas estão muito tensas, nervosas, extremistas. Não querem mais conversar, elas querem impor a verdade delas. Ou você pensa igual ou você está errado. 

O que te acalma nestes momentos de tensão?
Olha, quando você é uma pessoa pública, seja um vereador, prefeito, deputado ou governador, você tem que tomar decisões e estas decisões nem sempre vão agradar a todos. Às vezes, não vão agradar a maioria. O que me acalma é saber que só o tempo nos dá a compreensão do que nós estamos vivendo.

Muitas vezes não temos a compreensão daquele momento específico, do presente. Só o tempo vai nos dizer: realmente, foi certo ou foi errado. Por isso, é preciso ter calma para tomar a decisão correta. São dois aspectos importantes: não adiantar uma decisão que você pode tomar depois (lógico, não perder o tempo), e ter a noção do tempo.

Agora falando em senso de comunidade, é difícil desenvolvê-lo nas pessoas?
No Brasil temos um problema cultural histórico. Não aprendemos a viver em comunidade. As pessoas não têm sentimento de comunidade. Não têm sentimento de nação. O mais próximo é quando o Brasil está disputando Copa do Mundo. Isso realmente é um complicador porque as pessoas tendem a ser individualistas. Para resolver o problema do Brasil temos que começar pela nossa rua, nossos bairros, nossa cidade.
 

“O Brasil é feito para não dar certo. São criadas muitas regras que se desdobram em regras e mais regras. O grande mal do Brasil é a burocracia”


Não se consegue mudar nada de cima para baixo. Toda e qualquer transformação é de baixo para cima. Você transforma a base primeiro. As pessoas tendem a acreditar que transformam de cima para baixo e, fazendo isso, buscam super-heróis e, verdade seja dita, não existem super-heróis. Eu identifico esta dificuldade cultural, mas prefiro ver o quanto já evoluímos também e projetar os próximos 20, 30 anos. Tenho certeza de que vamos viver num país melhor. 

Entram aí os jovens?
Sim, por um período o jovem brasileiro ficou adormecido para a política. O jovem precisa de bandeira, precisa estar motivado. Na década de 1960, tivemos a luta pela redemocratização do Brasil. Após a consolidação desta redemocratização, no final da década de 1980, os jovens se afastaram da política. Isso é muito ruim para o Brasil.

Agora começo a perceber um novo envolvimento da juventude. Alguns mais de direita, outros mais de esquerda, mas é um movimento. Isso é fundamental. Nos Estados Unidos, se o jovem começa a se destacar no colégio como liderança, ele já é encaminhado para a formação política. No Brasil, isso não acontece. Muito pelo contrário, é uma vergonha.

Precisamos resgatar o sentimento de que política é uma função nobre, tirá-la da vala comum, afinal você está trabalhando para toda a sociedade. E temos bons políticos. No Paraná, por exemplo, vivemos um momento de lideranças jovens que querem fazer o melhor. 

Voltando para o seu mandato, como analisa?  
Hoje, a política tem que ser eficiente, tem que ser de resultado. Identificado o problema, você tem que correr para resolver. Sem dúvida, o maior destaque do meu trabalho são os recursos, as verbas que conquistei para Cascavel e para os municípios que represento e atuo. São recursos expressivos.

Um exemplo de obra estruturante viabilizada pelo meu mandato é a reformulação da entrada da cidade de Três Barras, no Oeste do Paraná. Era uma demanda de 40 anos. Quem conhece ali, sabe a dificuldade. Não existe entrada, é uma curva. Serão aplicados R$ 6 milhões que vão mudar o perfil da cidade. Isso é um exemplo do que tenho feito, sempre pautando meu trabalho em resultado. 

Ser vice-líder do governo ajuda nesta articulação? Ao mesmo tempo em que é uma responsabilidade a mais, pois tenho que dar sustentação ao governo, ajuda sim, afinal eu tenho que estar por dentro de todos os projetos. Antes de chegar na Assembleia, estudamos e debatemos.

Participar das grandes decisões do Paraná me dá uma proximidade maior com o governo e, consequentemente, espaço e musculatura política para atender todas estas demandas.

O que você almeja?
Na política não adianta fazer projeto a longo prazo. Você vive um ciclo a cada quatro anos. Hoje, Rejane, você me alertou sobre uma década de vida pública. Eu não fiz um projeto de dez anos. Eu não projeto desta maneira. Meu projeto hoje é ser candidato à reeleição. Colocar à prova da população o trabalho que fiz como deputado.

Se algum dia quero ser prefeito de Cascavel? Eu sou cascavelense, nasci aqui e, claro, seria uma grande honra. Naturalmente, isso pode ser construído um dia. No momento, tento cumprir o meu papel de deputado. Sempre fiz isso. Cada papel que me é concedido eu tento cumprir da melhor forma possível.
 

“Na política não basta apenas boa intenção e vontade, não basta só querer fazer o melhor, você tem que saber fazer o melhor, você tem que saber construir pontes”


De onde vem tanta energia e vontade de realizar?
É uma característica pessoal. Sou muito empenhado e dedicado. Durmo pouco. Deito às 2h30 e acordo às 7 da manhã. Assim, o dia fica mais longo e consigo fazer mais coisas. Também sempre procuro me manter motivado. Eu estou muito feliz em poder representar Cascavel na Assembleia e não me canso. Não venho de família rica, poderosa.

Sempre estudei em escola pública. Jamais imaginei um dia ser vereador em Cascavel, muito menos deputado. Eu me sinto privilegiado por ter esta oportunidade. Isso me dá muito gás, muita energia. 

Estar presente é fundamental?
Sem dúvida. Quando me elegi vereador em Cascavel em 2012, eu fiz 70 votos no interior. De 2012 a 2016 eu andei muito pelo interior. Na reeleição em 2016, fiz mais de 900 votos. Por que? Presença. Não adianta achar que nós, numa redoma de vidro, vamos saber da necessidade das pessoas.

Este contato pessoal eu faço questão de manter. Não adianta achar que você está num pedestal, as pessoas querem ter acesso direto.

Poder e ego andam lado a lado. Como trabalha isso?
Eu fui o presidente da Câmara mais jovem da história de Cascavel, com 25 anos. E uma das felicidades que eu tenho é ouvir das pessoas que me conheciam dizer: ´você não mudou nada`. E eu não mudei. Continuo a mesma pessoa. Não fiquei mais simpático, nem menos simpático. Não deslumbrei.

Isso me tranquiliza porque se eu não me deslumbrei quando era jovem, aí penso que não me deslumbro com mais nada. Como deputado, sou o mesmo vereador de Cascavel, a única coisa que muda é minha atuação, maior e com mais responsabilidade.

Em que momento você se escuta?
À noite, quando paro tudo. É um momento valoroso. Chego em casa às 21 horas e vou responder as mensagens de WhatsApp. Hoje somos escravos disso. Entre 23h30 até a hora de dormir, fico eu, comigo mesmo. Penso, reflito, analiso o que está acontecendo, analiso o dia seguinte, o contexto.

E é importante porque você não pode fazer as coisas só no automático. As demandas são muito grandes. Se você não tomar cuidado, você é movido por demanda. É engolido.
 

“Nunca tomo uma decisão hoje se posso tomar amanhã. Na política isso faz muita diferença. Já tomei decisões no ímpeto e me arrependi. Depois, analisando, se estivesse esperado mais um dia, teria tomado uma decisão melhor”


Para finalizar, qual é a sua inspiração na política?
John Adams, o segundo presidente dos Estados Unidos. Eu me identifico com ele na forma de agir, de conduzir. Apesar de ter ficado relegado na história, foi uma pessoa determinante para a independência americana. É um grande exemplo.

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