A revista mais premiada do Paraná
14 anos de história
Edição 159
ENTREVISTA - Ana Tatiane Provin e Matheus Xavier Provin

Quando nasce um acumulador?

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Kauã Veronese

Publicado em 25/03/2022


O ser humano é acumulador por natureza. Ao longo da vida, acumula uma grande quantidade de objetos, roupas, papéis, lembrancinhas, quinquilharias que só servem para juntar pó e energia ruim. Com a tecnologia, há quem acumule até e-mails e pen drives abarrotados de arquivos.

 
Mas a questão é: precisamos de tanta coisa? É apego? Medo? Tem alguma relação com a infância? Algum distúrbio? Qual a diferença entre bagunceiros e acumuladores? Para falar sobre o assunto, a Aldeia entrevistou a psicóloga Ana Tatiane Ferreira Provin e o psiquiatra Matheus Xavier Provin. Eles responderam às questões conjuntamente. 

O que são acumuladores compulsivos?
São pessoas que apresentam uma dificuldade persistente de descartar ou se desfazer de pertences, independentemente do seu valor real. Essa dificuldade resulta, frequentemente, de um forte apego emocional ou estético aos itens, além da crença de que podem vir a ser objetos úteis no futuro.
 

“Acumuladores são pessoas que apresentam uma dificuldade persistente de descartar ou se desfazer de pertences, independentemente do seu valor real”


Praticamente qualquer item pode ser acumulado, até animais, sendo que os mais comuns são bolsas, livros, roupas velhas, revistas, jornais, correspondências e papelada.
 
Quais fatores levam à acumulação?
A acumulação, enquanto transtorno, precisa ser entendida como uma condição multifatorial. Ou seja, não se tem uma única causa definida.

Por exemplo, sabemos que cerca de 50% dos indivíduos que acumulam dizem ter um familiar que também tem esse comportamento e relata, com frequência, episódios estressantes e traumáticos precedendo o início dos sintomas ou uma intensificação do quadro.

Além disso, há que se escutar cada pessoa frente ao seu sofrimento.

Existem crianças que têm dificuldade de descartar objetos simples, como um papel de bala. Pode-se dizer que o acúmulo surge na infância?
Pode-se dizer que os sintomas de acumulação emergem inicialmente por volta dos 11 aos 15 anos de idade, mas comportamentos de acumulação, se bem investigados, podem ser encontrados em crianças também. São os pais que geralmente controlam o ambiente das crianças, o que pode representar um grande desafio na identificação dos sintomas.
 

“Os sintomas de acumulação emergem inicialmente por volta dos 11 aos 15 anos, mas comportamentos de acumulação, se bem investigados, podem ser encontrados em crianças também”


Vale ressaltar que se trata de um quadro que, infelizmente, tende a progredir e piorar ao longo da vida, o que torna a sua identificação e o tratamento precoces importantes.

Há alguma relação entre pessoas com personalidade possessiva e o acúmulo?
Quando pensamos na questão do ter e no possível valor estético e utilitário dos itens, entendemos que pode existir um paralelo entre o acumulador e aquele que gosta de possuir.

Porém, no transtorno da acumulação temos elementos característicos como, por exemplo, o acúmulo de itens que congestionam e obstruem áreas da casa e do convívio, além de outros prejuízos associados à higiene, ao trabalho e aos relacionamentos.
 
O transtorno tem alguma relação com TOC (transtorno obsessivo-compulsivo) ou esquizofrenia?
Cerca de 20% dos indivíduos acumuladores também apresentam sintomas característicos do TOC, ou seja, as duas condições podem existir na mesma pessoa.

Porém no TOC a acumulação acontece, por exemplo, pelo medo que a pessoa tem de que outros se contaminem com aqueles objetos ou para que ela não precise submetê-los aos rituais de limpeza; na esquizofrenia o acúmulo de itens decorre, em geral, da presença de delírios ou de outras alterações do pensamento.

Já no transtorno de acumulação, as pessoas guardam intencionalmente os pertences, no sentido de que estabelecem algum valor presente ou futuro aos itens.

Há um certo egoísmo quando se fala em acumuladores, já que não pensam que o ambiente é coletivo?
Não. Alguns acumuladores não reconhecem o comportamento em si como prejudicial e outros, apesar de identificarem esses prejuízos, referem um sofrimento intenso relacionado à ideia de precisar se livrar dos pertences.

Assim muitos percebem as restrições impostas a si e a seus familiares, mas simplesmente sentem que não conseguem fazer nada para resolver a situação.

Existe uma linha tênue entre acumular e só guardar essas recordações, certo?
Sim. Quando guardamos uma recordação fazemos isso de maneira organizada, planejada e usualmente se tem uma história por trás do objeto, uma história a ser recontada sempre que é visto. Já na acumulação a motivação principal é voltada para a estética e/ou utilidade, atual ou futura. 

Em que momento se preocupar?
Sempre que a pessoa perceber um sofrimento relacionado à situação, mas também quando aqueles que convivem com ela na casa, na vizinhança e na comunidade perceberem prejuízos, por exemplo: isolamento social e acúmulos visíveis no terreno.

Em que medida, o acúmulo pode atrapalhar a vida da pessoa?
O transtorno de acumulação envolve prejuízos no funcionamento social, profissional e também na manutenção de um ambiente familiar saudável, assim, as pessoas podem acabar com dificuldade de se movimentar na própria casa, dificuldade para utilizar cômodos, e, também, com problemas de higiene.
 

“O transtorno de acumulação envolve prejuízos no funcionamento social, profissional e também na manutenção de um ambiente familiar saudável”


São pessoas que deixam de receber familiares e amigos em sua casa, e que muitas vezes, quando reconhecem sua situação, mas não conseguem controlá-la,  acabam não saindo mais de casa. Além disso, é uma condição que pode levar a depressão, sendo este um transtorno visto em 50% dos acumuladores.

 A terapia é essencial no tratamento de acumuladores?
Sim, ela é fundamental. Apesar de ainda não existirem tratamentos medicamentosos específicos para o transtorno, a avaliação psiquiátrica, em comunhão com o acompanhamento psicológico, também é de suma importância, uma vez que outros quadros, como depressão e ansiedade, também podem estar presentes e cujo tratamento adequado influencia diretamente na terapêutica do transtorno de acumulação.

Para além das esferas psicológica e psiquiátrica é importante ressaltar o papel da assistência social e da comunidade, bem como a atuação da unidade de saúde da família do território onde vive o indivíduo.
 
Matheus, como psiquiatra, você pode descrever sua experiência com algum paciente? 
Sim, acompanho um paciente que apresenta, segundo a definição, transtorno de acumulação. Estamos em processo de sensibilização nesse sentido, uma vez que ele ainda não reconhece todos os sintomas e todos os prejuízos, algo que parece mais evidente para a família.

Começamos pelo tratamento medicamentoso de um quadro de ansiedade, que intensifica os sintomas de acumulação, e estamos trabalhando o início de um  tratamento psicoterápico associado.

Confira a entrevista com Agenor Beraldo, acumulador compulsivo, clicando aqui.

Deixe seu comentário

Expresse, fale, opine, sugira! Nós queremos fazer nossa Aldeia cada vez melhor.

Importante: Comentários com conteúdo sensível, impróprio ou que for considerado inadequado – por qualquer motivo, a critério do moderador – serão sumariamente deletados.

Deixe seu comentário.
© 2022 REVISTA ALDEIA Todos os direitos reservados.
Alguma dúvida? Nos te ajudamos. Ligue: (45) 3306-5751