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Joni Varisco

Publicado em 03/03/2017

Texto e fotos: Jairo Eduardo
O ex-deputado Joni Varisco é daquelas figuras que cativam pela simplicidade e jeito bonachão. É daqueles capazes de rir das próprias trapalhadas. Noivou quatro vezes antes de se casar com Dulce, com quem tem três filhos: Rodrigo, Felipe e Joni Paulo. E foi esse jeitão interiorano que ele levou ao Congresso Nacional, onde entrou para o folclore do Legislativo por duas ou três ocasiões aqui relatadas por ele próprio sem constrangimentos.
Varisco já esteve entre os maiores produtores de grãos do Brasil quando arrendou mais de 11 mil alqueires no nortão do país. Perdeu dinheiro (milhões) ao se aventurar em um ramo que não conhecia (Jornal “A Cidade”, adquirido da família Sefrin) e ganhou em Brasília o apelido de “Paraná”. Como a elite curitibana, que frequentou a contragosto no Governo Lerner, o tinha como um “bicho perigoso”, não há título mais propício para a entrevista que a junção de Brasília e Curitiba: “Bicho do Paraná”. Acompanhe.

 

Como foi sua infância em Cascavel?
Foi dentro de um seminário. Fiquei dos sete aos 13 anos no colégio interno, no Distrito de Penha em Corbélia, depois em Toledo e Ponta Grossa.

Vocação sacerdotal?
Creio que sim, fiquei muito tempo lá, rezei bastante, quase oito anos.

Qual sua lembrança destes tempos?
A gente estudava, rezava e trabalhava, abríamos a fazenda do colégio na Penha, destocamos tudo com enxadinha. Pela legislação de hoje, seria considerado trabalho escravo e exploração infantil.

Qual a origem social de sua família?
Meu avô, Florêncio Galafassi chegou aqui no final dos anos 40. Meu pai e mãe vieram juntos. A família veio da serra gaúcha, região de Canela, Gramado. Eram madeireiros que chegaram para tocar o projeto da Industrial Madeireira do Paraná. Meu avô tinha uma participação destacada, montou as primeiras serrarias, transportadora de madeira.

Seu pai tinha posses?
O avô sim, o pai não. Isso não é nenhum demérito, mas era uma vida modesta, tanto assim que saí do colégio interno aos 15 anos e fui trabalhar. Vendi títulos do Clube Comercial de casa em casa e depois lotes no Jardim Universitário. Eu ia de ônibus trabalhar e voltava com um monte de lotes vendidos.

Cascavel era outra coisa...
Tinha fama de lugar de bandido e o custo de vida era muito alto, porém a cidade era muito mais afetiva, conhecia-se todo mundo, hoje não se conhece ninguém.

Não foi vendendo titulo do comercial e lote na periferia que você construiu seu patrimônio...
Não foi mesmo. Foi com adubo. Fui, por dez anos, um dos maiores vendedores de adubo do Paraná. Trabalhei em quatro empresas diferentes, entre elas a Trevo, que era a maior da América Latina e sempre fui um campeão de vendas. Tudo que tenho ganhei com o adubo, foi uma grande experiência com resultado financeiro.

Como conheceu a Dulce, sua esposa?
Conheci a Dulce quando tínhamos 17 para 18 anos. Foi o primeiro casamento de dois noivos nascidos em Cascavel, pelo menos foi o que nos informaram no cartório. Nos conhecemos na portaria do Clube Comercial, e nos casamos três anos depois. A Dulce é filha Adolfo Cortese, um dos fundadores da Coopavel, madeireiro e grande agropecuarista no Mato Grosso.

Você é um recordista, quatro noivados...
É, quando conheci a Dulce eu estava noivo. Eu tinha uma mania terrível de ficar noivo. Com 18 anos eu já tinha três noivas: uma em Ponta Grossa, uma em Caxias e outra em Farroupilha. E o jeito de freqüentar a casa da moça na época era ser noivo, era a condição para filar um almoço do sogro (risos).

E o segredo da longevidade no matrimônio?
São 34 anos de respeito, tolerância. Foi uma operação de sacrifício, principalmente para ela que praticamente criou os meninos sozinha, pois eu vinha para casa uma vez por semana só.

Como você foi parar na política?
Foi 1988, na eleição para prefeito entre o Jacy Scanagatta e o Salazar. O Álvaro era governador e fez uma afronta: dizia que o Jacy não tinha adversário, que o Salazar, indicado por nós do PMDB não existia e que não viria para campanha. Mário Pereira era deputado do PMDB, ficou perdido, sozinho. Decidi pegar na campanha com um grupo de amigos.

Foi a famosa campanha do cinco antes, dez depois, o tal balaio?
Falou-se em muito nisso, mas é folclore. Se aconteceu isso eu não vi. Eu estava lá o tempo todo, na coordenação de campanha. Se aconteceu alguma coisa eu participei, pois estava lá o tempo todo.

Por que então toda a repercussão da época?
O Salazar era desconhecido. Ele tinha trabalhado na cooperativa, mas era desconhecido nos bairros de Cascavel. O Jacy era figura consagrada, deputado, tinha sido prefeito. Acho que o Jacy perdeu exatamente por achar que era impossível perder. Acabamos ganhando na última urna.

Falou-se também na prosaica cédula de papel, vulnerável a fraude...
O juiz que sempre comandou aqui foi o Paulo Hapner, hoje desembargador. Sempre foi muito duro comigo, me deteve quatro ou cinco vezes. Eu fiquei detido no fórum um dia inteiro. Tenho respeito por ele, lisura implacável. Duvido que o Paulão tenha permitido isso.

Ali você começou gostar da política...
Ao contrário, ali que comecei a desgostar da política. Só que o Mário Pereira era candidato a deputado federal, eu tive a infelicidade de nesta época ter conhecido o ex-prefeito de Curitiba, Roberto Requião, que queria ser candidato a governador. Mário tinha eleição certa para deputado federal, chegou na hora virou candidato a vice-governador do Requião. Ficou a vaga para deputado aberta. O Paulo Gorski não quis, puseram meu nome lá.

Foi fácil?
Veja, eu era totalmente desconhecido em Cascavel e fora daqui. Fizeram pesquisa, e já que nasci aqui, alguém deveria me conhecer. Aí o fato curioso: só meio por cento tinha ouvido falar de meu nome, e ainda assim alguns deles não sabiam dizer se eu morava aqui ou não. Em resumo, ninguém me conhecia.

E como foi a campanha?
Um desastre total, eu nunca tinha falado em público. Meu primeiro discurso, no Sudoeste, foi horrível. Me passaram a palavra eu não conseguia caminhar até o palco, travei. Acabei pedindo voto para outro candidato a federal, o Sebastião. Eu tinha vergonha de falar em público e outras pessoas falavam por mim. Porém, abertas as urnas... É, eu fui o último que entrou no PMDB. Ninguém me conhecia em Curitiba.

Disseram que você comprou o mandato no TRE...
Cabe uma explicação aqui. Estávamos acompanhando apuração no TRE em Curitiba, e eu, gozador sempre, ouvi o radialista que estava transmitindo ao vivo dizer: “Surgiu um nome desconhecido na lista dos eleitos, parece ser um tal Jonas Evaristo”. Bom, ninguém sabia que era eu, então eu disse para um grupo ali na apuração: “Esse tal de Jonas Evaristo é o maior vigarista do Oeste do Paraná, ele compra juiz igual compra banana na feira”.

Falou mesmo?
Falei, na gozação, claro, mas falei. Só eu não sabia que estava falando com dois irmãos do Felinto, que também disputava a Câmara Federal, e a essas alturas estava ficando na minha suplência. Eles comunicaram ao Felinto e ingressaram com uma ação para anular minha votação dizendo que eu tinha comprado o mandato. Pediram para recontar os votos, mas o tribunal não acatou. E como esse Felinto nunca tinha visto o tal Jonas Evaristo na campanha, ele acabou acreditando nisso.

Procede que você cunhou no Congresso a seguinte frase: “Justo agora que consegui me eleger vão querer moralizar essa espelunca?”
Devo ter dito mesmo. Eu sempre brinquei muito. Quando discutiam a composição das comissões permanentes da Câmara, eu pedi um aparte e disse: comissão de 3, 5 ou 10%? Mas era tudo palhaçada, aquele clima era tão pesado em Brasília, que tinha que encontrar uma hora para dar risada.

E você foi o único congressista que não pagou o auxílio funeral do Ullisses Guimarães...
Era uma tradição na casa. Se morresse um, era descontado do salário de cada deputado determinada quantia para ajudar no funeral do falecido. Eu não deixei descontar mesmo. (Nota da redação: Ulisses Guimarães era presidente da Câmara quando o helicóptero que o conduzia caiu no Oceano Atlântico e os corpos jamais foram encontrados)

Por quê?
Eu tinha uma divergência com o doutor Ulisses. Então eu me prendi ao regimento interno. Lá dizia que assim que o corpo for sepultado, desconta-se tal valor de cada deputado para ajudar nos custos. Eu disse na tribuna: não aceito descontar, pois o oceano é pequeno para vencer um cara da dimensão do Ulisses. Não está provada a morte dele, deve estar descansando em alguma ilha.

E não descontaram?
Foi a única vez na história da Câmara que um deputado ficou sem pagar o auxílio funeral.

E o impeachment do Collor?
Inicialmente o processo era contra o PC Farias, tesoureiro de campanha do Collor. Eu conversei muitas vezes com o Collor informalmente. E dizia para ele que estava pegando mal, só se falava em PC em Brasília, dizia-se que o PC iria resolver, iria governar. Collor, vaidoso, petulante, achava isso bobagem.

Verdade que você orientou o Collor a declarar guerra com o Paraguai para desviar o assunto do impeachment?
O Collor me perguntou se tinha alguma chance de adiar a votação do impeachment. Eu disse que só uma guerra poderia adiar por algum tempo. Falei para ele: você mete fogo no Paraguai, e faz de conta que foram os paraguaios que começaram a briga, eles vão revidar, e você ganha uns dias a mais. Mas será uma guerra curta, depois acaba a confusão e nós vamos votar o impeachment. Em outras palavras, eu disse prá ele que nem uma guerra poderia evitar a cassação.

Foi uma legislatura agitada...
Em nosso mandato cassamos o presidente da República, os anões do orçamento e depois o presidente da Câmara, Ibsen Pinheiro. Chegou um dia que o Ibsen encheu o saco demais e cassamos ele também.

E hoje estamos às voltas com o mesmo problema da ladroagem...
Uma vez era o PC o assaltante, hoje em qualquer rincão do país você encontra ladrões do dinheiro público. Julgo que o grande problema do Brasil hoje é a corrupção. É o maior imposto que todos pagamos, principalmente os mais pobres. Não vejo como erradicar a miséria sem antes enfrentar a corrupção.

Ofereceram uma grana para você também?
Eu tinha fama de honesto, que vinha desde meu tempo de vendedor de adubo. Um dia cheguei no Country, aqui em Cascavel, e disse: essa conversa que estão dizendo aí que sou sério, vocês ignorem, não é bem verdade. Não é possível que nem um vereador me propõe nenhum negócio, criaram essa faminha de sério e aí não me aparece nem uma propostinha diferente (risos).

E sua briga com o Requião?

Não gosto de comentar, fui até condenado. Hoje não quero nem falar sobre isso, pois ele me processa por calúnia. Ele critica o Judiciário, mas é muito forte lá. Eu sou a testemunha do que vi ele fazer errado e virei bandido da história. Não posso falar nada disso. Sou a testemunha que se abrir a boca estará preso ou condenado a indenizar. Sou a testemunha que está proibida de falar.

Depois você foi para o Governo Lerner, como secretário de Estado. Que avaliação faz?
O segundo mandato dele é indefensável. Faltou autoridade para o Lerner. Ele tinha que ter rompido com essa catrefa de Curitiba. Ele é o cara mais odiado do Paraná, e não merece isso. Mas como não há nada tão ruim que não possa piorar, o Requião veio e fez pior.

Você era o bicho do mato no secretariado curitiboca do Lerner?
Eu era visto como uma coisa totalmente anormal. Curitiba é assim, cidade hipócrita. Nos setores elitizados do governo Lerner, eu era visto como um bicho do mato perigoso. Incluo o Beto em minhas orações para que ele não se deixa dominar pelos curitibocas: a nata de Curitiba odeia o interior do Paraná, tem asco pelo paranaense do interior.

Quem foram os melhores prefeitos de Cascavel?
Helberto Edwino Schwarz, meu tio, e o Fidelcino Tolentino no seu primeiro mandato. O Fidel fez o saneamento básico, que impulsionou a construção civil, permitiu a verticalização da cidade, incrível ele ter a coragem de enterrar as obras, que não tem inauguração política, obra que não se vê. Ali ele começou uma nova história para Cascavel.

Como foi sua experiência como dono de jornal?
Foi ótimo para saber o que jamais se deve fazer. Eu não era do ramo, não tinha visão nenhuma, fui levado por um amigo, porém não era minha atividade. Experiência negativa na minha vida, que me custou muitos anos de serviço, tirando dinheiro de outras atividades para suprir o que perdi neste negócio. Ficou muitas coisas para trás quando fechamos o jornal, estou pagando conta desde 2003. Eu estimava pagar todas as contas em dez anos, talvez eu consiga pagar em oito.

E a recente cirurgia bariátrica?
Decisão difícil. Adiei o que pude. Tinha medo de não conseguir ficar sem comer e causar um acidente fatal. Só criei coragem quando apareceu a diabetes. Fiz com o japonês, o Tomaz. Em 70 dias perdi 30 quilos. Estou quase normal, de sete remédios que tomava não tomo mais nenhum. Saí de 140 para 109 quilos. Perco 100 a 150 grama por dia. Aconselho todos os gordos a seguirem o mesmo caminho.

E os planos para o futuro, “bicho do Paraná”?
Ver os filhos ter sucesso, os netos crescer, e quero fazer na fazenda do Rio da Paz, um hotel para idosos e aposentados. Coisa de altíssimo nível, com terapia ocupacional. E vou guardar um lugarzinho lá para mim. Depois de velho por mais dinheiro que o cara tenha, ninguém dá mais bola para gente. Então temos que juntar os velhos e discutir como vamos continuar o baile...
Frases

“Quando conheci a Dulce eu estava noivo. Eu tinha uma mania terrível de ficar noivo. Com 18 anos eu já tinha três noivas: uma em Ponta Grossa, uma em Caxias e outra em Farroupilha”

“Eu nunca tinha falado em público. Meu primeiro discurso, no Sudoeste, foi horrível. Me passaram a palavra eu não conseguia caminhar até o palco, travei...’

“Ficou muitas coisas para trás quando fechamos o jornal, estou pagando conta desde 2003. Eu estimava pagar todas as contas em dez anos, talvez eu consiga pagar em oito”




 

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