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Edição 121
Indústria Têxtil

A mandala roxa

Não é por acaso que Terra Roxa conquistou, em dezembro do ano passado, o título de Capital Nacional da Moda Bebê. Das 45 indústrias existentes, 32 fazem parte do Arranjo Produtivo Local (APL), gerando 3.500 empregos diretos e indiretos

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Bruna Scheidt
As mesmas mãos que colhiam o algodão tecem novos horizontes

Primeiro, foi o café que colocou o município de Terra Roxa no mapa econômico do Paraná. Depois o algodão. Com a mecanização, veio o milho, a soja e o êxodo rural. Dos 38 mil habitantes da década de 1980 restaram pouco mais de 17 mil. Já faz algum tempo que as mãos grossas do trabalho pesado no campo migraram para outro setor: a indústria da confecção infantil, responsável por 35% da economia do município.

 
Tereza Topolniak: pé na tradição para concorrer com o mercado chinês
Não é por acaso que Terra Roxa conquistou, em dezembro do ano passado, o título de Capital Nacional da Moda Bebê. Das 45 indústrias existentes, 32 fazem parte do Arranjo Produtivo Local (APL), gerando 3.500 empregos diretos e indiretos, constituindo-se numa espécie de “mandala” da economia regional. Num raio de 150 quilômetros, 13 municípios estão envolvidos diretamente na produção. São as chamadas facções que contribuem para a manufatura mensal de 500 mil peças.

O resultado de todo este arranjo pode ser traduzido de várias formas. Com um PIB de R$ 593 milhões, segundo dados do Ipardes, ocupa a 14° posição no Oeste e a 85° do Paraná. Também integra o seleto grupo dos municípios com IDHM considerado “alto”, 0,764. A média no Paraná é de 0,749. “Estes índices positivos estão diretamente relacionados à trajetória ascendente da indústria local e ao dinamismo do APL”, explica a presidente da entidade, Tereza Topolniak.
 

IDENTIDADE PRÓPRIA


Além de evoluir a passos largos no rumo da tecnologia, os terra-roxenses tem uma estratégia para resistir à invasão chinesa: explorar a identidade local. Isso implica em qualidade, design diferenciado e um pé na tradição artesanal para construir "ativos intangíveis”. 

Nas palavras de Tereza, o desafio atual está em harmonizar essa caminhada também com o poder público, que não acompanhou o desenvolvimento dos empresários. “Ao longo de nossa história, vimos que não há atalho para crescer, mas o associativismo tem mostrado o caminho. Porém, o nosso futuro depende deste apoio mais efetivo do setor público”, diz.

Ela se refere a uma velha reivindicação: a construção de um centro de eventos para abrigar as feiras do comércio e outras ações das entidades, bem como a Feira Moda Bebê, organizada duas vezes no ano, período em que a cidade recebe gente de 300 municípios do Brasil, Paraguai e Argentina. “A cada edição, em dois dias de evento, contabilizamos mais de 6 mil habitantes circulantes”, conclui.


PARAÍSO, O EMBRIÃO 


 
Celma de Assis, da Paraíso Moda Bebê
Impossível falar da indústria têxtil de Terra Roxa sem citar a Paraíso Moda Bebê. E tudo começou pelas mãos de Celma de Assis. Aos 17 anos, ela recortou alguns lençóis e fez todo o enxoval do primeiro filho. 

Aos 19, grávida do segundo filho, apostou no talento recém-descoberto de bordadeira para fazer panos de prato. Vendia de porta em porta. Após o pedido de uma cliente para bordar fraldas, direcionou a produção para os “cheirinhos”. Quando viu, já estava fazendo babadores, calcinhas, casaquinhos, fraldas, coeiros e mantas. 

Sem entender nada de marketing, montou uma estratégia para encantar suas clientes. Transformou um dos quartos da casa num show room impecavelmente decorado. Usou um blecaute para escurecer o ambiente, instalou um interruptor para o lado de fora, e, quando a “mãezinha” abria a porta, de forma mágica uma luz se acendia. A exclamação era sempre a mesma: “Hummm, parece que estou no paraíso!”.

Pronto. O nome da empresa ela já disse. Mas faltava um empurrãozinho que veio com a chegada do terceiro filho, em 1991. 

Numa condição melhor, foi a São Paulo comprar o enxoval do bebê e levou um mostruário com suas peças. Na capital paulista se frustrou. Não encontrou nada do que imaginava e resolveu mostrar seu trabalho para a gerente da loja. O encantamento foi tanto que ficou com seus produtos em consignação. Poucos dias depois mais um pedido e uma exigência: era preciso fazer o CGC (atual CNPJ) da empresa. Nascia assim a Paraíso.

Mas a história não termina aqui. Com a chegada do quarto filho, Eugênio Rossato, à época casado com Celma, assumiu a administração e o negócio disparou. A marca tornou-se a queridinha das vitrines paulistas. Quase três décadas depois, continua uma potência. Mercado não falta. A cada 20 segundos, de acordo com estimativa do IBGE, um bebê nasce no Brasil.

Foi apostando neste mercado que a Paraíso chegou ao patamar de hoje, com dois parques industriais, somando 16,5 mil m² de planta, e uma produção de 350 mil peças/mês, direcionada para o mercado interno e externo. Só uma curiosidade: as mulheres continuam sendo maioria. Entre os 422 funcionários diretos, 66,21% são mulheres. 


SUCESSÃO FAMILIAR

 
Valéria e Rodrigo: moda bebê no sangue
Outra característica bem peculiar de Terra Roxa é a entrada da geração “x” e dos Baby Boomers nos negócios. Celma, por exemplo, já repassou o bastão para os quatro filhos. 

Esta mesma tendência se aplica entre os funcionários. Os pais vão trazendo as novas gerações para dentro da fábrica. É o caso de Valéria Bortolato, de 43 anos. Ela estava grávida de Rodrigo, 21 anos, quando fazia facção (costura terceirizada) em casa para atender a Paraíso. Mais tarde, foi contratada e atualmente trabalha no setor de criação. Seguindo os passos da mãe, aos 17 anos Rodrigo candidatou-se para uma vaga na expedição. Seu desempenho era tão ruim (40% abaixo dos outros funcionários) que não vislumbrava futuro algum na fábrica. 

Engano. Para os olhos de Celma, havia sim. Com uma capacidade incrível de sondar e reter talentos, transferiu o jovem para o show room. Seu dinamismo o capacitou a concorrer a uma vaga no marketing.  “Foi o meu primeiro trabalho sentado”, brinca. “Uma grande conquista que valorizo todos os dias. Também não desperdiço nenhuma chance de aprender mais”, conclui.
 
 

FILHOS DA PARAÍSO


 
Reinaldo, da Katita Kids: o ex-funcionário que virou industriário e fabrica 6 mil peças ao mês
Das 45 indústrias de Terra Roxa e dos mais de 200 CNAEs 13 (área têxtil), poucos não carregam o DNA da Paraíso. Reinaldo José Mathias, 30 anos, é um destes ex-funcionários que montou a própria empresa. Ele até cogitou seguir outro rumo, formou-se em Direito, mas a vocação familiar falou mais alto. Juntou seu aprendizado com a habilidade de costureira da mãe, dona Kátia, e fundou, na sala de casa, a Katita Kids

Das 500 peças/mês feitas sob encomenda, a indústria de Reinaldo produz hoje 6 mil peças/mês, distribuídas para cinco estados. Ao todo, são 50 funcionários diretos e indiretos. “Boas ideias todo mundo tem, o segredo é colocá-las em prática”, diz.

E foi enxergando o que ninguém viu que ele cresceu. Focou numa tendência que não sai de moda: modinha jeans para a criançada. “Crescemos observando o mercado e estar num ambiente empreendedor faz toda a diferença”, diz, referindo-se ao espelho da empresa-mãe (a Paraíso) e a toda a rede de apoio, incluindo o APL e a Associação Comercial (Aciatra).
 

QUANDO A INDÚSTRIA ALIMENTA O COMÉRCIO


 
Se um emprego gerado pela indústria contribui para impulsionar o desenvolvimento, imagine milhares. Quando o casal Ieda e Vanderlei dos Santos resolveu abrir uma pizzaria, bem no coração da cidade, apostou nesta mudança de consumo provocada pela melhoria de renda. Tiro certeiro.

Mais de 70% dos pedidos do dellivery da Fratelli Nereu Pizzaria são de empregados do comércio e da indústria. Nos dias de maior movimento, 160 pizzas saem do forno da Fratelli para impulsionar outra cadeia produtiva local. Da farinha de trigo aos motoboys, pizzaiolos e garçons, as redondas tem um impacto positivo na economia local. 

Parece pouco. Não para os sonhos do casal que, estrategicamente, foi juntando as economias para empreender. Primeiro, começaram com dellivery em casa, conciliando com seus empregos. Ele, padeiro desde os 14 anos. Ela, funcionária de uma indústria. “Só depois de cinco anos tivemos a certeza que o negócio estava dando certo, e decidimos nos dedicar integralmente”.

No primeiro ano, quase desistiram de tudo. O mais curioso: por excesso de movimento. “Era tanta gente e fila que ficamos com medo. Não tínhamos mais tempo para dormir, para conversar, não tinha mão-de-obra, faltava entregador, enfim, uma loucura”.

O equilíbrio veio aos poucos, sobretudo pela junção dos talentos “homem x mulher”, pela vivência, pela busca do conhecimento e, mais do que tudo, pela vontade de acertar. “Eu amo o que faço”, conclui Nereu.
 
 
Vanderlei e Ieda apostaram na renda gerada pela indústria para montar a Fratelli Pizzaria: “Um setor alimenta o outro”

 
O laço que faltava
 
A falta de opções de acessórios para o cabelo da filha, Maria Vitória, fez de Luciane Vinciguera Nougueira uma empreendedora. Trabalhando em casa, ela montou a Lu Acessórios, hoje com uma produção de 3 mil laços e tiaras por mês. Quando começou, em 2015, não passava de cem. “Entrei para o APL e comecei a participar das feiras e fornecer para lojistas daqui e até de outros estados, mas a ideia é buscar novos mercados”, diz.

Luciana resume esta estratégia. Estar de olho nas tendências, principalmente de cores e modelagens, não desviar o foco e agregar valor com matéria-prima importada. “Comecei vendendo cada laço a R$ 5,00. Hoje, o preço médio é R$ 15,00”.

A segmentação e a criação destes novos nichos de mercado, segundo a executiva do APL, Adriana Pegoraro, é o reflexo positivo do nível de maturidade tanto do APL quanto da indústria local. 
 
Luciana Vinciguera: planejamento para crescer alinhada à vocação da cidade



O impacto associativista
 
 
Suely Bachiega, presidente da Associação Comercial (Aciatra): visão associativista redimensionou Terra Roxa
Suely Bachiega, presidente da Associação Comercial (Aciatra), é de uma geração que aprendeu a “unir forças pela necessidade”. “Dos meus 25 anos como empresária, mais de 24 são dentro da Aciatra”, conta.

A visão associativista, segundo ela, é que redimensionou Terra Roxa. “Com objetivos comuns, comércio e indústria, garantiram a sustentabilidade econômica do município, cujo perfil mudou muito nos últimos anos”, afirma Suely, referindo-se principalmente ao capital intelectual. 

Se no passado a mão-de-obra era braçal e sem nenhuma qualificação, hoje 2,5% dos habitantes cursam o ensino superior. “Com renda própria, os jovens estão buscando formação fora para depois investir aqui ou até mesmo galgar postos maiores dentro das empresas”. 

A própria Universidade Federal do Paraná (UFPR) já enxergou este entusiasmo e está implantando um polo de Educação a Distância (EaD) na cidade. 
 
Equidade de gênero

A contribuição feminina para a criação do polo têxtil em Terra Roxa é indiscutível. Tudo começou pelas mãos de uma mulher que, tecendo dias e noites, inspirou outras tantas. Porém, basta dar um giro na cidade e atentar-se para algo muito peculiar: a sabedoria de equilibrar as habilidades distintas de cada sexo. “É um fenômeno muito interessante. Os negócios de família que prosperaram trazem este ingrediente de contribuição mútua e não de competição”, explica Suely.
 


CIDADES DIRETAMENTE IMPACTADAS PELA INDÚSTRIA DE TERRA ROXA
 
  • Terra Roxa
  • Iporã
  • Assis
  • Francisco Alves
  • Guaíra
  • Nova Santa Rosa
  • Marechal Rondon
  • Palotina
  • Mercedes
  • Cascavel
  • Eldorado
  • Iguatemi
  • Mundo Novo
  • Naviraí
 
RAIO X 
Terra Roxa


População
17.573 habitantes

PIB (2015)
R$ 593 milhões

Propriedades rurais
2.593

Empresas de comércio e serviços
2.315

Indústrias têxteis
45

Empregados na indústria
3.500 pessoas 

Pessoas que recebem Bolsa Família
330 famílias

Estudantes universitários
325 associados à Associação dos Universitários de Terra Roxa (AUTER).  Considerando os estudantes que utilizam carro próprio e/ou residem nas cidades em que estudam, passa de 500.

Estudantes do Ensino Médio
597

Estudantes do Ensino Fundamental
1.219

Coleta de lixo
90%

 

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