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Edição 162
VIDA

Aos olhos de João

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Andressa Parizotto Ledur

Publicado em 27/06/2022


Prestes a completar 80 anos, João Batista Haro de Almeida avalia a vida como um processo de perdas e ganhos. Desapegado convicto, vê o dinheiro apenas como um instrumento

Não são poucos os que reconhecem João Batista Haro de Almeida como um negociador de mão cheia e calibrada. O que poucos sabem é que sua trajetória começou muito cedo e por caminhos tortuosos que nem ele imaginava. Nascido em Campos Novos (SC), de uma família com raízes na pecuária, João trouxe no sangue o DNA mercante do avô paterno Justiniano, o Vô Nhonhô.

Justiniano ia buscar mulas na Argentina para vender em São Paulo. Com a decadência das minas de prata de Potosí, as mulas “espanholas”, compradas quase de graça, eram vendidas na feira de Sorocaba para produtores de café e algodão.

Teve temporada de meu avô sair de casa e deixar minha avó grávida. Quando voltou o filho estava caminhando”, conta João, que conviveu pouco com o avô, mas ainda lembra de suas histórias.
 
João Batista mostra a medalha que ganhou com a marca registrada do avô Justiniano 

Apesar das muitas semelhanças com o avô, numa ele se diferencia de longe. Não é apegado a dinheiro. Enquanto o avô morreu agarrado na “guaiaca”, João já repassou grande parte de seu patrimônio aos filhos, Maurício e Carolina. “Os Almeidas eram muito miseráveis. Vô Nhonhô era muito esperto, sabido, mas pão-duro ao extremo”.

Tanto é que foi da avó, Rea Silvia, que ganhou o primeiro pedaço de terra. Aos 16 anos, emancipou-se e pediu-lhe uns dez alqueires. Como eram abastados, a avó só perguntou o porquê. A resposta veio de imediato. “Quero fazer negócio”, respondeu o neto. “Ganhei uns 20 alqueires dela, passei nos cobres e comecei a negociar”.

INTERNATO AOS 9 ANOS
Bem antes disso acontecer, João foi mandado para o colégio interno, em Curitiba, aos nove anos de idade. Uma ruptura marcante para quem vivia livre na fazenda. Deste tempo, as memórias são tão doloridas que João preferiu engavetá-las. Aquela decisão, de certa maneira, o desconectou de Campos Novos. 

Morando em Curitiba, e ainda na Faculdade de Direito, começou a comprar terrenos, construir casas e vender. “Sempre fui muito apressado para as coisas”, diz, lembrando que até o nascimento foi precipitado.

Vim meio ligeiro e meu pai teve que fazer o parto. Nasci no dia 27 de junho de 1942 na Fazenda Santa Cruz. Com cinco anos, já acompanhava meu pai, um negociante de gado, em suas idas para o Rio Grande do Sul. A boiada demorava 50, 60 dias para chegar em Campos Novos”.

HARO, O LADO ARTÍSTICO
Da mãe, Natalia Haro de Almeida, João lembra da sua calma e tolerância. “Mulher inteligentíssima, tinha um dom artístico incrível. Guardo até hoje uma tela que ela fez aos seis anos de idade, com o título ´Bonequinha`, afirma.

Não só ela. A família toda era de artistas, com destaque para o seu irmão mais velho (tio de João), Martinho de Haro, um dos expoentes do modernismo brasileiro, tendo participado do Salão Nacional de Belas Artes, em 1931, e estudado na Académie de la Grande Chaumière de Paris. Ao longo da vida, produziu mais de 2 mil obras e dezenas de exposições.

A PERDA DO PAI 
Advogado formado, João tinha em mente construir carreira na área jurídica. Aos 23 anos, mais uma ruptura e sonhos interrompidos. Perdeu o pai, Moisés, vítima de um câncer raro nos músculos.

Meu pai faleceu aos 51 anos, em 1966, muito jovem. Um pouco antes de falecer, nós tínhamos comprado uma fazenda em Mamborê e tive, então, de cuidar dos negócios da família. A morte dele mudou tudo”.

Casado com Bernardete, João veio para o Oeste. Já tinha uma área em Toledo que comprou com a venda das casas de Curitiba e mais esta de Mamborê. “Minha paixão era Umuarama, lugar bom para gado, mas lá as terras já eram muito disputadas”.

A GRANDE GUINADA
Após algumas sociedades frustradas, resolveu se desfazer de tudo no Paraná e empreender no Mato Grosso do Sul. Em 1997, comprou uma área entre Dourados e Ponta Porã, no início do ciclo da soja. “Colhi muita soja, mais de 98 mil sacas. Ganhei muito dinheiro e perdi muito dinheiro também. A vida é assim”, diz. 

Neste mesmo ano, João sofreu um grave acidente, caiu de um secador e lesionou quatro vértebras.

Me recuperei e entrei para o Pantanal. Comprei um mundo de terras lá, cheguei a ter 14 mil cabeças de gado, quatro ou cinco fazendas. Sempre fui rápido nos negócios, mas não sou agarrado a coisas materiais. Deu resultado, passo nos ´cobres` e me desfaço. Esse desprendimento me ajudou muito a negociar. Gosto de dinheiro para ter as coisas boas, mas não para me aprisionar a ele”, explica.
 
Certificado concedido à Fazenda Esperança em 1965

Seguindo conselhos do avô e do pai, sempre foi prudente. “Nunca fiz empréstimo algum”.
 

“O que há de mais moderno em pecuária eu fiz. Ganhei e perdi dinheiro. Tenho um pouco de conhecimento. Este é o acervo que mais me agrada”


RESIDÊNCIA EM CASCAVEL
Morando em Cascavel desde 1977, João Batista participou ativamente da criação do Parque de Exposições Celso Garcia Cid e da organização de diversas edições da Expovel, sendo inclusive presidente da Sociedade Rural do Oeste (SRO) por um mandato.

Aqui, estabeleceu fortes laços de amizade, entre elas, com o seu grande mentor, Francisco Sciarra (in memoriam); homem, segundo ele, de pureza, pensamento e vontade incomuns. 

Foi em Cascavel também que estreitou ainda mais seu vínculo com Ibrahim Faiad e com os inseparáveis amigos, parceiros de viagem e de vinho, José Filippon e Alci Rotta Jr.

Felicidade é isso. É estar bem com amigos, família, conhecidos, desconhecidos... tomar um vinho e um conhaque francês com os amigos de vez em quando. Na vida, fiz o que achei que era certo e assim cheguei aos 80”. 

Aos olhos de João, a vida é um processo de perdas e ganhos, e as lágrimas, muitas vezes, são necessárias para enxergar coisas impossíveis de se ver com os olhos secos... 
 

“Cheguei nesta idade, não devo nada para ninguém, não comprei passagem de ida ainda, mas, na hora que me ligarem, embarco e vou tranquilo”

 

QUEM É JOÃO?
Filho de Moisés e Natalia, João Batista Haro de Almeida nasceu em Campos Novos (SC), em 1942. Casado com Bernardete, tem dois filhos, Maurício e Carolina. É avô de João Renato, Camila, Sofia e Natalia. Teve apenas uma irmã, Maria Silvia, já falecida. Mora em Cascavel desde 1977. 
 

“Quanto mais você vive, mais pessoas você conhece e mais seletivo se torna, se afastando naturalmente de quem não lhe agrada”

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