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Edição 163
PERFIL

Os verdadeiros “HeForShe” de Silvana

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Andressa Parizotto Ledur

Publicado em 22/07/2022


Ela é auxiliar de lavanderia em um frigorífico, entra no trabalho às 22h30 e sai às 6h50 da manhã.
Às 7h30 já está no CEEBJA, onde cursa o nono ano do ensino fundamental

Esta é a história de Silvana da Silva, mas é também a história de Jorge dos Santos, João Paulo Sabec, Adilso Belarmino e Leandro Smith. Para entender melhor, sem o apoio deles, Silvana não estaria realizando um sonho adormecido: estudar.

Jorge é o esposo. É o que leva e traz quando dá tempo. O que ajuda na casa e faz janta. João Paulo, Adilso e Leandro são colegas de trabalho no frigorífico da Lar Cooperativa, onde Silvana é auxiliar de lavanderia. 

Tudo começou quando João Paulo, seu líder, deu o primeiro empurrão. Ele levou a ideia para Adilso (coordenador) e para Leandro (também líder), e eles não só concordaram, como mudaram os horários de Silvana para dar certo com o horário das aulas. “Sou muito grata a eles. Além de acreditarem no meu potencial, estão sempre perguntando, incentivando”.

Pode ser que nenhum dos personagens desta história conheça o movimento mundial “HeForShe”, mas estes quatro homens citados aqui são verdadeiros exemplos disso.

Criado pela ONU Mulheres, o movimento “HeForShe” (ElesPorElas) é um esforço global para envolver homens e meninos na remoção das barreiras sociais e culturais que impedem as mulheres de atingir seu potencial.

O que Jorge, João Paulo, Adilso e Leandro estão fazendo por Silvana deveria ser a regra. Mas não é. Ainda são poucos os homens que se solidarizam às mulheres. Quando isso acontece, a exemplo deles, muitas barreiras são descontruídas e mudam-se realidades.

Meu marido é meu anjo. Sonha junto comigo”, declara Silvana, que já pensa em seguir carreira na área de recursos humanos.

NUNCA É TARDE
Sonho grande para quem se achava velha demais para estudar e nunca teve incentivo algum. Sem estrutura familiar, Silvana casou aos 14 anos. Aos 16, já era mãe. Estudou somente até a quarta série e parou.
Morando no sítio, não havia perspectiva nenhuma.

Virou dona de casa, se separou do primeiro marido e voltou para a cidade para recomeçar a vida ao lados dos filhos, Danieli e José Felipe, hoje com 23 e 18 anos. Aí conheceu Jorge e, aos poucos, foi descobrindo uma força que nem ela conhecia.

Eu tinha só a quarta série e fiz minha habilitação. Passei e fiquei entusiasmada. Vi que podia mais”.

MUITO ESFORÇO, POUCO SONO
A jornada é pesada. O cansaço às vezes pega. Mas a vontade é maior. Como trabalha à noite e estuda pela manhã, só sobra a tarde para se organizar. “Chego em casa por volta das 13 horas, almoço, faço as tarefas, arrumo a casa e durmo um pouco. Acordo, janto, vou para o trabalho. No outro dia estou na aula”.

Desde que começou a frequentar as aulas, no início deste ano, Silvana dorme em média 4 a 5 horas por dia. O dia de folga no trabalho é de muita leitura e estudo. Está com notas boas e já se preparando para voos mais altos.

Quando eu procurava emprego, a primeira coisa que pediam era escolaridade, e eu não tinha. Estou na Lar há cinco anos e estou estudando justamente para ter uma oportunidade melhor até mesmo lá. O estudo abriu meus horizontes”.
 
Na sala de aula, conta com o apoio dos professores e
das colegas: “Uma apoia a outra para ninguém desistir”

UM “HeForShe” NO CEEBJA 
O professor Valdenir Gonçalves é um entusiasta nato da educação. Ex-boia fria, virou doutor. Não daqueles doutores que exalam arrogância e que se situam num patamar superior. De jeito nenhum.  

Valdenir é daquelas pessoas que puxam pela mão. Aos jovens e adultos que não tiveram acesso à escola na idade convencional, ele mostra o caminho de forma leve, com muita poesia e, principalmente, com amor.

É no Centro Estadual de Educação Básica para Jovens e Adultos (CEEBJA) que ele se realiza, que ele vibra com as histórias de superação, como a de Silvana. Ele e todos os demais professores e funcionários.

"Aqui, todos são apaixonados pelo que fazem e estão sempre preocupados em trabalhar a autoestima do estudante e valorizar a sua bagagem histórica. Ao longo dos anos, transformamos muitas vidas. Isso é o que move o CEEBJA”.
 
Silvana: todo tempo é de estudo

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