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14 anos de história
Edição 159
VIDA

Os degraus de Natalia

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Kauã Veronese

Publicado em 23/03/2022


Natalia nos degraus da casa da mãe em reforma: vida melhor para todos

Ela se criou na favela, sofreu violência doméstica, passou por diversas privações e, desafiando a lógica perversa da desigualdade social, fundou a Parente do Tráfego, uma agência de marketing digital em crescente ascensão

Natalia Parente tem 25 anos e muitas marcas. No corpo e na alma. Até os 14 anos, morou na favela com a mãe e as três irmãs. A família deixou Minas Gerais após a morte do pai. A mãe, dona Maria, se abrigou com a avó, também Maria. Trabalhando em frigorífico à noite e de diarista durante o dia, foi dando o seu jeito para criar a meninada. Para fugir da dor, começou a beber. E, para fugir da solidão, arrumou outro companheiro. 

Natalia tinha apenas sete anos nesta época e viveu um duro ciclo de violência doméstica. “Meu padrasto espancava todas nós. Aí, as mais velhas começaram a sair de casa. Como eu era a caçula, fiquei”, conta, lembrando que durante um tempo moraram em sete mulheres. “Minha irmã engravidou aos 13 anos, depois aos 14 de novo... Aquele era meu mundo, o único mundo que existia para mim até então”.

Não havia nenhuma perspectiva. Nem mesmo da escola. Ia para aula obrigada. Não podia perder o Bolsa Família. Também não prestava atenção porque ora estava cansada, ora com fome ou triste. “Minha mãe sempre fez o possível para não faltar, mas tudo se perdia no álcool e no cigarro”.
 

ABRINDO HORIZONTES
Aos nove anos, numa tentativa de mudar aquela realidade, mesmo que inconsciente, Natalia começou a vender feijão na rua. Enchia garrafas pet e batia de porta em porta. Aos domingos, ajudava numa galeteria, ensacando farofa. Como pagamento, um frango assado. 

Aos 14 anos, trabalhando de doméstica na casa da nutricionista Ana Selivon, pela primeira vez, teve uma vida digna. “Foi a Ana quem me aconselhou a estudar”, diz. “Eu olhava para a vida dela, não que fosse uma vida perfeita, mas uma vida que eu gostaria de viver. Tinha uma relação saudável e não faltava comida”, lembra.

Foram dois anos bons. “Ali, aprendi a confiar em mim”, diz. Tanto é que saiu da casa para trabalhar na GVT, seu primeiro emprego com registro. Vendendo internet de porta em porta, Natalia descobriu que o mundo era bem maior e, o melhor de tudo, tinha pessoas boas. “Foi a maior virada de chave. Uma vez fomos para Pato Branco vender e ficamos hospedados num hotel. Meu Deus, quando vi o café da manhã fiquei chocada!”.
 

“A força maior para continuar lutando é a própria realidade, ou seja, os boletos, contas...”


ASCENSÃO E QUEDA
Participando de cursos e treinamentos, se destacou como vendedora. “Eu só não tinha familiaridade com as planilhas do Excel. Nem internet eu tinha em casa, imagina computador. Mas como eu vendia bem, fui crescendo”. Com a transição da GVT para a Vivo, acabou saindo para trabalhar em uma empresa de lista telefônica on-line. 

Sem registro, assumindo várias responsabilidades e sabendo tudo do negócio, pediu demissão e abriu a própria empresa, a Lista Telefônica 102. Cresceu tanto que em dois anos tinha dez funcionários. De repente, com o avanço das redes sociais, o modelo de negócio entrou em declínio e colapsou. “Fali pela primeira vez”, afirma. “Vendi meu carro para pagar as contas, fiz o acerto de todo mundo e fui vivendo de um crédito que tinha no banco”. 

Se o negócio agora era rede social, focou os estudos nisso. Mesmo cursando Direito, se debruçou em livros e vídeo aulas de marketing digital. Sem renda ainda para pagar aluguel, faculdade, comer e viver, viu uma gigantesca bola de neve crescer à sua frente. 

Na mesma proporção das dívidas, aumentava sua coragem para empreender. Até pensou em arrumar um emprego, mas algo dizia para persistir. Sabia que ia dar certo. Um dia chegou para o ex-sócio e deu o ultimato: cada um deveria arrumar três clientes. Era a última tentativa. 

Confiante, saiu fazendo o que mais sabia: vender. E vendeu bem seu serviço. Como ainda não tinha expertise, fazia umas propostas inusitadas. Trabalhava de graça no primeiro mês. Caso o cliente tivesse retorno, pagava retroativo. Deu certo. Depois de um ano, a divisão da sociedade. Mais um baque!

PARENTE DO TRÁFEGO
Novamente, renegociando aqui e ali, e estudando muito sobre tráfego pago, foi aumentando a carteira de clientes. Atualmente são 25. Hoje, também dá aulas sobre o assunto, faz mentorias e ministra palestras. Está se formando em Direito, mas seguirá como gestora de tráfego. “Mesmo não exercendo, faria Direito novamente. O curso me ajudou muito. E só estou concluindo a faculdade graças a dois professores que me ajudaram, inclusive conseguindo meia bolsa. Eles não deixaram eu desistir”, afirma.
 

Romper a barreira social e resgatar a autoestima, aliás, foi uma das formas que a empresária encontrou para contrariar estatísticas e preconceitos, e ainda mudar a realidade de outras meninas, entre elas, as seis sobrinhas. “É uma quebra de ciclo muito forte na família. Eu não tive exemplo nenhum. Elas têm esperança e eu represento esta esperança”. 
 
NATALIA, lugar de esperança!
“Hoje eu tenho orgulho da minha história, mas durante muito tempo tinha vergonha. Cheguei a mentir o endereço para conseguir emprego. Quando alguém me levava para casa, eu descia duas ou três quadras antes. Até os 16 anos eu não tinha documento. Cada vez que chovia, alagava e levava tudo embora. Já perdi dois primos assassinados. Colegas mortas pelos maridos. Quase todas grávidas na adolescência.

Eu era uma adolescente favelada, piolhenta, morando num barraco no terrão, sem saneamento básico, sem nada. Em dias de chuva, ia com um calçado até o asfalto e lá trocava para ir trabalhar. Eu não tinha amigos. Nenhuma referência boa. Só drogas, álcool e tiro pra todo lado. Cansei de ser revistada pela polícia na saída da escola à noite. Houve um tempo que eu não tinha alegria de viver. Por que quero estar viva? Questionava. Eu não acreditava que existia um mundo bom.

O mundo que eu vivia era horrível. Não tinha motivo algum para viver. Eu apanhava, passava fome, medo... Hoje eu vejo o mundo diferente. Hoje eu amo viver. A minha vida é o bem mais valioso que tenho e quero que as minhas sobrinhas acreditem nisso. Acreditem que há uma possibilidade. É difícil sonhar quando você é muito pobre, mas, quando há um exemplo, o caminho se torna mais leve.
 

“É difícil sonhar quando você é muito pobre, mas, quando há um exemplo, o caminho se torna mais leve”


Eu me orgulho da minha trajetória. Sou uma mulher que saiu do zero e está construindo uma história de desconstrução. Quero ocupar espaços, quero inspirar outras mulheres a sair do lugar da dor para um lugar de esperança! Já chorei muito, mas hoje eu estou em paz com a minha história, com meu passado”.
 
Natalia Parente, agora em paz com sua história, quer inspirar outras meninas 

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