Matérias

A última vassourada

Publicado em 15/03/2017

* Matéria publicada na edição número 30 da revista Aldeia em junho de 2010


A VASSOURA
MIDIÁTICA
DE NETO


O drama familiar só contribuiu para alimentar os sonhos do menino, cuja diversão era ouvir rádio


Texto: Rejane Martins Pires
Fotos: Vanderson Faria

O jeitão de José Roberto Neto, de 46 anos, não nega sua origem rural. Não é à toa. O homem da vassoura que comanda dois programas diários, ao vivo, na TV Tarobá, começou sua vida profissional, por ironia do destino, como tratorista. Isso, aos 13 anos.
Nascido em Palmitópolis, foi obrigado a trabalhar na lavoura quando o pai perdeu tudo em um incêndio. O drama familiar só contribuiu para alimentar os sonhos do menino, cuja diversão era ouvir rádio. Aliás, foi gradeando e arando a terra que descobriu sua verdadeira vocação. Nem mesmo a desaprovação inicial do pai foi suficiente para fazê-lo desistir daquele sonho maluco. Quando a família menos esperava, fez a mochila e veio para Cascavel.
Para conseguir uns trocados, arrumou um emprego na Rádio Verdes Campos. Enquanto limpava os discos, observava a rotina da emissora. Não demorou muito foi promovido a auxiliar de sonoplastia e, depois, a operador de áudio. Mas, Neto queria mais. Faltava a locução. Mudou-se para Assis Chateaubriand, onde aprendeu a ser “comunicador” na Rádio Jornal.
A partir daí, não parou mais. Em 1988, voltou a Cascavel para apresentar um programa policial na Rádio Independência (Cidade). Bastaram três meses no ar para ser “convocado” pela Tarobá como repórter policial. Antes de assumir os programas Primeira Hora e Tarobá Cidade, trabalhou com Lourival Neves e Thiago de Amorim Novaes. Também atuou no departamento de jornalismo da emissora, cobrindo, inclusive, fatos polêmicos de repercussão nacional. Desde então, são mais de 20 anos de casa.

ASSISTENCIALISMO
Com uma fórmula bem simples e nenhum receio de fazer assistencialismo, Neto conquistou uma legião de fãs. São pessoas carentes que encontram no comunicador o “último recurso” para seus problemas. Em média, faz 2 mil atendimentos por mês. Diariamente, mais de 50 cartas chegam à produção do programa, com extensos pedidos que incluem dentaduras, óculos, fraldas geriátricas, tratamento médico, cadeiras de roda, muletas e outras “esquisitices”.
Ele não tem vergonha de “pedir” e, no ar, se comporta como um “leigo”, propositalmente, para ganhar a simpatia do público. Ao se intitular porta-voz do povo, abre espaço para quem precisa, com direito a depoimentos carregados de apelo popular. “Eu sempre fiz assistencialismo, desde a Rádio Cidade e não vejo nada de errado nisso. Não sou candidato a nada e não levo vantagem nenhuma. Simplesmente, me coloco no lugar das pessoas e sofro junto com elas”, diz. “Quando consigo resolver o problema, fico feliz. Quando não consigo, é uma angústia, não só minha, mas de toda a equipe”.
Por essas e outras, Neto se desdobra em dez para cumprir uma agenda que começa com visitas semanais nos bairros da cidade, festas de aniversário, bailes, jantares e até velórios. Em sua rede de contatos, mais de 15 mil endereços. “Não tenho preguiça”, enfatiza.

VASSOURADAS
O entusiasmo do apresentador é tanto que suas manhãs começam às 5h30. Às 6h45 já está dando vassouradas na bancada do Primeira Hora. Polêmico, não poupa as palavras para defender suas “bandeiras” e cravar seu estilo na mídia regional.
Apesar de muita gente torcer o nariz, não há como negar a popularidade de Neto e sua vassoura midiática. Vassoura, aliás, que cristalizou duas convicções básicas: a de que sempre é preciso estar pronto para improvisar na televisão e a de que um programa regional (ao vivo) deve valorizar notícias quentes e uma boa dose de irreverência. As vassouradas são a prova disso. “Já quebrei até a bancada. Bato pra valer mesmo. Fico nervoso com tanta sujeira”, diz.
O que pouca gente sabe é que a vassoura foi incluída no cenário por acaso. “As zeladoras estavam terminando de limpar o estúdio, mas o programa tinha que entrar no ar. Como ficaram alguns ciscos, comecei a varrer. O público gostou da ideia e a vassoura foi incorporada de vez”.

NAS PRATELEIRAS
Longe da tela, Neto é muito mais que o polêmico comunicador da TV Tarobá. Ao lado da esposa, Mara, com quem vive há 22 anos, e dos três filhos, ele ajuda no restaurante da família e está lançando alguns produtos com a sua marca. É nesse espírito que quer diversificar cada vez mais as atividades. Ainda no primeiro semestre deste ano, chegam às gôndolas dos supermercados as bolas e vassouras. “Será um sucesso. Há inclusive um modelo de vassoura infantil. Também tenho o projeto de fazer um boneco, mas isso é para o futuro”.


Neto: vassouradas, óculos e dentaduras

Tratorista: “Aprendi a ser homem e, principalmente, perseverante”


“Já quebrei até a bancada. Bato pra valer mesmo. Fico nervoso com tanta sujeira”

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Importante: Comentários com conteúdo sensível, impróprio ou que for considerado inadequado – por qualquer motivo, a critério do moderador – serão sumariamente deletados.

Deixe seu comentário.
×

Assine Aldeia

Por apenas R$ 9,90* / mês.

Deixe seu telefone, nós ligamos para você.
Venha fazer parte da nossa tribo!