Matérias

José Dirceu

Publicado em 15/03/2017

eitos civis dos EUA, guerra do Vietnã, do Che Guevara. É uma geração muito voltada para a política. A maioria dos direitos sociais foram conquistados naquela época, por aquela geração.

Qual o momento marcante no 30º Congresso da UNE, em que você acabou preso?
Marcante foi a decisão histórica que tomamos de não fugir, de enfrentar a repressão. O local do Congresso estava cercado e mesmo assim as lideranças optaram por resistir. Foi heróico.

E suas lembranças da prisão?
Quando fomos conduzidos para o Dops, passamos por uma espécie de corredor polonês e lá estavam policiais de ambos os lados. Era no tapa e no chute. Não era bem um corredor, e sim uma roda de pancadaria. Eu me lembro daquela covardia que já anunciava como seriam as torturas e os assassinatos políticos.

Vocês acharam que seriam mortos?
Aí surgiu uma cena que a gente nunca mais esquece. Fomos conduzidos para Praia Grande, no forte de Itaipu. O caminhão que nos conduzia não foi para a casa abandonada que nos serviria de prisão. Foi para a praia. E aí começou aquela coisa de que nós seríamos fuzilados ali mesmo. Cresceu a tensão e o medo. Depois a gente descobriu que o motorista tinha se perdido.

Um susto e tanto...
Essa é uma cena que eu me lembro muito, lembro até da praia, do cheiro do mar. De resto lembro da lavagem que a gente comia, os maus tratos, a tortura psicológica...

O seqüestro do embaixador americano acabou por libertar você e um grupo de militantes de esquerda. Neste caso, os fins justificaram os meios?
Não era uma questão de justificar os meios, era uma questão de sobrevivência. Nós estávamos da eminência de sermos assassinados, e o seqüestro era uma medida extrema para evitar tortura e o assassinato. Recomendo que você e seus leitores assistam o documentário “Hercules 56”, que narra o seqüestro e versa sobre a nossa ida para o México. Esse passado de confronto entre a esquerda clandestina e o regime militar foi explorado na campanha presidencial contra sua candidata, a Dilma.

E a oposição acusou vocês de esconderem documentos do passado da candidata... 
A Dilma não participou de nenhuma ação errada. Documento obtido sob tortura não tem valor nenhum. Tem que ser queimado, é lixo. Se apoiar em depoimento obtido sob tortura para dizer o que a pessoa fez ou deixou de fazer é uma infâmia.

A presidente eleita foi presa e torturada. Segundo o livro “Brasil Nunca Mais”, as mulheres presas na ditadura eram submetidas a sevícias sexuais. Você acredita que a Dilma está entre as vítimas destas práticas?
Não posso afirmar nem que sim, nem que não. Mas era quase uma norma entre os torturadores, abusar sexualmente das presas, choques na vagina e no ânus, nos seios, além de humilhá-las, muitas delas grávidas. Há inclusive relatos de mulheres estupradas.

Após a libertação você optou por ficar em Cuba, ao invés de exilar-se em países como França, Bélgica, Alemanha... Por que?

Olha, não fui só eu. A maioria ficou em Cuba, fazendo treinamento militar.

Como era o treinamento?
Era um treinamento básico, aplicado a tropas especiais, tropas navais. Fizemos treinamento físico, de tiro, acampamento, marcha, sobrevivência na selva... Daí você podia fazer uma especialização, treinamento urbano, de clandestinidade, de disfarce. Fiquei lá o ano todo de 1970.

Perdeu a Copa do Mundo...
Não, nós acompanhamos de lá mesmo. Eu era flamenguista, e depois virei corintiano. Na minha infância, na minha cidade, não se torcia para o futebol paulista. Aí quando me mudei para São Paulo virei corintiano.

Você se transformou em um bom atirador com o treinamento em Cuba?
Fui um atirador medíocre. Nunca tive paixão pelas armas. Fui por obrigação e não por desejo, nunca tive paixão pela luta armada. Via isso como um instrumento, um meio de resistir a ditadura.

Então você fez a cirurgia plástica em Cuba para voltar ao Brasil sem ser reconhecido pelos seus algozes...
Foi. Naquela época era mais dolorido que hoje. Imagina fazer uma cirurgia plástica nos anos 1970, mudar o rosto. Mudei o nariz, os olhos e mudei as maçãs do rosto. Depois desfiz tudo em 1979, quando a anistia nos permitiu viver no Brasil.

Quando você olhava no espelho sua cara transformada pelos bisturis, o que pensava?
Pensava que estava bom. Eu ia sobreviver, então estava bom. O objetivo era sobreviver.
Mudou muito. Eu passei a usar óculos deixei o bigode... e voltei.

Narre o momento em que você venceu a fronteira para retornar ao país com a cara modificada...
Qualquer um nesta situação teria medo. Comigo não foi diferente. Não é fácil você entrar clandestino, armado, porque naquele tempo eu tinha que andar armado e municiado. Entrei via Colômbia. Fiz Bogotá/Manaus – Manaus/Recife/São Paulo.

Bom, então chegamos ao Paraná. Em que ano foi?
Foi no meu segundo retorno ao Brasil. Saí de cuba no final de 1974, logo após a cirurgia plástica. Cheguei ao Paraná em abril de 1975.

Por que Cruzeiro do Oeste?
Eu não ia ficar em Cruzeiro. Eu ia para Rondônia ou para algum lugar remoto. Mas a repressão aprofundou-se e eu recebi a orientação de parar exatamente onde eu estava. Então fui abrigado por um companheiro em Umuarama. Depois fui para a vizinha Cruzeiro do Oeste, que me dava muita segurança, próxima da fronteira. Era comum encontrar pessoas de fora lá, então eu não despertaria maiores suspeitas.

Então surgiu em sua vida a Clara, mãe do Zeca...
Isso, conheci a Clara, casei, tive o Zeca. Depois abrimos uma rendaria, uma boutique, uma pequena fábrica de confecção e fui ficando...

Conseguiu juntar alguma grana?
O dinheiro era suficiente para viver. Todo mundo que me conheceu em Cruzeiro sabe que eu sempre tive uma vida muito simples. Nunca tive carro, comprei uma casa lá com dinheiro da confecção.

Recebia o “ouro de Moscou”?
Não, nunca vi esse tal ouro de Moscou... (risos)

Perdoe o caráter pessoal da pergunta, mas seu relacionamento com a Clara foi por amor ou por conveniência política?
Foi por sentimento mesmo. Até hoje temos uma relação muito amistosa, respeitosa. Um autor de novela da Globo escreveu que contaria essa história, de um personagem, eu no caso, que enganou a mulher, que usou a mulher, que traiu. A Clara fez uma carta para ele e repôs a verdade, me defendeu.

Como você a conheceu?
Eu já tinha visto a Clara várias vezes. Eu a via quando ia a pé da minha casa alugada, chegava na rodoviária e depois ia para a pensão do Ovídio, onde eu almoçava e jantava. No caminho eu via a Clara...

Quando conversaram pela primeira vez?
Bem, eu usava lente de contato. No Paraná era um poeirão, secava muito as vistas. Aí a lente de contato caiu e eu comecei a procurar no escuro. Então a Clara veio com o carro, pôs a luz e começamos a conversar. Tanto ela quanto eu já estávamos querendo nos conhecer.

Curioso é que você escondeu até mesmo da sua esposa a verdadeira identidade, já que usava outro nome em Cruzeiro...
Eu não para contei pra ela e nem para ninguém. Depois também não contei que morei em Cruzeiro do Oeste. Só revelei isso em 1986. Eu nunca contei nada, nem depois quando eu voltei em 1980 pra São Paulo. Por que se eu tivesse contado, a segurança da Clara, do Zeca, enfim, estaria em risco. Tínhamos atentados, tínhamos assassinatos. A ditadura podia tudo. Eu só contei essa história mesmo em 1986, quando fui candidato a deputado em São Paulo.

Qual foi a reação da Clara ao saber que você não era o Carlos Henrique Gouveia de Mello e sim o José Dirceu de Oliveira e Silva?
Não vou falar sobre isso. Isso tem que perguntar para ela. Isso é uma situação... (pausa) Não é por ser uma situação pessoal, é uma situação bem extrema. O importante é que somos amigos até hoje, criamos um filho juntos, criamos a neta juntos, eu sou amigo dela, da família dela, visito-a regularmente, me hospedo na casa dela. O importante é que nós temos uma relação afetiva, uma relação forte.

Ao julgar pela sua imersão 24 horas por dia no mundo da política, desprende-se que você foi um pai ausente...
Em partes sim, eu sou pai do Zeca e contribuí, mas quem criou mesmo foi a mãe. Desde moça, a Clara teve uma autonomia financeira, sempre ajudou a família toda, sempre foi uma pessoa excepcional. O Zeca compreende isso. Aliás ele está com o mesmo problema, vive isso na pele com a filha dele, a Camila de 16 anos. A política me afastou, não foi porque eu não queria ficar perto.

Você dava um jeitinho de vir a Cruzeiro...
Eu estava presente com o Zeca em pelo menos quatro momentos especiais no ano. Aniversário dele, Natal, férias na praia em Camboriu e depois na Fórmula 1. Era o auge do Ayrton Senna, então o Zeca vinha a São Paulo ficar comigo. Eu acompanhei o crescimento dele. Depois que ele completou 12, 13 anos, eu passei a levá-lo para São Paulo, viajamos, fomos a Cuba, conheceu lideranças do PT, conheceu o Lula, e começou a conviver comigo politicamente.

O que o seu filho representa para você?

O Zeca foi a coisa mais importante que aconteceu na minha vida... (pausa, olhos marejados)... Por que ele veio em um momento em que eu vivia muito só. Eu fiquei dez anos afastado de minha família. Então o nascimento dele trouxe felicidade. Tanto é forte nossa relação que ele adotou Zeca Dirceu como nome.

Você está emocionado...
Emociona sim, é meu filho... (pausa)

Em 1980, quando vocês fundaram o PT, você imaginava que aquele líder sindical barbudo poderia um dia ser o presidente da República mais popular da história do Brasil?
E fui um dos 111 fundadores do PT. Está lá na ata registrada no TSE. Eu disse ainda nos anos 80 que Lula seria presidente do Brasil. Está gravado isso, foi em um programa de TV. Por quê? Porque a história do Lula já revelava capacidade política, intuição, uma grande capacidade de liderar. O Lula fez a melhor universidade que alguém pode fazer quando viajou pelo Brasil para entender a Nação sob o ponto de vista do povo.

Quando o Collor pôs no ar aquele depoimento, em 1989, acusando o Lula de ter sugerido o aborto da filha, foi o momento mais baixo de uma campanha presidencial no Brasil?
Não. O Serra bateu todos os oponentes do Lula em baixaria. Protagonizou o momento mais baixo, mais condenável da política brasileira. O Serra fez uma política muito suja, muito violenta. Serra explorou a religiosidade das pessoas, explorou o aborto. Ataques a família, calúnias, campanhas de boatos, campanhas na internet. Em jogo sujo ele ganha de qualquer um.

Você era o capitão do time do Lula. Depois virou réu do mensalão. Você fez concessões fisiológicas a base aliada em nome da tal governabilidade?
Nós não fizemos concessões. Não é verdade que nós compramos votos, nem parlamentares, nem que houve mensalão. É um episódio de caixa dois, de financiamento de campanha. Caso de dívidas de campanha. Aliás, nós não tínhamos porque comprar votos, nós éramos maioria. Então porque nós tínhamos que comprar votos? O governo chegou a ter 380 votos na Câmara. E no Senado, naquela época nós também tínhamos a maioria.

Quando Roberto Jefferson disse para você: “Vossa Excelência provoca em mim os instintos mais primitivos...”, o que ele quis dizer? Era uma declaração de amor ou de ódio?
(Dirceu emite uma sonora gargalhada) É uma mistura de inveja com ódio (risos). Eu nunca tive nenhum sentimento em relação a ele. Nunca tive relação nenhuma de amizade, nunca freqüentei a casa dele, nem ele a minha. E ele foi caçado por que não provou o que disse. Eu fui caçado por que chefiei o mensalão. Então tem alguma coisa errada. Não existiu o mensalão, ele não tinha como provar que existia. Era invenção dele.

Por que você não fez como os outros e renunciou ao mandato de deputado ao invés de enfrentar o plenário hostil no seu processo de cassação?
Foi um imperativo de consciência, pois quem estava sendo julgado não era eu, era o PT, o governo do Lula. Eu não fui julgado, na verdade não havia nada além do relatório da comissão de ética. Não havia o que justificasse a cassação. Aliás, eu nem podia ser processado pela Câmara, porque eu não era deputado, eu estava licenciado. Na verdade foi um julgamento político.

Por que o Serra “batia” todo dia em você no horário eleitoral? Desavença pessoal?
Em nenhum momento eu tive nada com o Serra, a não ser a oposição mútua que ele faz aos governos do PT e que eu faço ao do PSDB. Depois da minha cassação, cheguei a jantar com ele na casa do Aluisio Nunes Ferreira, conversamos, discutimos. Então eu acho que essa pergunta deve ser dirigida a ele, até por que ele não ganhou votos me usando no horário eleitoral.

Seu nome e sua imagem foram usados para tirar votos da Dilma. E ela venceu a eleição. Você se sente redimido pelo eleitorado?
Não. Eu quero a minha absolvição na Justiça, no Supremo Tribunal Federal, porque eu sou inocente. Eu quero ser julgado o mais rápido possível. Todas as investigações e inquéritos que fizeram contra mim, repito, todas, ou foram arquivadas ou eu fui absolvido. Tenho absoluta certeza, que ao serei redimido na Justiça.

Qual foi seu papel na campanha da Dilma?
Papel de militante e dirigente do PT. Fiz a campanha dela, como milhares de pessoas fizeram.

Você está sendo modesto...
Eu ajudei o PT e as direções estaduais na organização dos palanques estaduais. Um papel como o de outro dirigente. A única diferença é que sou mais conhecido, tenho 45 anos de vida política, e evidentemente a imprensa dá destaque maior ao meu nome.

O que a revista “Veja” tem contra você?
Tem que perguntar para a “Veja” (risos). Eu não tenho nenhum problema com a revista. Eles tem toda liberdade de criticar, desde que não cometam crime contra a minha honra.

Que conselhos dará ao deputado federal Zeca?
Ele foi eleito prefeito com 76% dos votos e reeleito com quase 80% em Cruzeiro do Oeste. Teve uma votação fantástica para deputado na cidade dele, fez oito em cada dez votos. O Zeca só não saiu eleito da micro-região dele por que o colégio eleitoral lá é pequeno. Eu é que tenho a aprender com ele e pedir conselhos.

Que conselhos dará ao filho Zeca Dirceu?
Que cuide bem de minha neta Camila, esse é meu pedido para ele... (risos).

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Importante: Comentários com conteúdo sensível, impróprio ou que for considerado inadequado – por qualquer motivo, a critério do moderador – serão sumariamente deletados.

Deixe seu comentário.
×

Assine Aldeia

Por apenas R$ 9,90* / mês.

Deixe seu telefone, nós ligamos para você.
Venha fazer parte da nossa tribo!