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OPINIÃO

‘Heartstopper’ é o abraço quentinho que todos precisam

Texto Gabriel Portella
Foto(s) Divulgação

Publicado em 02/05/2022


Em seu lançamento, a série alcançou 100% de aprovação pela crítica especializada.

 
Heartstopper (Netflix) é muito mais do que apenas uma excelente adaptação de um livro para a TV. A mais nova produção com o selo “original Netflix” se destaca entre as suas companheiras com frescor e simplicidade, tudo o que uma boa história precisa ter. A série utiliza do audiovisual para criar um universo que abraça e acolhe, transbordando segurança, alegria, felicidade e representatividade.

Criada pela ilustradora e escritora britânica Alice Oseman, Heartstopper acompanha a história dos adolescentes Charlie Spring (Joe Locke) e Nick Nelson (Kit Connor) e como eles descobrem que a amizade não muito comum entre eles (nerd e o jogador de rugby) pode ser algo a mais. Além de um sucesso na web e nas livrarias, o programa também registrou mais de 14,5 milhões de horas assistidas apenas nos primeiros dias após o seu lançamento, segundo dados divulgados pela Netflix.

Heartstopper | Trailer oficial | Netflix

Menos tragédia, mais esperança
Não faltam motivos técnicos para enaltecer a série, mas o que me motiva a escrever sobre Heartstopper é como ela espalha um sentimento de genuína felicidade, muito raro hoje em dia. É uma série leve, fácil e gostosa de se assistir, mas que em nenhum segundo durante os seus oito episódios, se permite entrar na mesmice de ser só isso, de ser apenas um clichê romântico.

A obra, que tem classificação indicativa para maiores de 12 anos, entrega uma visão da comunidade LGBTQ+ sem estereótipos, que entende e fala com a adolescência de uma maneira assertiva e direta. Reforçando essa autenticidade, Heartstopper também se difere das demais séries que abordam esses temas, pela bravura de se permitir sonhar com uma visão onde o amor e a esperança são maiores do que a violência com a comunidade.

A produção trata assuntos “complexos”, perante o senso comum, com toda a simplicidade e facilidade que é tratá-los, sem filtros de medos e preconceitos. Inclusive, Heartstopper faz algo que muitas produções não têm a coragem de fazer, que é colocar atores adolescentes e jovens para interpretar adolescentes queers.
 
Rob Youngson/Netflix

Há um medo na indústria de como as pessoas vão reagir ao verem na tela um personagem criança LGBTQ+, interpretada por uma criança. Isso é notável até em show consagrados e “abertos” à diversidade, como Élite (+18) e Euphoria (+18). Heartstopper apenas entende algo bem básico: as identidades e orientações são características do ser humano desde o momento que ele nasce, elas não “aparecem” depois dos 24 anos.

Não só a idade aqui é relevante, mas também a representatividade. Joe Locke, intérprete do protagonista, é assumidamente gay e Yasmin Finney, assim como Elle, sua personagem, também é uma jovem trans. A vida, orientação e identidade dos atores têm que ser do conhecimento do público? Não, eles têm o direito à privacidade. Mas como ambos já se manifestaram publicamente sobre, é legal pontuar esses fatos, pois demonstra o cuidado da série em realmente trazer a pluralidade e não apenas praticar o famoso “pink money”.

A produção original mais ousada e importante da Netflix
A produção e a atuação dos atores fazem os personagens pularem para fora da tela, naquela rara sensação e vontade de se tornar amigo deles. Ouso dizer que a última vez que a Netflix tinha conseguido tal feito, foi no lançamento da aclamada Stranger Things, em 2016, mas mesmo assim, agora é diferente.

O jornalista inglês David Opie definiu a adaptação como a “série britânica mais importante desde It’s a Sin (HBO)”. Não posso concordar ou discordar dele porque vivo no Brasil, mas utilizo dessa citação para dizer uma coisa: Heartstopper é a produção mais relevante já feita pelo streaming no mundo.
 
Divulgação Netflix

Não estou me referindo a questões técnicas, tanto visuais quanto narrativas, mas o que assistimos na série é algo que, até então, podíamos ver apenas em produções independentes, feitas para nichos, e não para o grande público. A Netflix foi ousada e merece os créditos por isso.

Tenho total certeza que Heartstopper é um marco na história da TV e terá um impacto imensurável. Não é apostar em aliens, ação explosiva, cenas calientes, dramas populares nem nada disso. A distribuidora de streaming apostou em um drama clichê LGBTQ+ com adolescentes como protagonistas sem se pautar na tragédia e, sem dúvida alguma, ficará marcada na história por isso.


Encontre alguém que te abrace como o Nick abraça o Charlie
Por fim, mesmo diante de todas as suas camadas, Hearstopper é “só” uma série sobre o amor, que esbanja momentos de felicidade e transparece um sentimento que estava em falta nos últimos anos: a esperança de um futuro melhor. A cada episódio, um mix de felicidade, curiosidade e tranquilidade, nessa série para toda a família que te abraça, como um abraço quente em um dia de inverno, ou como um abraço molhado, após um banho de chuva.

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1 COMENTÁRIO(S)

FICOU OTIMO!!!!!
comentado por Elie em 02/05/2022
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