Matérias

O chão de Manfred

Publicado em 08/08/2015

Em visita ao sítio onde passou parte da infância e da juventude, na comunidade de Boa Esperança, em Missal, Manfred Dasenbrock conta a façanha do menino “chucro” que conquistou o mundo, mas ainda permanece ali, naquele chão...


Texto Rejane Martins Pires
Fotos Bruna Scheidt


É pisando na terra que o acolheu há cinco décadas que Manfred Dasenbrock mostra mais sobre o mistério do simples. Criado no chão, no terreiro, entre pássaros e formigas, ele emana simplicidade sem precisar falar dela. No meio de uma roça recém-colhida de milho e sob os olhares de alguns ipês gigantes, Dasenbrock, um dos principais executivos do cooperativismo de crédito do mundo, não discursa sobre números, índices ou qualquer outro termo complicado. Fala de pessoas, de virtudes, de bondade e de esperança.
Por mais contraditório que soe, o mesmo homem que coordena ações internacionais do Sicredi e do Conselho Mundial das Cooperativas de Crédito (Woccu) é o que se encanta com as coisas simbólicas da terra, e, onde quer que vá, seja em congressos ou reuniões decisivas naÁsia, na Europa, na América Central ou nos Estados Unidos, leva junto o menino que, mesmo se achando pequeno demais, conduzia um pesado arado de bois com a força dos seus sonhos.
E foi cumprindo o ritual de existir, compreendendo-se em cada etapa, que se fez um líder. Com uma diferença. Nunca negou sua origem. Ao contrário, alimenta-se dela todos os dias. Afinal, as primeiras lições de solidariedade e de ajuda mútua vieram dali. É o que ele traduz como descobertas dos sentidos.
Matar um porco e dividir com o vizinho, semear e colher, tomar banho de açude, brincar no cipó, andar no escuro à noite, guiar-se pela lua ou pelo sol e ir a cavalo na escolinha distante ganharam outros significados ao longo dos anos. Porém, nunca perderam-se no tempo e fazem parte de uma longa história que começou na Alemanha, com os seus pais e avós, passou pelo Rio Grande do Sul e chegou no sertão do Paraná.

ESPERANÇA
Quando a família Dasenbrock desembarcou em Missal, vinda de Rolante, no Rio Grande do Sul, Manfred tinha sete anos. O ano era 1964 e as notícias da revolução o atormentavam. Subir num caminhão, deixar tudo para trás e deparar-se com aquela imensa floresta, foi um corte. A urgência dos dias, contudo, ditava o rumo da vida. Filho do ex-soldado e prisioneiro de guerra, Anton, com Elisabeth (que também viveu os horrores da guerra), Manfred determinava-se em cumprir seus afazeres ao lado dos irmãos no pequeno sítio na comunidade de Boa Esperança sem nunca perder de vista outros horizontes.

CHAMADO DIVINO
Curiosamente, se fosse seguir o folclore em torno de quem nasce em dia de domingo, Dasenbrock seria padre. Nascido no dia 10 de março de 1957, um domingo, alimentava em seu imaginário um chamado ao sacerdócio que nunca chegou. “Eu admirava muito um padre que ia pescar com a gente lá no Rio Grande Sul. Ele era muito sábio. Quando chegamos aqui, o pessoal rezava toda hora para as vocações sacerdotais religiosas. Eu pensava: estão rezando pra mim!”, lembra.
E até poderiam estar, mas para outra missão também importante. Depois de um tempo em casa, após o termino do ginásio e longas noites dedicadas à leitura de romances em alemão, o jovem foi para o colégio agrícola em Camboriú (SC). Lá, um outro mundo se descortinou. Formado, voltou para o Oeste do Paraná, iniciou sua caminhada no cooperativismo na Cotrefal (transformada, em 2001, na Cooperativa Agroindustrial Lar), fez faculdade de Administração de Empresas na Unioeste/Foz, casou, teve filhos, plantou árvores...

Qual o segredo para ser um bom semeador?
Em primeiro lugar, ter a convicção e lutar por aquilo que acredita. O líder, se ele quer semear alguma coisa, ele tem de ter a visão da efetividade, tem que ser bom e dar o exemplo ao longo do período, não basta ser bom. Ninguém se inspira em você porque você é uma “beldade” que aparece do nada, tem uma história, uma trajetória.

O mundo está mais cooperativo?
Eu acredito muito que o novo movimento é o cooperativismo. O comunismo acabou. O capitalismo está apanhando e o cooperativismo está se consolidando. Por que? Porque o capital das cooperativas não é especulativo. Aquelas cooperativas que no passado especularam e fugiram da linha, perderam o rumo. As cooperativas existem para atender as necessidades de seus sócios. Elas geram riquezas que alimentam todo o processo produtivo de uma região e, consequentemente, transformam a vida de milhares de pessoas.

Você tem viajado muito. O que tem aprendido?
Tenho aprendido muito sobre a questão da efetividade e da longevidade das empresas. Isso significa cuidar da parte patrimonial, estatutária, regulatória, da formação de valores, enfim, das pessoas. Também aprendi, quando estive na Ucrânia e em outros países do Leste Europeu, que uma guerra não vale a pena, assim como todo pensamento totalitário não vale a pena. São malfeitores que, em função de um capricho, de uma ambição, fazem milhares de vítimas.

Quem te inspira?
Os benfeitores. Um dos grandes exemplos foi João Paulo II. A Polônia inteira ainda é movida por ele. O papa Francisco também é uma inspiração muito grande, pela modéstia, pela forma como atua, pelos desafios. Dentro do próprio cooperativismo de crédito existem muitos líderes inspiradores que vão deixar um legado positivo.

Tem medo de que?
Da falsidade. Às vezes, você aposta e investe numa pessoa e, de repente, se decepciona. Era só uma fotografia (de início colorida e depois passa a ficar desbotada). As pessoas se perdem no meio do caminho. Se perdem pela ambição, pelo imediatismo, pelo poder, pelo dinheiro e pela própria perda de valores.

Que valor considera importante dentro do cooperativismo?
Valores são aquilo que você não abre mão. Você pode abrir, mas depois de muita argumentação, muita conversão, muita transformação. Às vezes, um valor do passado não é um valor do presente, por quê? Porque houve transformação. No cooperativismo, no entanto, existem valores enraizados que não se pode abrir mão, mas tem gente que abre mão, que é o controle democrático.

No livro recém-lançado que comemora os 30 anos do Sicredi, a temática central é confiança. O que é confiança pra você?
É como uma peroba com raízes profundas, tronco grande, bastante robusta e resistente ao vento. Pode até quebrar uns galhos, mas é algo que se construiu ao longo de muito tempo. Você não tem ela de uma hora para outra.

Quem é ele?
Manfred Dasenbrock é presidente da Sicredi Participações (holding do Sicredi) e da Central PR/SP/RJ. Também é tesoureiro do Conselho Mundial das Cooperativas de Crédito (Woccu), além depresidente do Fundo Garantidor das Cooperativas de Crédito (FGCoop) e vice-presidente da Organização das Cooperativas do Estado do Paraná (Ocepar). Casado com Reni Arenhart é pai de Alexandre e Angela.

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no infinito horizonte
de sonhos enluarados
o menino vira pássaro
e voa sua liberdade
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