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Edição 160
SKATE

Como uma cultura global criou raízes em Cascavel

Texto Gabriel Portella
Foto(s) Gabriel Portella

Publicado em 18/04/2022

O município tem um longo histórico de atletas que fizeram história em nível mundial.

O som forte criado pelas rodas das pranchas do asfalto cortam a rotina de Cascavel como um estrondo rápido e retumbante. Os estalos da madeira que as acompanham demarcam explicitamente que, naquele lugar, liberdade, euforia, diversão, segurança e uma pitada de loucura colidem entre si.

O Sol ardente não é carinhoso com João Ricardo e Laura Fachinello, que fluem entre os obstáculos da Cascavel Skate Park, a pista do Centro Esportivo Ciro Nardi, inaugurada em 2020. Entre muitas falhas tentativas, os skatistas insistem em movimentos específicos, errando, caindo, e, por fim, acertando.

A situação não é inédita ou incomum. É, na verdade, um retrato corriqueiro de uma cultura repleta de complexidades, mas com pilares firmes na simplicidade. O sentimento de empatia e coletividade na cena do skate manifesta-se quase como uma anomalia no mundo real.

Estranhos e conhecidos se ajudam como melhores amigos; mulheres e homens dividem o mesmo espaço com igualdade e respeito; preconceitos são quase inexistentes e a porta para o outro entrar está sempre aberta.

João Ricardo, que voltou recentemente à pista após mais de 60 dias afastado devido a um acidente que sofreu andando de skate, é medalhista em competições de skate estaduais e sonha em se tornar um campeão brasileiro.
 

“Para ganhar os campeonatos eu preciso ter os movimentos melhores do que os do meu oponente. Há um ranking de manobras que você precisa aprender, mas a próxima mais fácil é a que eu caí e quebrei meu braço, então agora eu voltei e vou tentar de novo”, explica o adolescente.

João Ricardo executando a “rock de back”, como ele chama a manobra

Já Laura vê o skate de outra maneira. A estudante de fotografia equilibra a prática do esporte com sua rotina diária e encontrou no skate um hobby e uma maneira de superar suas vulnerabilidades.
 

“Como mulher, a dificuldade que eu enfrentei foi mais comigo mesma, com insegurança e medo de não ser aceita dentro da pista. Sempre vai ter algumas situações, mas dentro do esporte sempre fui muito bem recebida”, comenta Laura.

 
Laura Fachinello andando pela Cascavel Skate Park


O começo de tudo

Com uma origem incerta, acredita-se que o skateboarding surgiu na primeira metade do século 20 nos Estados Unidos, ganhando maior popularidade na década de 50, quando surfistas californianos adaptaram as pranchas de surf para o solo.

De acordo com a Federação de Skate do Paraná, não muito tempo depois do seu lançamento e com modelos já sendo fabricados comercialmente, o skateboarding começou a ser alvo de campanhas de boicote que pediam pelo seu banimento das ruas.

O motivo? O número de acidentes envolvendo o equipamento estava aumentando a cada dia, em especial devido às rodas de ferro, e isso estava desagradando parte da sociedade americana.
 
Roller Derby foi o primeiro modelo de skate comercializado do mundo, em 1959.
Imagem: ©Victoria and Albert Museum, Londres

Segundo o Comitê Olímpico do Brasil, o esporte, conhecido por aqui apenas como skate, chegou ao país ainda na década de 60, sendo trazido por viajantes que visitavam as praias estadunidenses.

De lá para cá, o que antes era um passatempo de surfistas tornou-se um divertimento cada vez mais popular entre os jovens.

Estabelecendo uma estética autoral, que abrange desde a vestimenta até o gosto musical dos seus praticantes, o skate, que ligou-se aos movimentos de contracultura no final da década de 70, rapidamente se tornou símbolo do que popularmente é conhecido como cultura de rua.

Para a pesquisadora Dra. Becky Beal, que estudou as dinâmicas políticas e culturais do skate por mais de 20 anos, e para a professora Lisa Weidman, o esporte se diferencia de todos os outros pelo senso de autenticidade que ele carrega e pela falta de determinações e autorizações que implicam em sua prática. Um skatista não precisa competir para poder praticar o esporte.

De acordo com um artigo publicado por pesquisadores da Universidade de Linfield, os skatistas não só gostam da falta de normas que permitem a eles serem livres, como também apreciam desafiar essas regras com criatividade
 

O skate na capital do oeste do Paraná

Há divergências da data exata do seu surgimento em Cascavel, mas, segundo dados da Associação Cascavelense de Skate (ACSKT), o esporte começou a ser praticado no município em 1988.
 

“O skate está nas ruas de Cascavel há muito tempo. Nós tivemos dois grandes nomes, Rodolfo Ramos (Gugu) e Wagner Ramos, que foram os primeiros atletas profissionais saindo de Cascavel, ainda na década de 90”, explica Diego Nazari, presidente da ACSKT.

 
O campeão Carlos de Andrade “Piolho” e o vice-campeão Rodolfo Ramos “Gugu” na Copa do Mundo do Skate de 2009. WCSK8

A segunda geração, surgida entre os anos de 2000 e 2005, recebeu apoio de Anderson Camargo, outro grande nome do esporte no município, que promovia aulas e campeonatos de skate para os iniciantes, antes de se mudar para Curitiba em busca do profissionalismo no esporte.

Dessa leva, Neverton Casella, Roger Silva, Alexandre Masotti são apenas algumas figuras que se destacaram na cena local do skate, indo mais tarde à Europa.

Ainda tímido, o esporte aos poucos tentava ressurgir na cidade e foi impulsionado pela chegada da empresa Green Skate Shop, que atuou durante seis anos no município e buscou desenvolver a cultura do skate em Cascavel.

Mesmo assim, o movimento ainda não consegue ter forças suficientes e seus praticantes continuam atuando de forma independente.


 

O skate é baderna?

 

“Diante dessa fragilidade, dessa transição de ciclos, a Associação surge em 2017, a convite do poder público, com o propósito de organizar a prática do skate na cidade e desenvolver a cultura”, explica o presidente da Associação Cascavelense de Skate, Diego Nazari, que atua no órgão sem fins lucrativos de forma voluntária.


Associado à marginalização desde o seu surgimento no mundo, o movimento do skate em Cascavel também estava em constante conflito com o resto da sociedade, em especial com as pessoas que moravam em volta das pistas.

Diego explica que, por ser público e não ter uma organização, os locais eram frequentados por pessoas que faziam coisas inapropriadas, como uso de substâncias químicas ilegais e uso excessivo de álcool.

O presidente cita que um dos locais que foram recuperados pela ACSKT é o PV House, que desde 2006 é um espaço de skate. Paralelo à criação da Cascavel Skate Park, a ACSKT focou seus esforços em recuperar a quadra do Parque Verde.
 

Eventos de skate realizados no município reúnem dezenas de jovens. ACSKT, 2019.

  

“Contratamos um guarda para vigiar o local e colocamos regras para criar credibilidade perante o poder público. Fizemos um trabalho de porta em porta com os vizinhos do PV House explicando quem éramos e quais eram os nossos objetivos para eles apoiarem a causa”, conta Diego.


João Ricardo, que treina rigorosamente todas as tardes, comenta que já sentiu medo devido a presenças não amigáveis na pista. O atleta fala que, visando alcançar seus objetivos no esporte, ele chega à pista sempre bem cedo, muitas vezes sendo o primeiro jovem no local.
 

“É perigoso, sabe? Um dia eu cheguei e tive sorte que eu não estava sozinho! Veio um morador de rua com uma faca e queria meter o louco. Aí nós fugimos e chamamos o guarda, que pegou o cara”, relembra João.


Para Ricardo Oliveira, pai do João e fã número 01 do atleta, a presença dos pais na vida dos praticantes é essencial.
 

“Em relação ao perigo, no começo eu fiquei um pouco receoso, mas como eu já conheço o skate, e como o João é um menino que conversa com a gente, eu fiquei tranquilo”, explica Ricardo, que também é skatista e professor universitário.

 
Em conversa com o jornalista Gabriel Portella, João Ricardo fala que adora andar de skate ouvindo pagode.

Do marginal ao popular ao elitizado?
Em 2016 o Comitê Olímpico Internacional (COI) oficializou o skateboard como um esporte olímpico. Os efeitos dessa decisão foram sentidos por diferentes setores durante e após os Jogos Olímpicos de Tokyo 2020, que ocorreram em 2021 devido à pandemia, em especial o setor econômico e educacional.

De acordo com a empresa Neotrust, que capta as transações nacionais de e-commerce, houve um crescimento de 50% nas vendas dentro do setor de skate entre a primeira semana dos jogos e a semana após a participação dos skatistas brasileiros.

No mesmo período, o skate dominou as três primeiras posições entre os produtos cujas buscas mais cresceram dentro do Google Shopping, seção do buscador destinada apenas à exibição de artigos para vendas, sendo que a procura por “skate feminino” ficou em primeiro lugar. Já o termo “comprar skate” teve um aumento de 470% nas pesquisas.
 
Laura é uma das admnistradoras da página Mcgee Skate Feminino, que divulga as skatistas de Cascavel.


Marcelo Pasqualotto e Theo Campelo, sócios da Córtex Skate Shop, revelaram que a visibilidade dada ao esporte devido às olimpíadas motivou eles a empreenderem e iniciarem uma loja no ramo em Cascavel.

Bastante gente vem aqui procurando skate para filho e crianças pequenas começarem a andar, isso nos motivou bastante”, conta Theo Campelo, que também explica que a proximidade da loja com uma pista de skate facilita a prática para os skatistas que, caso acabem quebrando alguma peça, não precisam atravessar a cidade para arrumar um novo equipamento.

Entre as rodas, rolamentos, tábuas, lixas e “trucks”, o skate, símbolo da cultura de rua e da cultura do gueto, está se tornando dia após dia um objeto de consumo cada vez mais exclusivo. Os modelos para iniciantes variam em torno de R$ 100 a R$ 270, equivalentes, respectivamente, a 8,25% e 22% do salário mínimo de 2022, que é de R$ 1.212.
 

“É um valor de entrada bem considerável. Eu não sei se hoje, se eu fosse um adolescente, eu conseguiria convencer meus pais a comprar um skate para mim. Na época consegui comprar por um preço que hoje seria impossível”, admite Marcelo Pasqualotto.


Os empresários explicam que, para tentar contornar a situação, eles buscam fornecedores com preços mais acessíveis e tentam segurar o preço.
 

“Como muita gente não tem condição, mas quer começar no skate, há muitas pessoas que ajudam. Por exemplo, se eu tenho um shape (tábua) lascado, eu não jogo fora, eu doo para alguém que está começando, que não precisa de um shape muito bom para começar, e aí a pessoa faz esse uso, aprender as manobras dela”, comenta o skatista João Ricardo.


"Quem anda de skate não é embalo"
Segundo o presidente da ACSKT, Diego Nazari, o próximo grande projeto relacionado ao skate no município de Cascavel é uma emenda à Cascavel Skate Park para a criação da pista “bowl”, dentro do complexo do Ciro Nardi.
 

“Está se desenhando para Cascavel apresentarmos o Campeonato Brasileiro de Skate Amador, então estamos em busca de patrocínio para isso acontecer. Também teremos o “Go Skate Day”, que se comemora dia 21 de junho”, comenta Diego.


O Go Skate Day reúne skatistas de toda a cidade em um determinado ponto onde eles participam de uma gincana, aberta à comunidade, com fins de celebrar o esporte. Além do evento, a pista do PV House receberá uma revitalização com pedras de mármore vindas de São Paulo.

Entre os estrondos retumbantes das rodas e os estalos da madeira há um grupo de pessoas e famílias que carregam consigo diariamente uma cultura que expressa o que há de melhor em ser jovem, indiferente da idade.

Assim como em todo o mundo, o skate pulsa forte pelas ruas de Cascavel e, se depender de jovens como o João e como a Laura, continuará pulsando por muitas outras décadas.

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