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O impagável dr. Romero

Publicado em 15/03/2017

* Entrevista publicada na edição 29 de revista Aldeia, em junho de 2010


O impagável dr. Romero


Texto e fotos Jairo Eduardo


Pouca gente tem mais história para contar em Cascavel que esse palmeirense veterano da medicina. Filho de um farmacêutico que virou nome de rua na pequena cidade natal de 4 mil almas, ele começou a clinicar no “velho Oeste” quando ainda era possível caçar pacas e catetos há 200 metros da Policlínica. Ao lado do filho Kiko, doutorando em urologia nos EUA, Romero abriu a maleta dos anos de chumbo nesta entrevista. Discorreu sobre o tempo que ninguém tinha coragem de cobrar as despesas hospitalares dos pistoleiros baleados. Romero fala dos primórdios da medicina oestina, quando era preciso “abrir” o paciente para saber o que tinha. Diverte-se com histórias de gays no consultório e valentões que “afinaram” diante de seu dedo.

Sua infância e juventude foi ambientada em um pequeno município do interior de São Paulo...
De fato. Itaju devia ter 4 mil habitantes e dois bares. Meu pai, o farmacêutico Antonio Salvador Romero era líder da cidade e região. Atendia todos, marcava as dívidas na carteirinha. Com ele aprendi que, em alguns casos, quando pessoa não paga é melhor, por que não volta mais e você só perde um mau pagador (risos).

Seu pai militou no mundo da política...
Ele foi vereador por 16 anos. Então era comum recebermos políticos em casa. Assim conheci o Ademar de Barros, Jânio Quadros e outros.

Você graduou-se na Católica, em Curitiba e depois partiu para a especialização no Rio...
De fato, a fiz no Hospital do Servidor, no Rio de Janeiro. Lá conheci alguns dos grandes artistas e políticos da época, que eram atendidos nas suítes do 11º andar.

E como você veio parar naquele grotão interiorano chamado Cascavel no final da década de 60?
Primeiro percorri o Brasil. Eu já estava casado com a Direma. Ela ginecologista, eu urologista, vimos em Cascavel a oportunidade, já que nenhuma destas especialidades estava presente aqui. Em 1969 Cascavel era uma das cidades que mais crescia no Brasil. “É aqui mesmo”, eu disse.

E você já chegou “agitando”...
Eu tinha participado do movimento estudantil e cheguei disposto a organizar os médicos. Então fundamos a Associação Médica, em agosto de 69. O primeiro presidente foi o Peixoto, eu fui o segundo, depois reeleito.

Como eram estruturados os hospitais da cidade?
Eram muito bem equipados. Tínhamos um colega japonês com um hospital ali na Vila Cancelli. Então, a gente brincava que o hospital dele era muito bom, pois tinha até penico (risos).

Como vocês lidavam com os precários equipamentos disponíveis?
Tínhamos três instrumentos: a avaliação do quadro clínico, raio X precário e cirurgia. Atendi muitas mulheres cujo “exame” foi abrir o abdômen para ver o que tinha. Pelos equipamentos não dava para ver quase nada.

E vocês atendiam uma cidade violenta...
É, de vez em quando a gente encontrava gente morta na rua. Geralmente eram problemas de terra, ou melhor, de pinheiro. O pinheiro valia mais que a terra. Então era comum atender paciente atingido com tiro de calibre 44, tiro de 12 com baletão, armas de alto calibre que faziam lembrar os rifles usados pelo John Wayne no cinema.

Havia o que fazer por esses infelizes que levavam tiro de 44?
A gente até salvava alguns. Não havia tanta infecção porque os germes foram desenvolvendo resistência aos antibióticos com o passar do tempo. Houve o caso de um valentão que levou 18 tiros. Curioso é que os tiros foram disparados pelos cunhados dele. Incrível ele ter sobrevivido, então eu disse: “Seus cunhados devem gostar muito de você!”. Muito calmo, ele disse: “Eles devem é estar apavorados por saberem que não morri”.


Como era o trato com os pistoleiros?
Bom, começava no cadastro do paciente. Quando ia atender um pistoleiro, eu não podia sequer perguntar para ele onde ganhava dinheiro. Era um negócio de risco, já que não havia convênio, nem mesmo as versões anteriores do SUS. Aliás, fazíamos questão de levar “cano” de baleado, já que ninguém tinha coragem de cobrá-los (risos).

Então o senhor extraiu muito chumbo de pistoleiro...
Operei muitos baleados, só recebi o pagamento de dois. A maioria era conta perdida. Lembro que atendíamos no São Lucas, eu o Jadir, o Francisco e o Jabur. Quando desconfiávamos que um baleado ia fugir, a gente até dava cobertura.

Cobertura?
É, veja esse caso. Chegou a enfermeira e disse para eu e o Jadir: “O 106, aquele que levou um tiro de 12 no abdômem vai fugir”. Nos escondemos com a porta entreaberta para ficar espiando. Então, o cara saiu escorado pela esposa, segurando aquela sacolinha plástica e olhando para os lados para ver se alguém estava vendo a fuga. O Jadir espiava e dizia baixinho: “Vai embora, vai”...

Aliás, essa sua enfermeira era quase um guincho...
Sim, a Dona Nilza era uma alemã muito forte. Na época não tínhamos mesas cirúrgicas automatizadas. Então ela “abraçava” homens de 100 quilos, erguia sozinha e colocava na maca.

E se os hospitais deixassem de atender os baleados?
Largavam os baleados na frente do hospital. Tínhamos que atender, do contrário responderíamos por omissão de socorro. Em um caso assim, de pistoleiro internado, a enfermeira chegou pra mim e disse: “O paciente tal tem um revólver embaixo do travesseiro e disse que vai meter bala no médico”.

No médico?
É, meu colega era novo aqui, não conhecia essas figuras, deve ter sido um pouco ríspido com o paciente. Então eu fui negociar. Argumentei o seguinte: “O doutor ajudou a fazer sua cirurgia e o senhor não fez nenhum depósito, não pagou nada. Pense bem. Me dá o revólver”. Após muita fala ele entregou a arma e ainda chorou como um bebê. Aí dei uma dura na mulher dele: “A senhora não tem juízo de trazer um revólver para dentro do hospital?”. Ela disse: “Você não conhece meu marido, se não trago ele me mata”.

E qual era o fim destes valentões?
Neste caso específico, do revólver no travesseiro, tive a curiosidade de perguntar por ele, 30 dias depois da alta. Me disseram o seguinte: ele e mais um pistoleiro armaram uma emboscada e mataram cinco pessoas. Depois fugiu para o Rio Grande do Sul e nunca mais se ouviu falar nele.

Você consultava o lendário Marins Belo...
Esse era um caso à parte. Ele chegava no consultório de chapéu e paletó. Tinha problema na próstata. Então eu pedia licença e tirava o cinturão dele com os dois 38. Colocava os revólveres sobre a minha mesa. Eu fazia os exames imaginando que o homem estava desarmado. Na verdade ainda havia no bolso do paletó um 38 cano curto. Ele nunca ficava completamente desarmado, nem durante a consulta.

Fazer um exame de próstata, na época, era procedimento de risco, mas para o médico...
Houve um que chegou ao meu consultório já com um histórico: o paciente quis matar o médico anterior que fez o toque retal nele. Avisei o bandido que sem o toque não teríamos eficácia. Ele manteve a posição. “Aqui é só saída, não entra nada”, disse.

Estamos em 2010, a tal modernidade acabou com a restrição do paciente ao toque?
Mudou, mas não é o ideal ainda. Muito homem só vem aqui quando a esposa traz pelo braço. Teve o caso de um amigo nosso, muito simpático, inteligente. Só que no momento do toque ele disse: “Desculpa aí doutor, mas agora tenho que pegar meus filhos no Marista”. Então eu disse: deixa disso rapaz, eu conheço sua família e sei que não tem filhos em idade escolar! (risos).

Sua área é pródiga em anedótas...
Não existe especialidade com mais piada que a urologia. Certo dia atendi um cara do Sul aqui e ele foi logo alertando antes do toque: “Tome cuidado doutor!”. Eu disse, não se preocupe, sempre tomo cuidado. Ele repetiu: “Tome cuidado doutor, que me apaixono fácil”...

Verdade que o Paulo Martins é tão obcecado com saúde preventiva que vem toda semana fazer o exame de toque?
O Paulo é um bom paciente (risos). Certo dia um estudante brincou comigo. Disse: doutor quem gosta de dedo é gay. Eu disse: mentira, gay gosta é de pênis!

A propósito, o senhor atende muito gay em seu consultório?
Aqueles assumidos sim. Já os que estão dentro do armário procuram outros centros, onde são desconhecidos. O curioso é que antigamente os pais traziam os filhos gays aqui para “tratá-los”. Pediam assim: “Dá uns conselhos pra ele”. Na época o procedimento era encaminhar para o psiquiatra. A gente achava que havia possibilidade de reversão. Hoje o psicólogo vai atender e dizer para o cara assumir.

Qual é a principal causa da disfunção erétil?
É o estresse. Esses dias chegou um cara de muitos negócios aqui, reclamando da disfunção. Eu o ouvi e depois disse: estresse. Então ele falou que não iria descansar agora pois não podia perder um grande negócio já entabulado, e que lhe iria trazer mais algumas preocupações. Então eu disse: leve o negócio adiante, continue assim e permaneça broxa!

Ainda há relutância em dizer para o médico que o “piu-piu” não funciona?
Ainda tem aquele que começa com queixas vagas, reclama do rim, dorzinha de barriga. Percebo que o cara está dando voltas, mas fico na minha. Na hora que abro a porta para o paciente sair ele diz: “Ia me esquecendo doutor, a potência está meio ruim...”. Então eu digo: entra aí, vamos começar tudo de novo (risos).

Mulher “desajeitada” dá impotência?
Olha, quando nem o Viagra resolve, eu faço questão de conhecer a esposa do paciente. Certa vez apareceu aqui um “maracujá de gaveta”, que só sabia falar mal do marido. Tive de interromper a fala da esposa. Eu disse: “Mas a senhora não tem nada de bom a dizer sobre esse vivente? Só fala mal do homem? Assim não tem jeito, nem dobrando a dose de Viagra!”.

O senhor é muito franco no diagnóstico...
Eu converso muito. Tem que ver como está a química do casal e até mesmo o aspecto físico da mulher. Feito isso chamo o paciente à parte e sou muito franco: se o seu princípio religioso não permite uma experiência por fora, então continue broxa.

Franco mesmo...
Não vamos ficar dando voltinhas aqui. Veja bem, após muitos e muitos anos de casados, a esposa passa a ser uma amiga, confidente, mãe dos filhos, avó dos netos e muitas vezes somente isso e mais nada. Então às vezes a solução clínica para o paciente impotente é o “Plano B”. Não digo para o cara fazer isso, apenas digo que essa alternativa existe.

Em que idade o sujeito deve fazer o exame de próstata?
Aos 40 anos se houver histórico de parente em primeiro grau com câncer de próstata. Do contrário, anualmente, a partir dos 45. E lembre-se: nenhuma tecnologia substitui com eficácia o toque retal!

Para encerrar, conte uma piada para os leitores da Aldeia...
Aquele cascavelense descendente de italianos, já meio “gasto” pelo tempo, chegou para o sacerdote ali no confessionário da Catedral e disse: padre, tenho três relações sexuais por dia. É pecado?
- Não filho, pecado é mentir para o padre!


Quem é ele
Antonio e Direma Romero tem três filhos: Frederico Ramalho Romeiro (o Kiko, médico urologista), Eneida (dentista) e José Eduardo (psicólogo). Bem humorado quando fala da família, Romero resume da seguinte forma o que sente pelos “rebentos”. “Filho da gente quando não é bonito, a gente diz que é simpático”.

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