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Edição 122
Educação

Por mais “sóis” em sala de aula

Entrevista com Solange Reis

Texto Rejane Martins Pires
Foto(s) Fábio Conterno

Ela é autoridade no assunto. Formada em Pedagogia pela Unioeste, mestre pela UEM e doutora em Educação pela Universidade Federal de São Carlos (UFScar), Solange Reis analisa, na entrevista a seguir, o papel do professor e sua complexidade na atualidade. Com quase três décadas de docência, incluindo os anos na pré-escola e alfabetização, ela defende a ideia do encantamento em sala de aula. E não é só discurso não. Solange é daquelas professoras que permite aos seus alunos “serem” humanos. De verdade. Ela ensina. Cobra. Exige. Mas também abraça e orienta. Determinada, justa e acolhedora, esta é Sol (Solange), a professora que equilibra acidez e doçura e faz soar melodias esquecidas em sala de aula. Aprenda com ela!
 

O professor brasileiro está doente?

O cenário no qual o professor está vivendo está doente, a sociedade atualmente não tem contribuído muito para a saúde das pessoas. No ambiente escolar reverberam os problemas sociais; portanto, a escola, por não ser uma ilha, não ser um espaço a parte da sociedade, acaba reproduzindo a tensão/pressão social expressa pela competitividade, pela busca por dada competência profissional. Concomitantemente,  estamos sendo influenciados por um “tempo líquido”, como diria Zygmunt Bauman: “vivemos numa sociedade que nos faz inquietos e prontos para correr”. O problema é que na maioria das vezes não sabemos para onde correr. Como resultado desse contexto, de fato, o professor brasileiro tem ficado doente. 
 

Quais as principais causas deste mal estar?

Há pesquisas específicas sobre esse fenômeno, as quais têm identificado um conceito chave: o mal estar docente. Esse mal estar tem sido produzido por inúmeras questões externas ao professor, desde excesso de trabalho, pouco reconhecimento social pela profissão, baixos salários, falta de ambiente apropriado para efetivar o processo ensino-aprendizagem, indisciplina em sala. Isso tudo somado a uma formação profissional deficitária/frágil, que acaba por produzir problemas pessoais e de saúde ao professor, como ansiedade, sofrimento psíquico, depressão, desencantamento com o magistério. 
 

O exemplo mais notório do adoecimento do professor é a síndrome de Burnout, certo?

Sim, trata-se de um problema identificado recentemente, que é desencadeado por uma série de situações que promovem o estresse e o esgotamento psíquico. António Sampaio da Nóvoa oferece algumas pistas para discutirmos o mal estar docente; ele indica que o professor tem sido criticado por não conseguir garantir na escola aquilo que a sociedade não consegue fora dela, essa ideia ajuda na reflexão do adoecimento do professor. O professor que adoece é aquele que se importa, que não está indiferente, mas que sozinho não está conseguindo lidar com tanta pressão. Penso que precisamos coletivamente construirmos estratégias para atuarmos profissionalmente e fazermos a diferença sem no entanto adoecermos. 
 

Professores doentes formam alunos doentes?

Penso que sim. Contudo minhas convicções teóricas, as teorias nas quais respaldo minha ação docente, levam-me a entender que o aluno não é uma folha em branco; ao contrário, possui uma história, possui opiniões próprias. Portanto, nem sempre o que se experiencia será absorvido/assimilado de forma absoluta. Mas, por outro lado, sei também que o professor tem um papel central na condução do processo de aprendizagem e, portanto, a depender da forma como dirigi/guia/orienta o processo didático-pedagógico, poderá gerar situações desencadeadoras de ansiedade, mal estar, insegurança e estresse por parte dos alunos. Isso tudo, somado a outros elementos, pode gerar uma autoestima baixa ou depressão. 
 


Ser professor é mais que ensinar...

Precisamos entender que a ação docente não se limita apenas a socializar o conhecimento sistematizado, lidamos com humanos; portanto, consciente ou inconscientemente, podemos influenciar ou despertar no outros sentimentos, expectativas positivas ou não. Tenho dito em diferentes espaços na universidade: “A partir do momento que minha doença, meu mal-estar/incômodo estiver causando doença no outro, no caso meus alunos, que me afastem da minha função!”
 

Pede-se demais aos professores?

Cada dia novas exigências emergem, criadas pelo mundo do trabalho, que nem sempre deveriam ser tomadas como determinantes para o trabalho do professor. Na dita “sociedade do conhecimento” não há clara distinção do que é essencial e secundário ao trabalho docente. Precisamos reafirmar o papel do professor como sujeito que viabilizará o acesso do aluno/estudante ao conhecimento sistematizado, como bem esclarece Dermeval Saviani, aquele conhecimento capaz de compreender o mundo nas suas múltiplas relações. Mas há tantas demandas impostas ao processo de formação escolar que estamos perdendo o que de fato é nosso papel.
 

Hoje, quais os maiores fatores motivadores de estresse?

Falarei por mim, um motivador de estresse é o fato de não conseguir realizar o objeto do meu trabalho da forma como o planejado, ou o recomendado, muitas vezes por fatores que estão fora do meu alcance, como falta de recursos internos à instituição, dificuldade dos alunos, sejam elas financeiras ou emocionais. 
 

Qual é a sua prioridade em sala de aula?

Socializar os conhecimentos que adquiri ao longo da minha jornada; além disso, socializar as experiências profissionais que poderão fortalecer a inserção dos meus alunos, futuros profissionais no mundo do trabalho. Uma frase do professor Mário Sérgio Cortella define bem minha prioridade enquanto professora: “O conhecimento serve para encantar as pessoas e não para humilhá-las”. Se a função do professor é socializar com as novas gerações de profissionais os conhecimentos, precisamos pensar formas de encantamento e superar as velhas formas de humilhação como estimuladores de aprendizagem. 
 

E o que mais lhe angustia?

Não deixar um futuro melhor para meus alunos, filhos, netos...
 

Em uma sociedade da informação, qual o papel do professor?

Fazer com que os alunos discriminem o que de fato é conhecimento sistematizado e o que é senso comum/ideologia, muitas vezes “vendida” com um discurso sedutor que banaliza a reflexão teórica. 
 

Como os estudantes têm chegado à universidade do ponto de vista emocional?

Desenvolvo meu trabalho no ensino superior há 23 anos, portanto diferentes gerações de adolescentes e jovens passaram por mim. Cada turma é única, tem sua característica, que reflete o momento histórico em que está imersa. Hoje os meus alunos são bem diferentes das turmas que trabalhei em 1995. Falar e ter consciência dessa diferença é bom para o encaminhamento didático-pedagógico que tomo. Dizer que são diferentes não significa afirmar que são piores ou melhores do que as turmas passadas. De fato, a juventude de hoje tem um outro “time”, outros desejos, outras expectativas e outra forma de perceber o real.
 

Como a carência de inteligência socioemocional se reflete em sala de aula?

Quando o aluno está em sofrimento é difícil desenvolver a denominada inteligência socioemocional, pois torna-se penoso gerenciar o seu tempo de estudo, desenvolver novas posturas a partir do conhecimento aprendido; aliás, um aluno em sofrimento terá dificuldade para vir para a sala de aula e para aprender. 
 

Ensinar a lidar com a emoção também é papel do professor?

Sim, a docência possui diversas dimensões, a técnica, ligada ao fazer específico do professor para o encaminhamento de uma abordagem pedagógica; a política, no sentido de sempre explicitar qual teoria embasa a sua prática e suas opções didático-pedagógicas; e a humana, afinal de conta toda atividade educativa é uma expressão das relações entre sujeitos. Nesse sentido, é inevitável lidar com as emoções dos alunos, até porque eu defendo que o professor ensina a razão/conhecimento por meio da emoção. 
 

O suicídio entre jovens universitários tem sido frequente. Como você analisa isso?

O suicídio entre os jovens universitários, infelizmente, é uma realidade. Não conseguirei falar sobre a prevalênica, mas sei que é frequente o sofrimento psíquico, expresso por diferentes manifestações, como a depressão, a ansiedade extrema, o descontentamento, a automutilação... São situações reais de sofrimento! Quando falo real é bem no sentido do termo, ou seja, é verdadeiro, concreto, e eu, como professora, não posso duvidar da queixa do meu aluno, ou do comportamento dele. Há quem pensa que o compromisso do professor universitário se restringe a socialização do conhecimento, mas acredito que ao estabelecermos uma relação pedagógica com o aluno não há como ignorar a sua dor, até por que ela é visível. 
 

Somos mais globalizados e conectados. Está mais difícil ser colaborativo e empático?

Num mundo em que a tecnologia “aproxima os que estão distantes e ao mesmo tempo distancia quem estava próximo”, precisamos pensar formas de vivências mais reais, mais humanas; e, por serem humanas, essas vivências serão permeadas de conflitos, de debates, de ida e vindas, de mediações, de negociações. E nessas interações reais que poderemos construir práticas mais colaborativas e empáticas. 
 

Enfim, qual é a saída?

Resposta difícil... Acredito que a saída é sempre coletiva, mas cada sujeito tem seu papel na história, no processo de mudança de dada situação. Penso que a tarefa de educar uma nova geração tem se complexificado, mas precisamos buscar suporte no conhecimento, buscar teorias que de fato amparem decisões pedagógicas que considerem a realidade na qual atuamos e apontem mudanças necessárias. 
 


QUEM É ELA

Graduada em Pedagogia, especialista em Fundamentos da Educação pela Unioeste, mestre em Educação pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) e doutora em Educação pela Universidade Federal de São Carlos (UFScar), Solange Reis iniciou a carreira como professora universitária em 1995, logo que concluiu a graduação. Desde 1997, ministra aulas para o Curso de Enfermagem na Unioeste.

 

FRASES


“Precisamos pensar formas de encantamento e superar as velhas formas de humilhação como estimuladores de aprendizagem”

“O professor pode sim orientar os alunos para enfrentar algumas fragilidades, mas para isso é preciso estar aberto”

“Acredito que ao estabelecermos uma relação pedagógica com o aluno não há como ignorar a sua dor, até porque ela é visível” 


 

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