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14 anos de história
Edição 159
ELEVADORES

Motion subindo!

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Kauã Veronese

Publicado em 18/03/2022


Lucas Boger tem 31 anos e muita coragem. Vendeu uma moto e montou uma empresa para concorrer com as três gigantes do mercado de elevadores: Otis, Atlas Schindler e Thyssenkrupp

Lucas Boger, 31 anos, é um sonhador. Mas também é pragmático. Firme e otimista, faz qualquer um acreditar que amanhã mesmo pode abrir um negócio de sucesso com o mesmo poder de fogo de suas sete empresas. E ele tem um grande argumento para defender isso: sua própria história! 

Aos 24 anos, ele vendeu uma moto CG 125 e montou uma empresa de elevadores para concorrer com nada menos que as três gigantes do mercado: Otis, Atlas Schindler e Thyssenkrupp (atual TKE). Criada em 2015, a Motion Elevadores saiu do zero para um faturamento de R$ 10 milhões no ano passado e projeção de R$ 30 milhões neste ano. 

Atualmente com 60 funcionários, monta em média 20 a 25 elevadores prediais e residenciais por mês. Atuando fortemente no mercado local e regional, mas também abrindo frentes em outros estados, o grupo planeja estar presente em todo o território nacional em no máximo cinco anos.

De 2015 até aqui já foram executados mais de 500 projetos, garantindo a mobilidade para cerca de 1 milhão de pessoas por dia. “Há uma demanda forte e estamos preparados para o novo ciclo de crescimento, sempre fomentando o mercado daqui”.

LUTANDO COM GIGANTES
Para disputar mercado com as gigantes, numa verdadeira luta de Davi e Golias, ele aposta na humanização do negócio. É claro, concorrer com os grandes players exige muito esforço e coragem, afinal são empresas com inúmeras vantagens competitivas, dinheiro de sobra em caixa e tradição de mais de 150 anos. 

É necessária também uma nova cultura empreendedora, disruptiva, aberta à pluralidade e preocupada em desenvolver todo um ecossistema de uma região. Essa tem sido a estratégia de Lucas para deslanchar não propriamente “inovando”, mas melhorando o que já existe.
 

Como é impossível ter o mesmo tempo de vida e a expertise destas empresas longevas, o que fizemos foi melhorar a versão do produto e criar uma maior conexão com o cliente”, explica.


O diferencial vai além de ter um excelente serviço. Está no bom e velho atendimento, na proximidade. É nisso que a empresa cascavelense tem focado seus esforços. “Damos todo o respaldo do projeto à execução”, frisa Lucas, lembrando que uma equipe de consultores também orienta na hora da compra. “A escolha deve ser assertiva. É uma decisão importante e precisa ser muito bem pensada”.

NOVA GERAÇÃO
Sem grandes mudanças nos últimos 160 anos, os elevadores vivem uma fase de renovação. As novas tecnologias permitiram a fabricação de modelos mais eficientes e, ao mesmo tempo, mais simples e baratos. Equipamentos inteligentes, de altíssima velocidade e sustentáveis fazem parte desta nova geração, tanto para prédios ou residências. 

Acompanhando as tendências mundiais, a Motion tem apostado em modelos que otimizem o tráfego com o menor impacto possível ao meio ambiente. São motores com baixo consumo e até sistema regenerativo de energia. “Num prédio de dez andares, por exemplo, a cada duas descidas, o elevador gera energia para uma subida”, explica. 

E se a legislação rigorosa não permite muita criação, pois a maior parte das peças são padronizadas e fabricadas pelos mesmos fornecedores, empresas pequenas como a Motion investem pesado no desenvolvimento de melhores componentes elétricos e mecânicos, no design moderno e no acabamento e sofisticação das cabines.

A velocidade é outro diferencial e não deixa nada a desejar para nenhum outro fabricante. São elevadores ultra rápidos, capazes de subir ou descer 180 metros por minuto.
 

AGORA SIM, A HISTÓRIA
Saindo de Quedas!
Quem vê tanta conquista não imagina o tortuoso caminho percorrido até aqui. Nascido em Quedas do Iguaçu, Lucas desde cedo conviveu com máquinas tanto na auto elétrica dos tios quanto na tornearia do pai, Edson. Aos 17 anos, começou um curso de eletromecânica no Senai, em Cascavel. Nos primeiros meses, vinha e voltava de ônibus toda noite.

Logo despertou a atenção de um professor que o convidou para trabalhar numa empresa de usinagem. Empolgado com a ideia, mudou-se, inicialmente dividindo república com outros amigos. Após seis meses no trabalho, percebeu que não estava evoluindo e aceitou uma proposta da Nutriplan para a qual a empresa anterior prestava serviço. "Fui lá auxiliar numa máquina que eles tinham alugado e o rapaz me convidou. Não era bem o que eu queria, mas fui fazer a entrevista”, conta.

Contratado como auxiliar de ferramentaria, estava feliz da vida com o novo emprego até vir a demissão após um corte geral na empresa. Como estava entre os mais novos, saiu. Desempregado, finalizando o curso no Senai, ficou sem saída. Teve de voltar para Quedas, onde estagiou sem remuneração numa indústria de papel. 

Na agonia para conseguir emprego, um amigo lhe falou de uma vaga na Mascarello. “Como ele não quis, eu fui no lugar dele. Conversei um pouco com o responsável que, de imediato, sem teste algum, me colocou para dentro da indústria”.

Chão de fábrica
Era tudo o que Lucas queria. Máquinas e mais máquinas. Trabalhou em máquinas convencionais de torno e fresa até ser requisitado para um treinamento em São Paulo. Trouxe no currículo toda a dinâmica de uma máquina CNC, computadorizada e automática, com a tarefa de implantá-la. Sucesso total na empreitada, hora de pensar numa faculdade. “Eu queria sair do braçal e ir para a parte de computador, inteligência, enfim, subir de nível”.

Cursando Engenharia Mecânica, foi promovido a projetista de ferramentas até virar programador de robô. “Sempre que surgia uma oportunidade, eu assumia a responsabilidade e ia”. Aos 22 anos, sendo 4,5 anos lá dentro, já tinha passado por diversos setores e, por inexperiência ou pressa de crescer, desanimou.
 
Lucas Boger, do Grupo Motion: conhecimento do chão de fábrica o levou a criar empresa milionária

Passaporte para crescer
Pediu demissão e ingressou numa pequena fábrica de curvar tubo com a promessa de crescer junto. “Crescer é a palavra chave de tudo para mim. Foi o que fez meus olhos brilharem”, afirma. Arregaçou as mangas e dedicou-se integralmente à empresa. 

Trabalhava das 8 às 22 horas. Queria muito a tal oportunidade que haviam prometido. Projetou máquinas para melhorar outras máquinas e até desenvolveu uma peça internamente, reduzindo os custos. Aí pensou: “Pronto, consegui meu passaporte, meu reconhecimento”. Chamou o chefe para o uma conversa e, novamente, nada. “Agora não posso melhorar seu salário. Em seis meses, a gente conversa”, disse.

Na época, Lucas ganhava R$ 1.700 e já tinha desistido da faculdade. Cursou apenas dois anos e meio. Passados os seis meses, nenhum reajuste. Quando pediu R$ 200 a mais apenas para se sentir valorizado, o chefe lhe respondeu: “Com 200 a mais eu contrato um engenheiro”. Foi a gota d´água. Realmente, ele estava no lugar errado. Pediu demissão. Desiludido da indústria, quase montou uma auto elétrica. Até arrumou um emprego de R$ 500 só para aprender a trabalhar com carro. Por sorte, veio o seguro-desemprego.

Bendito seguro!
Durante os trâmites do seguro, uma surpresa. Para receber, precisava cursar algo no Senai. “Quero algo de carro”, disse. “Não podemos, sua área é indústria”, respondeu a atendente, matriculando-o num curso de PCP (Planejamento e Controle de Produção). A contragosto e muito bravo, iniciou o curso. Nas primeiras aulas, reviveu tudo o que tinha feito na Mascarello sem saber que aquilo era PCP. Conhecia profundamente do assunto e tornou-se referência na sala. 

Certo dia, o professor comentou que um amigo estava precisando de alguém na área com urgência. Como sempre, disse sim. Por ironia do destino, era o ex-patrão. Voltou numa condição melhor de salário, reorganizou o que precisava e, outra vez, o dilema de estar no lugar errado. Saiu. O professor, então, o convidou para trabalhar junto dele e outros sócios numa empresa de elevador. É claro que Lucas disse “sim”. Trabalhou os meses de outubro e novembro de 2014. Sem receber nada, pediu demissão mais uma vez.

O insight na hora certa
Nestes dois meses na empresa falida, aprendeu todos os processos de montagem de elevadores. Num belo dia, teve um insight. Por que não montar minha própria empresa? Chegou em casa e expôs a ideia para a esposa Chaiane. Venderia a moto CG 125 por R$ 4 mil e começaria o negócio. Num primeiro momento, ela deu risada. Não tinha lógica alguma. “Conforme eu ia explicando, a Chaiane foi entendendo e, ali mesmo, sentados no sofá, escolhemos o nome: Motion. Traduzido para português, movimento”.

No processo de abrir o CNPJ conheceu um contador numa festa e comentou da empresa, que demonstrou ter interesse na sociedade. Pra resumir, viraram sócios. Lucas assumiu a produção e o sócio a parte financeira e administrativa. Em 18 de fevereiro de 2015 alugaram uma salinha, compraram um computador, mesa e cadeira usados e bola pra frente! “Peguei um tablet na mão pela primeira vez na vida, baixei umas fotos da internet, fizemos um folder e comecei a rodar Cascavel e região”.

Com a Saveiro emprestada do pai, já adesivada com a marca “Motion”, visitou dezenas de obras, escritórios de arquitetura e construtoras. Foram nove meses de prospecção. Em média, dez visitas ao dia, e nenhuma venda. O cenário era desesperador, mas Lucas continuava confiante. 
 

“Foram nove meses de prospecção. Ninguém acreditava nisso. Mas eu acreditava, sem ao menos ter noção do que poderia me tornar”


O primeiro cliente
Após uma indicação, chegou ao primeiro cliente. Não foi muito fácil convencê-lo da compra. A negociação estava indo muito bem quando pediu para ver um elevador instalado. Até então a Motion só existia nos “panfletos”. Lucas pensou rápido e fez uma proposta. “Instalamos o elevador e você paga no final, com tudo funcionando. Um verdadeiro voto de confiança”. Negócio fechado, obra executada, R$ 25 mil na conta.

As prospecções começaram a vingar. Veio o segundo cliente, o terceiro (um elevador de carga), e assim, aos poucos, foram subindo para prédios maiores. A engrenagem da Motion finalmente começava a se movimentar, até que o sócio pediu para sair e, com ele, o dinheiro investido até então, R$ 52 mil. 

E agora? Lucas não tinha o dinheiro, não tinha mais a moto, não tinha nada. Mesmo assim, concordou. “Dou um jeito”. Colocou a pastinha debaixo do braço e correu pra rua. Milagre ou não, naquela semana fechou algumas vendas, o suficiente para quitar com o sócio. Quando chegou fevereiro de 2016, o dinheiro acabou. “Precisava de R$ 50 mil para equilibrar as coisas e recorri a meu pai. Ele não tinha um real, mas um amigo emprestou”, conta.

Em março, o negócio explodiu. Vendeu R$ 380 mil de elevador. “O que não vendi em um ano inteiro, vendi em um mês. Nunca tinha visto tanto dinheiro na minha vida. Quitei o empréstimo, aumentei o quadro de funcionários e segui acreditando e abrindo novos mercados”. 
 

“Eu não tinha conhecimento administrativo. Eu só pensava: quero fazer, vou fazer, não vou desistir!” 

 

“NÃO VENDEMOS ELEVADORES”
Parece um contrassenso, mas é isso mesmo que Lucas repassa à sua equipe. “Nós não vendemos elevadores, nós vendemos todo este movimento que fazemos onde atuamos e que as multinacionais não fazem, que é formar pessoas, gerar emprego e fortalecer a economia regional. Este é o nosso argumento”, diz.

Seguindo esta filosofia, a Motion Elevadores agora faz parte do Grupo Motion, um conglomerado de sete empresas interligadas ao negócio. “Temos a empresa de pinturas, de automação industrial, de usinagem, de manutenção, de gabaritos e dispositivos, em que atendemos nossas próprias demandas e de outras indústrias”. 

Com um verdadeiro Toque de Midas, Lucas também comprou uma empresa de locação de máquinas para limpeza doméstica, a Facilimpa, e presenteou os pais, Edson e Maria Helena.
 

“Tenho orgulho da minha trajetória. Saí do zero e, neste percurso, aprendi muita coisa, inclusive a ser empresário”.


E tem mais projetos vindo aí. Logo, logo a Motion terá uma marca de roupas e acessórios, com renda revertida para projetos sociais e um instituto de formação profissional.

“Precisamos formar mão de obra futura. Não temos aqui”, diz, lembrando que todos os seus funcionários não entendiam nada de elevadores. “Como eu tive muita oportunidade, quero ajudar outras pessoas”.

Este compromisso vai além. Ao participar do Conselho Paranaense de Cidadania Empresarial (CPCE) e aderir aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, a Motion mostra seu propósito de impacto positivo na sociedade. É o olhar para o futuro! O olhar para a geração de Francisco, o irmão de Lucas, de apenas nove anos. Caberá a ele continuar o legado...

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1 COMENTÁRIO(S)

Que história incrível, sem palavras, visão de futuro mesmo quando não a nada na sua frente.
comentado por Daniel em 05/04/2022
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